segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Mulher e a Serpente


Em entrevista a uma revista da Perdigão (Nº 74 - Novembro/Dezembro 2008) a futura prefeita do município Judith Alapenha declara, depois de ver com entusiasmo a chegada da empresa ao município que:

“No entanto, Bom Conselho ainda não está inteiramente preparada para receber um projeto desse porte. Vai ser preciso trabalhar muito e criar um plano diretor para dar condições para isso.”

Como todos já sabem, quase todos da CIT são originárias deste grande município, que me acolheu muitas vezes durante meu trabalho, mesmo não sendo de lá. Não sou um bom-conselhense da gema, como se diz, e talvez por isto, vendo um pouco de longe, ou pelo menos numa distância segura para não perder o foco, fiquei sem entender direito a frase. Alguém já disse que política é a arte do possível. Os prefeitos são pessoas políticas, ou deveriam ser. Será que nossa Prefeita usou sómente sua arte na frase?
Com a primeira parte é difícil deixar de concordar. Pelo que vejo lá atualmente, a cidade não está preparada nem para receber um carro a mais, uma escola a mais, um hospital a mais. Até mesmo alguém de fora, turista ou não, não cabe no município, sem muito sofrimento. E a Prefeita está falando de um uma empresa de razoável porte, para qualquer cidade média no Brasil.
Na segunda parte da citação temos duas questões diferentes. Uma provocada pela afirmação de ser preciso trabalhar muito, que ninguém pode contestar. A outra que determina criar um plano diretor para dar condições para isso (Bom Conselho preparada, imagino).
Eu pertenço a uma época, embora não seja tão velho, a qual, no serviço público, não se dava um suspiro sem que houvesse uma plano para isto, e normalmente tinha uma sigla, por exemplo, nesta caso poderia ser PPIEE (Plano Para Inspirar e Expirar Eficientemente). Depois esqueciam até o significado e, quando alguém perguntava, o que é PPIEE, era logo tachado de ignorante. Será que algum jovem hoje sabe o que é DNOCS?
Hoje estamos na época dos planos diretores. Depois da Lei 10257/2001 que regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição, e determina obrigatoriedade de planos diretores para cidades com mais de 20000 habitantes, todos, no município querem planejar tudo. Primeiro contrata-se uma equipe de técnicos que trazem debaixo do braço um modelo padrão no qual mudam-se apenas os nomes e os números das planilhas. Alguns técnicos locais reunem-se com a população, em encontros onde, fora os técnicos, quando vão, aparecem duas ou três pessoas. Fazem-se um breve histórico, colhem-se alguns dados e mapas (quando há), elabora-se um documento bem encadernado e envia-se a Câmara de Vereadores.
Este documento contém, ou deveria conter, idéias sobre o que será o município nos próximos 10 anos quanto ao seu desenvolvimento. Onde deverão ser instaladas as escolas, hospitais, fábricas, comércio, atividades rurais e outras, além de quando isto poderia ser feito e como. Não cairia uma folha de mato se não fosse pela vontade do Estatuto da Cidade e seu plano diretor. Iria atuar sobre cada pessoa ou coisa dentro do município com orientações e regras sobre projetos e obras públicas e privadas. Normalmente vai ser aprovado e haja solenidades. São tantas que não se percebe o Plano Diretor ir para o arquivo e sómente ser olhado na hora de criar argumentos para impedir a construção de um empreendimento de algum adversário político.
Eu não sei em que pé estar o Plano Diretor para Bom Conselho. Não sei se já existe ou não. Pela declaração da Prefeita, acho que não. Mas noto sua legítima preocupação, levantando a idéia de um Plano. Isto pode mostrar que, se hoje a Perdigão é um sonho em via de realização, pode-se tornar um pesadelo. Devemos deixar de sonhar por medo de pesadelos? Penso que não. No entanto, deve ser uma preocupação permanente do homem público (a Lucinha Peixoto já avisou, e eu concordo, que não devemos mudar os hábitos de escrever quando estamos falando especificamente sobre um mulher e colocamos o genérico como homem, neste caso pega até mal) tratar dos pesadelos que podem surgir, no final dos sonhos.
Fazendo um rápido e caricatural histórico, até 1824 Bom Conselho era uma fazenda de criação, passando a distrito em 1837 e chegando a vila em 1848. Em 1898 tornou-se cidade. Em 2008 elegeu para prefeito a primeira mulher. E aí chegou a Perdigão. Bom Conselho não era um paraíso antes da Perdigão, não o é agora. A não ser no encontro de papacaceiros, no qual este ano estarei presente, onde a cidade se transforma no paraíso pela força dos odores etílicos. Todavia, não permitamos que a primeira mulher submerja à tentação da serpente pela segunda vez. Prefeita Judith, mesmo que não a esmague, controle a cabeça da serpente (salcicha?). Um plano diretor sério é uma ajuda, mas tenho certeza a senhora precisará de muito mais.

Cleómenes Oliveira
Diretor de Operações

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