quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Quem Foram Meus Pais


Me foi perguntado, através de e-mail que a direção da CIT nos repassou, os nomes dos meus pais e profissão do meu genitor. Já agradecendo ao nosso interlocutor por ter gostado do meu artigo, digo-lhe, meu pai não era do SNP (Serviço Nacional da Peste). Posso dizer, pela suas condições sócio-econômicas, estava mais para usuário do serviço. Graças a Deus nunca precisou.
Meu pai se chamava Júlio, minha mãe se chamava Maria. Morreu de parto. Meu parto. Nestes casos de assassinato onde o assassino não tem intenção de matar. Homicídio culposo. Não fui condenado por nenhum juri, e a nossa sociedade, neste tipo de ocorrência, também nos perdoa. O difícil de ser perdoada era a pobreza do meu pai. Era padeiro. Também fazia artesanato de couro, que vendia nas feiras livres para sobreviver melhor com a segunda mulher. Não me lembro muito de sua vida. Fui criado em Bom Conselho, mas em outra casa. O contacto com ele era mínimo. Lembrei um pouco de mim quando li recentemente o artigo do senhor José Tenório de Medeiros, sobre o contacto com os seus pais, "mutatis mutandis".

Poderia ficar por aqui. Não sei se satisfiz o seu desejo, mas tentei. Prolongo minha descrição de mim mesmo falando da nossa terra, e de outros assuntos que possam interessar a todos, já que estamos ansiosos para participar deste seu redescobrimento. Nasci na Rua da Cadeia, hoje Rua José do Amaral, que ficou famosa por hospedar por alguns tempos nossa imortal e conterrânea Ana Luna. Eu não a conheci na época. Vendo o seu retrato, se a visse seria paixão a primeira vista. A casa onde nasci, se não me engano, era a última da rua. Como se dizia, e talvez se diga até hoje, na ponta da rua. Se dissesse sómente isto, seria o bastante para dizer, que nasci pobre. Hoje quem mora na ponta da rua, que é a entrada de Bom Conselho, com suas casas maravilhosas são os ricos. Naquela época não. Aqueles que nasciam no "meio" da rua eram mais ricos, ou classe média, e os mais aquinhoados nasciam na cabeça da rua.
Cheguei a completar o curso primário, já orientado por uma tia que morava no "meio" da rua, que tinha um filho besta, que só dizia que morava na cabeça da rua. Nem sempre as meninas levavam isto em conta. Eu era mais eu. Depois do primário, já existia o Ginásio São Geraldo, meu primo foi, eu não. Só restava o óbvio, trabalhar no comércio, o que fiz até quando saí de lá já rapaz.
Fui para São Paulo (o motivo porque fui é uma longa história, conto depois). Quem tinha o curso primário, em São Paulo, naquela época, podia até ser metalúrgico. Não gostava muito, mas já casado, tinha que sobreviver. Eu era esforçado. Cheguei até ao trabalho de escritório na fábrica. Neste tempo apareceram por lá umas coisas estranhas enormes, que tomavam uma sala inteira. Eram computadores. Ninguém entendia daquilo. "Curiosando", pensei, é uma chance. Fiquei junto de quem sabia e fui aprendendo, aprendendo e aprendendo. E aquela coisa crescia de importância. E eu junto. Fiz um exame que me deu o curso médio e curso (não superior) que dizia Analista de Sistema. Adotei isto até hoje e evolui com os computadores. Hoje ninguém me cobra o diploma de "bacharé" porque, quem me conhece sabe que manjo da coisa. Mas já sofri muita discriminação. O Brasil, com sua grande tradição bacharelesca, que está mudando, graças a Deus, leva os pais a, em vez de mandarem os filhos aprenderem, mandarem obter um diploma.
Chega de falar de mim. E a Rua da Cadeia? Como tive amigos lá. Na melhor fase da vida. Zé de Olga, Jurandir, Miguelzinho, Rubens de Miguel Gordo, Rui, Geraldo de Alves (ou Alvares), Zézinho de Anália, Carlinhos Mouco. Quase todos da ponta para o "meio" da rua. Do "meio" para cabeça, só conhecidos com jeito de amigos ou vice-versa. João de Vitinho, Zé Carlos, Damuriez, Damário, Zé Piulinha, Tanzinho, João Antônio Amaral e alguns que não me lembro. Veja bem. Isto é antes da década de 70. Portanto, não perguntem se eu só gostava de homem. Naquela época ter amizade com mulheres era mais difícil, devido aos preconceitos. Se alguém com menos de 60 ler isto, por favor, peçam ajuda aos pais para entenderem direito.
Já que estou tentando satisfazer o desejo de alguém, deixem eu satisfazer o meu contando um causo. Quem viveu na Rua da Cadeia, neste período, ouviu falar em Melquizedeque (não sei se é assim que se escreve). Ele era filho de militar reformado, sargento Moisés. Sua mãe, que não me recordo o nome, usava sempre óculos escuros, diziam que ela tinha uma doença nos olhos que as pálpebras caiam sempre e ela usava uns esparadrapos para segurar,( não sei se é verdade, nas nada desabonava sua conduta). Tinha uma irmã, muito bonita chamada Inês e um irmão, que também era militar chamado Benone. Melquizedeque (Melqui daqui por diante), foi uma das pessoa mais briguentas que eu conheci. Eles moravam em Garanhuns, e quando Melqui vinha a Bom Conselho, era para brigar. Os meninos e rapazes da cidade se reuniam, para escolher quem era que ia brigar com ele quando chegasse. Era difícil encontrar uma vítima. Certa feita, Geraldo de Alves, também metido a valentão e que contava, quando em Recife, enfrentou até a Rádio Patrulha, com detalhes de locais e tudo (só quando uns amigos vieram ao Recife procurar estes lugares, viram que tudo era invencionice), decidiu enfrentar Melqui na próxima visita. Veio menino até da Praça da Bandeira para saber os detalhes. Quando Melqui chegou, mandaram avisar Geraldo. Os dois compareceram ao local da luta. Parecia luta de profissionais de boxe, "comparando má". Alguns concordavam com a luta outros não. Mas começou. Os contendores se estudavam a turba se agitava. Geraldo de Alves aproveitou um descuido de Melqui e tacou-lhe um murro nos dentes que ele caiu. Nisto apareceram alguns adultos moradores das proximidades. Quase de frente da casa de D. Noca e de seu Domingos Guarda. Apartaram a briga. Melqui se levantou e saiu andando normalmente. Fomos brincar juntos de "lonha" (o termo usado era este, outros diziam brincar de bicho) no Correio. Melqui, ao pular o muro, caiu, e disse que tinha quebrado um dente na queda. Ele morreu anos depois assassinado num bar de Bom Conselho. Dizem que ainda possuia o dente quebrado. Zezinho de Anália, jurava que quem quebrou o dente dele foi Geraldo. Entrou por uma perna de pinto saiu por um perna de pato, senhor rei mandou dizer que você contasse quatro.

Jameson Pinheiro (jamesonpinheiro@citltda.com)

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