terça-feira, 18 de novembro de 2008

Reminiscências em torno do Entregador de Doces

Faz algum tempo estou tentando escrever alguma coisa para ser publicado pela CIT. Desde a época do site, desculpem, saite (que saco este negócio de seguir manual), eu tentava. O Diretor presidente dizia, depois de lê meus escritos, nem que a vaca tussa, será censurado, não adianta. Agora, sem censura - sómente do saite, porque a censura da direção continua - resolvi tentar de novo. Apresentei um rascunho do que vem abaixo colocado e, graças a Deus foi aprovado.
Pensei em não dizer quem sou. Neste nosso mundo de fantasmas, seria mais prudente, pois poderia até ir a Bom Conselho, e na primeira reunião da Academia, me apresentar como O Andarilho. Provas? Começaria meu discurso assim: Comunidade de Bom Conselho, representada pelos cidadãos e cidadãs de boa estirpe. Na Dignidade. Ética e Postura Honrada. Ficarei aqui na porta, recebendo os que aqui adentram e dizendo-lhe da felicidade de ler algum coisa sua, mesmo que não tenham escrito, e já sei que são boas. Bom Conselho é uma cidade sem problemas. Boas vindas, benvenute, welcome. Bom Conselho conta com praças limpas e aconchegantes, bancos higienizados. Bom Conselho conta com Parque agradável e arborizado. Bom Conselho conta com hoteis familiares e agradáveis. Bom Conselho conta com Igrejas atuantes, limpas e bem cuidadas. Bom Conselho conta com Escolas bem estruturadas. ..... (fico pensando porque a oposição ganhou as eleições para prefeito, que povo louco). Tenho certeza nem precisaria terminar, assumiria minha cadeira. Desconfiem também se aparecer por lá alguém dizendo que é o nosso Diretor Presidente. Pode mandar prender que é falso.
Sucintamente, meu nome é Jameson Pinheiro. Sou natural de Bom Conselho de onde saí com, não sei ao certo, mas acho que tinha uns 20 anos. O lugar onde a gente nasce nunca esquecemos. E quando nos tocam na mente como o saite de Bom Conselho nos faz, a saudade se aguça, o peito aperta e vamos lá dar uns bordejos. Hoje, não conhecemos quase mais ninguém, salvo Zezinho Ponta Baixa sentado na porta de Jordalino, ninguém mesmo. Só nos resta falar do passado. E aqui começa meu rascunho.
Li o excelente escrito do nosso, agora imortal, Gildo Póvoas: O Entregador de Doces. Meu Deus, apareceram tantas pessoas que comeram das cocadas sujas do Gildo que fiquei com uma bruta inveja. Não me lembro de ter comido delas. Mas vejam senhores o nosso destino, uma pequena peripécia de criança contribui de maneira decisiva para imortalidade de uma homem. O Gildo merece a imortalidade pela peripécia e pelo que escreveu dela. É pena que não comi. Sou mais velho. Na época já deveria comer mariola. Que pena.
Todavia, tive uma coisa que também fiz. Já fui na barraca de seu Belon. Comprava balas com figurinhas. Todo dinheirinho que ganhava era para isto. Álbuns e mais álbuns imcompletos. Também joguei "bafo" para trocar figurinhas. Quem não souber o que é "bafo" não continue a lê. Não vale a pena. O problema de reminiscências é que é um produto datado. Tem prazo de validade por idade.
Mas o que me fez escrever não foi só isso. É a outra barraca. A barraco do Neco. Era um pouco maior do que a de seu Belon e o estoque era mais variado. Mas, não é isto. Gostaria de escrever sobre o Neco. Onde estará o Neco. Eu era um adolescente. E o via numa cadeira de rodas. Rosto bonito, de óculos, branco-vermelho, dando ordens aos que trabalhavam na barraca e falando com os clientes em potencial. Um comerciante de nossa terra. Inteligente e conversador. Senso de humor à flor da pele. Vejam um exemplo. Na passagem de ano de 1959 para 1960, começo de uma nova década, surgiam sempre boatos de que o mundo ia acabar, etc. etc. Neste ano surgiu um boato a mais. Na virada do ano todos os negros -não me forcem dizer afro-decedentes, é melhor respeitar todas as raças, se existirem, do que ser políticamente corretos - iam virar macacos. Foram raras as vezes que ouvi a voz de Neco. Ia passando em frente sua barraca, ainda menino, ele me chamou e disse: Menino! Sabe que hoje, meia noite, todos os negros vão virar macacos. Com o meu espanto de sabedor o mesmo completou: Mas, tome cuidado que todos os brancos vão virar bananas. E começou a rir. Naquela época, não entendi muito o motivo do riso. Será que ele estava pensando no Barack Obama? Onde estará o Neco? Sua família. Um filho dele que ainda vi bebê. Um grande empreendedor.
Eu trabalhava no comércio. Acordava cedo. Não o cedo da capital, mas o cedo da roça do interior. Três da matina. Era eu que abria a mercearia ou venda, como dizíamos. Encontrava com outro bom-conselhense (será que ele nasceu em Bom Conselho?) famoso, Zé Bebinho. Quando chegava nas vendas, já tinha ido levar as malas de alguns passageiros no ônibus das cinco horas, para Recife. Ganhava alguns trocados. No balcão dizia: Bota uma ai prá mim. A resposta quase sempre era: Não, Zé eu não vou contribuir pra te matar. Ele, com as mãos trêmulas e ar de apavorado dizia: Pelo amor de Deus. Só hoje. E isto se repetiu e repetiu por muito tempo. Dizem que um dia parou de beber. Era um alcoólatra e trabalhador.
Na hora do almoço encontrava com outro famoso. Zé Bias. Trabalhando na Sapataria Confiança de Dona Teté. Deste, também deficiente físico, temos histórias maravilhosas, algumas contadas por Alexandre Tenório no saite de Bom Conselho.
E aqui eu devo abrir um parêntese, espero que breve, para dizer algo que me estar entalado a muito tempo. Sempre lia os artigos do Alexandre. De repente, por motivos que não vem ao caso aqui, ele deixa o saite. Procurei estes artigos já escritos e lidos por mim. Simplesmente eles sumiram de lá. Eles foram publicados. Depois sumiram. Quem tem a culpa? Podem perguntar, culpa de que? Meu Deus, este lugar onde hoje fluem informações de Bom Conselho para lá e para cá é uma fonte para os historiadores do futuro. Não se pode simplesmente, pela vontade de um ou de outro, desaparecerem. Vejam o mal que nosso Rui Barbosa fez à historiografia deste país queimando papéis relativos à escravidão. Quando escritos se tornam públicos não pertencem mais ao editor e sim à comunidade (me ajudem os historiadores de Bom Conselho, Celina Ferro, Jordalino Neto, Manuel Galdino, entre outros). Eu adoraria reler as históris do Zé Bias contadas pelo Alexandre como gostaria de ler sobre a Cristiania do Zé Arnaldo. Onde posso conseguí-los? No Arquivo ou Biblioteca Municipal? Fecha parêntese.
Outra figura que conheci foi Seu Carlos. Era cego. Hoje, diríamos, deficiente visual. Passava por ele e as vezes ia com ele. Cedíssimo. Seu Carlos, como o senhor consegue vir sozinho de casa até aqui? Deus dá o jeito, respondia ele. E lá ia ele com uma bengalinha, paletó, chapéu e alegria. Conheci também alguns dos seus filhos (se disser que um deles já trabalhou aqui comigo, vão dizer que eu estou querendo puxar saco, mas é verdade), que o vinham buscar do trabalho para casa. Nesta época não se falava em melhorar a acessibilidade para o deficiente. Quando não eram empreendedores ou mesmo tinha um pouquinho de chance ia pedir esmolas.
Quantos passavam em minha casa na sexta-feira: Uma esmolinha pelo amor de Deus! Perdoe, meu bom homem, hoje não tem. Alguns aceitavam a resposta de bom grado, outros resmungavam. Nisto o Brasil melhorou e Bom Conselho também. Ainda temos a Casa da Caridade, mas hoje, tenho certeza, ela é financiada pelos internos. E viva a aposentadoria para deficientes e idosos. O Bolsa Família não tanto, mas isto, já é outra estória.
Quem leu até aqui está cansado, e perguntando, o que este cara quer dizer? Eu só queria falar dos doces de Gildo e terminei entrando em suas Reminiscências. Desculpem.
Jameson Pinheiro
Analista de Sistema

Nenhum comentário: