quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Bodas de Ouro e Festas Natalinas


Estive em Bom Conselho para cumprir uma obrigação social. Atender a um convite de um amigo para assistir a suas Bodas de Ouro de casamento. Na frase anterior escrevemos duas coisas estranhas. Primeiro, nunca é obrigação atender a um amigo, é sempre um prazer, segundo uma festa de Bodas de Ouro de casamento. Antigamente, completar 50 anos de casamento era difícil pela limitação na idade dos cônjuges. Morria-se cedo. Hoje morre-se mais tarde, mas há muitos descasamentos. De qualquer modo é difícil chegar lá, e por isso é estranho. O bom destas festas é ver quanto pode se contruir em 50 anos. E como se “constrói” gente. Filhos, noras, genros, cunhados, cunhadas, netos e de outros tipos. Eu ainda sou solteiro e portanto não posso pensar em Bodas de Ouro de casamento, mas com minha idade ainda posso chegar lá aos 106 anos. Embora, algum dia já me passou pela cabeça adotar o pseudônimo de Brás Cubas em vez do que uso. Desisti pelas últimas palavras deste personagem magistral de Machade de Assis, no romance homônimo: "...não conheci o casamento...Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." Eu sou mais positivo.
Vou várias vezes a esta cidade, onde tenho muitos amigos. Todavia, numa festa assim eles estão todos concentrados num pequeno espaço. Foram tantos com quem falei que fatalmente, cometeria alguma injustiça ao citar alguns sem citar todos. Uns lembram de nós outros não, e somos reapresentados. Não se lembra de mim? Eu me lembro de você. Aquele carnaval onde dançamos o “pata-pata” com duas dose de rum no quengo! Ou, lembra das estórias do papa-figo? Fulano ainda é vivo!? São tantas perguntas e respostas que ficamos roucos. Como tocam alto estas orquestras. Temos que gritar todo o tempo para nos fazer ouvir e cansar nossos tímpanos para ouvirmos os outros. Lembram daquelas festas de vitrola onde todos conversavam sem gritos? Ah, que saudade.
É óbvio que uma estada em Bom Conselho nunca se resume a uma festa, por melhor que ela tenha sido, e esta foi das melhores. Mas, vejamos seu entorno. Ao chegar de automóvel, vindo de Garanhuns, segui o curso que faço todas as vezes. Ao chegar ao lado da prefeitura avistei algo assustador. Ao pé da ponte do Colégio um conjunto de ferro retorcido jazia. Muitas idéias me vieram ao cérebro sobre aquilo. Um meteorito. Um míssil. Um vulcão. Batidas de vários automóveis envolvendo 31 veículos. Cheia no Papacacinha trouxe estes dejetos para cima da ponte. Alguém que vinha comigo disse: É um Parque de Diversões. Ali? Naquele local? Não pode ser. Esperava encontrar parques de diversão, é quase Natal. Mas, ali? Não podia ser. Era.
Depois de me certificar da veracidade da informação de que aquilo era na verdade um Parque de Diversões, e ter saudades dos trivolis e das barcas, comecei a procurar uma forma de como chegaria ao centro da cidade. Aquele era o meu caminho natural. Ponte do Colégio, Siqueira Campos, Sete de Setembro e centro. Não havia placas sinalizadoras nem nenhuma indicação de como pudesse fazer isto. Eu era de casa. E se fosse um turista? Será que nossa Prefeitura ainda pensa que Bom Conselho não pode atrair turistas? Mesmo com problemas sérios de infra-estrutura nesta área, eles, os turistas, existem, e, tenho certeza, serão cada vez em maior número no futuro. Não deu tempo verificar se aquele estranho parque também atrapalhava a entrada para o Colégio N. S. do Bom Conselho, uma das nossas grandes atrações turísticas (quem viver verá). Se atrapalhar, é melhor colocar uma placa lá naquele deslocado portal da entrada: Não aceitamos turistas. Se quiserem entrar, façam-no por sua conta e risco.
Não podemos desprezar mais esta atividade. O turismo pode ser uma boa fonte de renda, além das outras que crescerão com aumento do parque industrial, preservada a sustentabilidade ambiental (física e cultural). No entanto, qualquer turista que passasse pelo portal, em direção ao centro, como eu fiz, voltaria da prefeitura.
Isto me fez, depois de escolher vias diferentes, a inquirir as pessoas da cidade sobre a causa daquela interdição de uma das vias mais movimentadas da cidade. Primeiro disseram que a culpa era da Prefeitura. Claro. Se ela é o órgão público responsável pela utilização do espaço urbano, ela será a principal culpada. Quando comecei a me aprofundar sobre a culpa da prefeitura surgiu uma nova versão. Teria sido a Igreja ou o padre que havia proibido o funcionamento do parque no centro, nas cercanias da Igreja Matriz. Não indaguei sobre os motivos do pároco. Qualquer que tenham sido eles não seriam justificativas para a prefeitura ter escolhido um local tão inadequado.
Dentro destas lucubrações, fui levado a uma estória antiga contada em Bom Conselho que, mesmo diferente daquela citada anteriormente, tem como mesmo tema os atritos entre autoridades públicas. Avisamos, no que vem a seguir qualquer semelhança com as autoridades atuais será mera coincidência.
Certa feita chegou à cidade um delegado novo. Homem brabo e resolvedor de problemas da lei e dos foras da lei. No Natal, como todos de minha idade sabem, havia a “festa” cujas atividades eram exercidas no entorno da Igreja Matriz. Ao comércio já existente, Sebastião Siqueira, passando por Zé Gordo, padaria de seu Vitinho, mercearia de seu Marçal, bar de João Jararaca, indo ainda para venda de D. Etelvina, - não me lembro se Ivan abria a Farmácia nas festas, mas sem os alto-falantes de João Prezideu não passávamos, nem sem o picolés da sorveteria de Juarez, - repito, a este comércio juntavam-se as barraquinhas onde se vendia de tudo, além daquelas fixas de Neco e seu Belon, para quem não quisesse entrar na casa de D. Lila para ver o seu presépio maravilhoso.
Mas, o que é importante para nós aqui são as atividades de jogos de azar que também invadiam a festa. Roletas, jogo de dados (bozó), jogo do jacaré (quase inocente mas de azar, perdia quase todo meu dinheiro tentando levar um perfume horrível para casa, se o jacaré parasse com a boca onde joguei), caipira (jogo com dados de seis números), e outros mais inocentes como derruba latas, pescaria, etc. Corria um bom dinheiro nestas atividades. Elas animavam a festa, pelo menos para quem ganhava, que em 100% (cem por cento) das vezes eram os donos dos artefatos da jogatina.
Num destes natais maravilhosos, o pároco da cidade decidiu proibir o jogo de azar na festa. Os argumentos dele eram os normais para um bom católico aceitar e até para os não católicos, porque o jogo de azar é proibido no Brasil desde 1946.
Os que não aceitavam isto eram os donos das roletas e aproximados. Procuraram o delegado. Os argumentos também normais. Jogo quase inocente, animação para a festa, anos anteriores na mais perfeita paz, pressão dos quase viciados para jogar, etc. O delegado, resolveu procurar o padre para um diálogo franco e sério do poder de polícia com o poder religioso. Ficou surpreso e cabisbaixo quando veio o sacristão (não me lembro se era o Paulo), veio ao seu encontro e disse: O padre manda lhe dizer que, se for a respeito da liberação do jogo, não há conversa possível. Ele espera que o senhor o entenda por agir como protetor das festas religiosas e dos bons costumes da família de Bom Conselho.
O delegado voltou e contou para os interessados na liberação do jogo seu quase diálogo com o padre. Todos ficaram consternados e chateados. Um deles, mais esperto do que os outros, disse: Mas logo agora que havíamos decidido dar uma boa contribuição para a Igreja! Sem mais delongas, tendo entendido o sentido da frase o delegado partiu outra vez para a casa paroquial.
Na porta, lá vem o sacristão outra vez. Antes que ele repita tudo o delegado diz: Quero falar com o padre sobre a Igreja Matriz. O sacristão voltou, depois de alguns minutos mandou o delegado entrar. Lá dentro conta-se que ouve o seguinte diálogo:


- Bom dia, padre, sua bênção.
- Deus te abençoe meu filho, o que o traz aqui fardado desta forma?
- A farda é do meu dia a dia padre, não a leve em conta. O motivo da minha presença é trazer uma proposta das pessoas responsáveis pelo jogo de azar sobre as festas da Sagrada Família.
- Caro delegado, eu o atendi porque o senhor mandou dizer que queria falar sobre a Igreja e não sobre jogo de azar.
- Mas é sobre a Igreja mesmo padre. Eles estão dispostos a dar uma boa contribuição a ela, depois das festas e estão contando com sua permissão para que o jogo possa anima-los como tem feito, dentro da ordem, por muitos anos.
- Uma boa contribuição?
- É, padre.
- Assim a coisa muda de figura. Pois veja bem. Se não houvesse Igreja não haveria os Santos, se não houvesse os Santos não havia festa e se não houvesse a festa não haveria jogo. Então, é justíssimo que a Igreja receba alguma coisa deles. Comecem o jogo só depois da novena, por favor.



Aquele parque de diversão, naquele local, sei não. Precisamos de um bom delegado. Mas, o padre não é o mesmo.


Saudações Natalinas
Diretor Presidente (diretorpresidente@citltda.com)

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