segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Resposta a uma pessoa decente

Tenho recebido várias sugestões de nomes para serem candidatos a patrono da nossa tão sonhada (agora literalmente depois do sonho do senhor José Taveira) Academia, e, dentre as pessoas que me escreveram houve uma a que não pude deixar de responder. Como se dizia no nosso tempo, uma pessoa de caráter sem jaça. Ou, enfantizando aquilo que diz nosso poeta Carlos Sena, uma singularidade, singular. Era minha intenção publicar neste Blog o diálogo completo, entretanto, não recebi sua autorização para tal, então publico somente minha resposta. Não sei os motivos, mas, se o veículo de comunicação (nosso Blog) não for interessante, ela poderia autorizar ao Site de Bom Conselho sua publicação. (O Diretor Presidente da CIT proibe terminantemente a publicação de qualquer mensagem sem autorização das pessoas que a escrevem, o que acho a política correta, um e-mail é como nós usávamos antigamente: Uma carta). Na mensagem abaixo foram retirados todos termos e sentenças que identificassem meu interlocutor. Ilações podem surgir, mas, elas são livres.

"Caro Interlocutor,

Em primeiro lugar devo manifestar a satisfação que me envolve por receber uma mensagem sua. Esperei tanto e toquei tanto no seu nome (com todo o respeito que você merece) naquilo que escrevi anteriormente que você deve pensar que eu estaria doida para receber um mensagem sua. Se você pensou isto, está absolutamente certo. As vezes converso com os meus familiares e conto algumas das estórias que vivi em Bom Conselho e, quase sempre, fatos que o envolvem estão presentes. Perdoe-me este intróito tão longo, mas sou prolixa mesmo.
Concordo inteiramente com você que devemos levar a sério as indicações para patrono da Academia de Bom Conselho. Como você diz, a história nos julgará. Foi por isso que, escritos atrás, atrevi-me a lançar para este posto o nome do nosso conterrâneo Pedro de Lara, que é o nosso canditado ainda.
Neste ínterim surgiram indicações de outros candidatos além daqueles que eu conhecia na época, que eram o Marechal Dantas Barreto e o Coronel José Abílio. Como Pedro, eles tem seus méritos e seus deméritos. Mas ainda prefiro Pedro. Depois que o conterrâneo Carlos Sena lançou a idéia de uma consulta, a qual estamos tentando colocar em prática, surgiram muitos outros e outros surgirão. Entre eles já estavam o professor Waldemar Gomes de Santana mas não o do Dr. Joaquim Cirilo de Araújo Pereira (confesso que não sabia o nome dele completo, obrigada pela informação).
Devo dizer que o nome destes dois grandes homens de Bom Conselho, além do de Florisbello que você menciona, de quem não tive a honra de ser amiga, mas apenas admiradora, mostram que nossa eleição, plebiscito, enquete, pesquisa ou que nome tenha, se pecar, será por excesso de candidatos e não por falta.
De forma alguma aproveitarei esta resposta para fazer campanha para Pedro de Lara (Meu Deus, nunca pensei que a esta altura da vida, me tornaria uma política em campanha, mas quem sabe estarei treinando para cabalar voto dos imortais para galgar a uma cadeira na nossa academia) todavia, li os motivos que você deu para suas indicações. Sei quanto tem de verdade nisto, pois como já declarei muitas vezes, sou ex-aluna do Ginásio São Geraldo, e ouvia as reclamações feitas pelo prof. Waldemar. Não alcancei o auge desta luta (sou um pouquinho, só um pouquinho mais nova do que você) mas sei muito bem da história. Na minha época, nossa luta já era para fazer o curso científico ou clássico. Devo ao São Geraldo e a D. Lourdes Cardoso (a quem proporei como patronesse de uma cadeira em nossa Academia) o primário e o ginasial. Talvez este mínimo lapso de tempo tenha nos feito indicar diferentes candidatos. Menina pobre fui. Dificuldades para estudar fora, tive mais do que os meninos, você sabe bem porque. E não pertencia à chamada sociedade de Bom Conselho. Elite da época. Nunca cheguei a ter vergonha de ser pobre, mas mesmo no ginásio, a farda única vestida a semana inteira quase sempre não era um motivo de satisfação. A "sociedade" muitas vezes sabe ser cruel. Paixões juvenis esbarravam na falta de um curso de pintura ou de corte e costura. Fico pensando se hoje estaria aqui escrevendo se tivesse feito um curso destes. Mas, foi muito duro.



Muito tempo depois ouvi falar em Pedro de Lara. Gaita de padaria. Homem do povo. Emigrante. Lutador. Artista. Vencedor. Pensei. Num empreendimento de caráter tão elitista, só um homem do povo, para torná-lo mais humano. Machado de Assis era um negro pobre do Rio de Janeiro. Melhor escritor do que Pedro de Lara? É claro que sim. Como seria na época de hoje, o nosso Machado de Assis? Melhor jurado de calouros do que Pedro? Não sei. O que sei, é que não podemos perder a oportunidade de tornar nossa Academia uma organização cultural que, pela primeira vez pensa em povo na sua criação. Indicando alguém que escreva sem tristeza nem remorso:
"O filho quando não presta é espermatozóide estragado."
"Corrigir o incorrigível é buscar o impossível."
"É melhor doer na carne do que arder na consciência."
"A mulher quando é direita nem canhota perde a linha."
"O cinema ensina matar, a tevê ensina depravar, a droga ensina viciar e a JUSTIÇA ensina deixar pra lá." "Casar só pra casar é prato feito pra outro usar."
"No mercado da vida o homem é sempre um produto de oferta."
"Quanto mais dízimos, mais igrejas. Quanto mais igrejas, menos fé."
"O forte enfrenta a morte, o fraco vive correndo dela."
"Tapar a velhice com plástica é esquecer que a natureza é drástica."
Estes entre outras frases são do Livro da Sabedoria de Pedro de Lara. Faria Machado de Assis enrubecer, como deveria ficar enrubecido por ser negro e nunca ter dito palavra contra a escravidão. Na certa era um "preto de alma branca" como se dizia em Bom Conselho sobre negros que foram grandes homens de bem em nossa cidade. Meu caro Interlocutor, já fiz campanha demais por hoje. Mas devo dizer. Suas indicações são de pessoas que todo Bom Conselho deveria referenciar e lembrar. E serão sérios concorrentes em nosso plebiscito.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Lucinha Peixoto

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