quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ecologia: Bom Conselho, Mesas e Pinicos


Por quase todo tempo de existência do homem sobre a face da terra, usando todos os recursos que, alguns dizem, Deus nos deu, nunca se pensou que chegaríamos o dia em que pudéssemos dizer: Se não soubermos usá-los eles vão faltar. Recentemente, para o tempo da ciência, surgiu o que se chama Ecologia. Ela tenta dar explicações sobre o relacionamento dos seres vivos entre si, e destes com o meio ambiente, que nada mais é do que o conjunto de coisas que cerca estes seres vivos. Hoje ela já é um ramo de estudo avançado, prenhe de termos complicados para nós, quase leigos. Não precisaremos deles aqui, com algumas exceções. Um deles é ecossistema. Esse palavrão indica tudo que existe na terra (e talvez fora dela quando formos lá). Animais (inclusive nós humanos), plantas, bactérias, (tudo que é vivo ou é considerado vivo), água, solo, gelo, vento, (considerados não vivos).
Desta forma definido podemos observar que toda atividade humana e sua relação com o meio ambiente pode ser visto como uma forma de sobrevivência do homem, e outros seres vivos, sobre a terra. Grande parte dos recursos necessários para que fossem satisfeitas as necessidades humanas proveio da natureza, ou recursos naturais, desde sempre. Para sermos enfáticos, durante toda sua história o homem usou a natureza como sua mesa e seu pinico. Se o que ele comesse em sua farta mesa e quando, o que, em consequência, fosse devolvido ao seu pinico não causasse a degeneração de nossos recursos naturais, teríamos um equilíbrio que garantiria sua vida na terra para sempre. Como se diz modernamente, teríamos um desenvolvimento auto-sustentável. Ou seja "comer" e "descomer" deveriam ser ações que, em conjunto, mantivessem um equilíbrio entre seres vivos e natureza, preservando nossa vida de forma perene, salvo acidentes de percurso, principalmente a partir de causas externas a este relacionamento.
Alguns economistas que estudam esta relação dizem que o uso da mesa e do pinico não podem ser do tipo que "causem estresse", em sua relação com a natureza. Não se pode exceder no que retiramos da natureza para satisfazer nossas necessidades, nem, devido a isto sujá-la em excesso com os dejetos da nossa ação. Um filósofo inglês, A. N. Whitehead (A Função da Razão - UNB, 1988), desde de 1929, onde preocupações ecológicas eram, praticamente inexistentes, já nos dizia que, nesta luta ou relação do homem com a natureza, temos três etapas, ou três formas de ação: Viver, viver bem e viver melhor. Viver, para todos os seres vivos, é uma "imposição". Talvez esta etapa seja a mais fácil de conciliar com a natureza, e com a não geração de estresse, porque é quase institivo. Os animais, fora o homem a usam para encontrar sua comida, se reproduzir, e viver sem desequilíbrio por muito tempo. Viver bem, já é uma noção que foge do simples instinto, nela entram decisões que devem ser tomadas para redução do estresse, que pertencem, em grande parte ao gênero humano. Mas é na etapa onde se pretende viver melhor, que a razão é um recurso supremo, e que só o homem tem.
São as opções modernas para viver melhor que nos causam aqui preocupação. "Lamentavelmente, o reducionismo de nossa visão de mundo tem feito com que essa busca haja se convertido na idéia exclusiva do crescimento econômico: aumento do PIB a qualquer custo."(Clóvis Cavalcanti - DP - 09/11/2008). O PIB é o que se produz de bens e serviços numa sociedade durante certo período. Esta hoje é quase a única medida de felicidade. O Brasil cresceu 4%, quer dizer hoje temos mais 4% de bens e serviços do que no ano passado, o PIB cresceu 4%. Quem os comeu ou os usou? Isto, quase sempre não tem muita importância. Quanto disto tiramos da natureza ou de nós mesmo, e que não podemos devolver no futuro? Menos importância ainda. E nossos filhos, nossos netos, poderão ter o mesmo que nós? Nenhuma importância.
Com esta mentalidade, onde podemos chegar? Ao lugar que estamos chegando hoje. Alguns cientistas estão apavorados, em pânico mesmo. Nosso estilo de vida, nossa forma de comermos e jogarmos o pinico fora, tem um custo de tal ordem, em termos de depredação do mundo físico, que qualquer tentativa de generalizá-lo levará inexoravelmente ao fim da raça humana como a conhecemos até hoje. Chegamos a um estágio, do ponto de vista do meio ambiente, que a crise pela qual passa o mundo atualmente, se torna benquista pela suas consequências de diminuir o nível de algumas atividades, e, desta forma, diminuir o tamanho da depredação. A pergunta importante é: O que está errado em nossa tentativa de viver melhor? A resposta completa é muito complicada, não a temos, e se tivéssemos o espaço aqui não seria suficiente para destrinchá-la.
Usaremos um exemplo do acontece e aconteceu na cidade de Bom Conselho, para triscar a resposta. Bom Conselho como forma físico-geográfica existe a milhões de anos. Na linguagem ecológica, seu ecossistema ou ecossistemas existem desde ai, e sofreram e sofrem transformações ao longo do tempo. Chegou o homem. Onde existiam florestas, matas, arbustos, rios e córregos foram criadas fazendas de gado. "O gado era criado solto no pasto. Contava apenas com a marca de uma flor-de-lis, que identificava a propriedade da família. Os escravos trabalhavam na lavoura nas proximidades da mata e da lagoa do Bulandin, que derramava suas águas entre as serras até desembocar no riacho Lavapés, que recebeu este nome porque os trabalhadores tinham como hábito lavar os pés quando voltavam do trabalho diário. O curioso era que estas águas serviam também para atividades domésticas, para beber e cozinhar." (De Capacaça a Bom Conselho - Celina C. Ferro) . Fora os escravos, isto é uma descrição de uma bela paisagem. Além disto, a fauna e a flora eram tão previsíveis que os habitantes castravam os veados e caititus, certos de que um dia voltariam menos felizes e mais gordos para a mesa. Isto deu até nome ao povoado, Capacaça, depois Papacaça e..... O importante aqui é que aumentou a mesa e aumentou o pinico. Com a abundância existente os desequilíbrios gerados no ecocossitema era mínimos, e despreocupantes, inicialmente.
O tempo foi passando, a população aumentando, e, consequentemente, mudando a forma de se relacionar com a natureza. Uma próxima etapa neste aspecto foi a construção do Colégio N. S. do Bom Conselho, liderada por Frei Caetano de Messina. "Povo de Papacaça, faz penitência! Quem não carregar pedra e tijolo para fazer a casa de Deus está nas profundas do inferno! Faz penitência povo! Deita na rua e te cobre para a procissão passar por cima!" (ibidem). O frei foi atendido ao ponto de Bom Conselho ser um dia chamado Cidades das Escolas. Já barrando rios, canalizando água, novos métodos de caça, fauna escasseando, o nível de estresse ecológico aumentava a cada dia. Talvez se passasse da etapa de viver para a de viver bem. Água ainda em abundância, secas um fenômeno não localizado, clima ameno e agradável dentro de uma comunidade feliz, apesar da cólera.
Com o desenvolvimento das comunicações a cidade descobriu o "progresso" dos outros e passou à tentativa de viver melhor. Bom Conselho se transformaria na Cidade do Leite. O café, as matas, os rios, quase tudo, eram eliminados para sustentar a fama da cidade com a maior bacia leiteira do estado. O nível de estresse ecológico chegou ao máximo. Chove pouco, a água é escassa, caça sumiu, a temperatura aumentou. Mas havia o leite. O ouro branco. Foi a fase onde um colega meu aqui na empresa me contou a história de um fazendeiro que destruia todas as árvores de suas terras para plantar capim. Uma árvore morta dava para criar mais um boi. Perguntado se não poderia estar comprometendo suas terras no futuro, com a desertificação, altas temperatura, e compromentendo a vidas dos filhos, ele respondeu: Eles que cuidem dos filhos deles como eu cuidei dos meus. Será que conseguirão?
Atualmente, está mudando alguma coisa? Parece que sim. Bom Conselho, deverá passar a se chamar de Cidade do Chester, ou outro nome qualquer que o identifique com uma grande empresa que lá se instala, a Perdigão. Esta empresa promoveu um evento na cidade cujo tema é: Preservar o meio ambiente: Responsabilidade de todos nós. Que, seguindo nosso argumento, poderíamos chamá-lo de Vamos ter cuidado com o pinico. Nada contra. Além disso promete em seu saite todo cuidado com a sustentabilidade e ecologia da região. Que bonito. Que responsabilidade social. Pode-se comparar a vinda da Perdigão para a cidade à construção do Colégio por Frei Caetano. A partir dela tudo será diferente. Pode-se dizer, Bom Conselho decidiu viver melhor e decidiu isto de uma forma racional? Será que foi feito um estudo ou pelo menos perguntaram qual a maneira com que esta empresa vai se relacionar com o meio ambiente além das promessas do saite? Sua atuação vai melhorar ou piorar o desequilíbrio com os ecossistemas? Teremos água amanhã? Teremos rios limpos e bonitos? Teremos ar puro para respirar, ou deveremos comprar oxigênio caro?
Alguns, talvez a maioria, dirão. Se não tivermos, temos emprego e renda suficiente para comprar ar puro em Garanhuns. Esquecem que outras perdigões invadiram Garanhuns e seus habitantes querem comprar também. Vamos para Caruaru. Lá é que tem perdigões a mancheias. E assim por diante.
Os mais práticos, aqueles que seguiram as regras para viver melhor dirão: Se não pudermos viver melhor, é melhor não viver. Como passarei sem uma TV de plasma de 42 polegadas? E sem um carro novo na garagem? Sem uma viagem ao exterior? Mais modestamente, sem a geladeira, sem fogão a gás, sem o celular GSM com banda larga, sem computador (ai até eu morrerei)? Será que esta é a única saída? Morrer, sucumbir, escafeder-se se não pudermos viver melhor. Para mim, existe uma, embora não perfeita e imcompleta. Uma sociedade mais igualitária. Isto só pode ser conseguido de forma coletiva, através de órgãos públicos que se conscientizem do problema, e passem a tentar resolvê-lo. Para que isto ocorra, uma mobilização social é fundamental, mas não só a partir das empresas.
Todos não podem viver melhor. Mas todos podem viver. Se todos os que vivem melhor hoje, pensarem que sua forma de vida é inadequada para todos, talvez haja uma chance. Para isto Educação é fundamental. Se pudéssemos, com o desenvolvimento de formas de conhecimento novas e convincentes fazer como Frei Caetano de Messina fez com sua forma de conhecimento não mais muito aceita, dizendo: "Povo de Papacaça, chega de tanta paciência! Quem não fiscalizar as empresas e órgãos público que não tratem bem o meio ambiente está nas profundas do inferno! Chega de paciência povo! Levanta-te e vai às ruas. Cobra dos seus governantes uma posição firme diante daqueles que, em nome de viver melhor, esquecem do teus filhos e netos." Quem sabe se assim, com o medo do inferno, um dia todos possam viver bem, diminuindo a diferença entre o tamanho das mesas e pinicos dos pobres e dos ricos. Ora, dirão os de pinico grande, isto só é possível se diminuirmos o pinico de todos. Ora, dirão os cidadãos conscientes e responsáveis pelo nosso futuro, que sejam diminuidos, para garantirmos que nossos filhos e netos tenha força para sentar numa mesa e usar um pinico.


Cleómenes Oliveira - ( cleomenesoliveira@citltda.com )
Diretor de Operações.

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