sábado, 6 de dezembro de 2008

A Favorita


Dias atrás, depois de um dia de trabalho, estava vendo TV com meu marido e minha filha mais nova, a única que os homens nos deixaram. Temos quatro filhos, só dois do meu gênero. Os sogros dos nossos dois homens deverão estar dizendo e sentindo o mesmo que nós. Hoje eu acordei família. Outros dias acordo Flora. Quem vê novela sabe que estou falando do personagem de Patrícia Pilar na novela A Favorita. Quem não vê esteja avisado. Não continue a ler, seria pura perda de tempo. Ou passe logo para parte final.
A Favorita era o que estávamos vendo. Quando o Halley ia ser informado pela Donatela que ele não era irmão da Lara, o telefone tocou.
É óbvio que, nestes momentos, a diferença entre os sexos fala mais alto. Para nós mulheres, pelo menos nesta época dita moderna, em algumas ocasiões, não atendemos telefone, nem que chova canivete ou as esquerdas se unam. Sabemos de antemão que nenhuma amiga terá o desplante de ligar numa hora crucial destas, e se tiver, será só para antecipar o que vai acontecer na novela. Não queremos saber. Isto é uma função de homem. Querem o que? Não fazer nada? E lá vai meu marido atender o telefone.
E com aquele ar de contrariado pelo risco de perder a revelação da novela, atende (os ...... indicam o que não estava ouvindo, era o outro).

- Alô!

......

- Oi, Oliveira, estava acabando de ler o teu artigo no Blog, sobre Ecologia e Pinicos, mas ainda não terminei.

......

- Foi mesmo, rapaz?

......

- Tás brincando, não tás?

.....

- Não acredito que tu ficas perdendo tempo com estas bobagens. Sinceramente.

.....

- Eu, nunca. Eu sou espada, cara!

.....

Tá, vai te catar. Vai fazer alguma coisa de útil. Tchau!!!

Eu pergunto, quem era, filho? (Quando estou Flora só o trato de criatura prá baixo). Ele responde. Era o Oliveira para dizer que no capítulo de ontem de Pantanal, o Tenório pega a Maria Bruaca com o Alcides. Hoje, eu não posso perder.Vejam que disparate. Papagaio come milho periquito leva a fama. Homem vê novela e mulher leva a culpa sozinha. Foi sempre assim. Quantos feitos grandiosos foram devidos as mães e as esposas. Mas elas não apareceram. No máximo eram homenageadas por cumprirem as suas obrigações.
Lembro, quando menina, em Bom Conselho de uma festa na Igreja Matriz no dia das Mães. Não sei se só houve um ano. Foi organizada por, entre outros, um homem chamado Zé Coletor (não o conhecia bem, mas, pelo nome, deveria ser coletor). Seu Gabriel na serafina, Dona Lourdes no coro e a igreja cheia. Eram homenageadas as mães que participaram de feitos memoráveis em suas funções. A mãe mais nova, a mãe mais velha, a com mais tempo de casada, a que teve mais filhos (me lembro até de quem ganhou neste ítem, a mãe de Gervásio Matos, de quem conheci mais de perto os irmãos, Zé Matos Grande e Zé Matos Pequeno, que era Zé Milton). Mas, não me lembro de nenhuma homenagem, por ter elas terem feito alguma coisa fora das funções de mãe. Foi sempre assim.
Hoje está mudando, mas não tanto. Quando recebi um bando de mensagens indicando pessoas para patrono da nossa Academia, ficava torcendo para surgir um nome de mulher. Torci, torci, torci e cansei de torcer. Não apareceu. Como organizadora do processo, fiz minha campanha por fora destas escolhas, e todos sabem que meu candidato é também um homem. Acabou a época de campanha, agora é eleição.
No entanto, nada me impede de fazer justiça a algumas mulheres que são de nossa terra e poderiam muito bem terem sido indicadas como favoritas ao título de patronesse (estamos querendo dizer o feminino de patrono, mas nem isto existe de forma clara, patrona é algo muito diferente. A CIT está contratando um professor de português para estes e outros casos, José Andando de Costas, dizem que ele é cobra.) da nossa Academia. Jamais me lembrarei de todas. E nem as conheci todas. Outros lembrarão e reportarão aos historiadores. Tentarei seguir uma ordem cronológica, mas para não querendo ser tão explicíta quanto a idade, me desculpem se falhar, em alguns anos. - Penso que este negócio de querer ser ou parecer jovem é um pouco de doença hereditária. Uma hipótese, a ser verificada, é que isto se devia ao abandono a que eram levadas as mulheres mais velhas, em priscas eras. Isto explicaria a lenda de que nós mulheres éramos clientes da Avon desde a época das cavernas. - Calma, amigas, é só uma hipótese, e depois da cirurgia plástica, ela é de somenos importância.
A que lembro primeiro, sem colocar mãe no meio, é D. Lourdes Cardoso. Foi minha professora. Morava na Rua Joaquim Nabuco e a escola era lá. Dos meus colegas, nesta época, me lembro sómente dos seus filhos, Zé Dário, Pedro, Maria, João Batista, uns mais velhos outros mais novos do que eu.
O marido sapateiro, meu Deus, como posso esquecer seu nome? Isto não é velhice, são lapsos de memória. As aulas eram dadas na sala da casa, dentro da maior simplicidade.
Qual a corrente pedagógica seguida? Racional-Tecnológica? Neocognitivista? Sociocrítica? Ou Holística com pitadas de Pós-Modernismo? Disto eu me lembro muito bem, era o Palmatorismo. Esta linha pedagógica me acompanhou durante quase toda a etapa de alfabetização e primário, e teve o seu expoente máximo em Dona Lourdes, com alguns repiques no Ginásio São Geraldo, com o professor Waldemar. Muitas vezes havia variantes como o Puxarcabelismo e o Tapismo mesmo. Como era eficiente aquela corrente pedagógica. No primeiro ano primário já sabia ler e escrever. Ler correto e escrever correto. Fazia conta e sabia a tabuada. Lucinha, 5 vezes 8? Ahn! Ahn! ... Maria? 40. Um bolo na Lucinha e se der devagar, eu vou dar. Até hoje sei a tabuada. Mas não sei mais fazer raiz quadrada que já aprendi com outros métodos, mas temos hoje as maquininhas "Made in China". No final do ano havia exame oral, e num deles, lembro bem, até o prefeito (João Felino) foi. As perguntas eram feitas na frente dele e as respostas também. Isto já aconteceu quando a escola mudou para o Posto de Saúde, um pouco mais acima na rua. Era uma forma do prefeito avaliar o emprego do dinheiro público. Simples mas eficiente.
Lembro, em sua casa não havia banheiro, quando tínhamos necessidades, havia a Pedra. Não, gente moderna, não era para fazer na Pedra. A pedra ficava em cima da mesa da professora. Como o mato era o único local para atuar, não havia as divisões de hoje entre feminino e masculino, nem se admitiam conversas nas horas de necessidade. Professora, eu preciso ir fora. Lucinha você não está vendo que a pedra não estar aqui? Espere. Isto indicava que outro estava fazendo suas necessidades. Se o caso fosse de emergência, ela mesma iria ver porque a pessoa que estava fora demorava tanto. Se estivesse flanando, o Palmatorismo era utilizado.
Entretanto, não seria sómente por ter sido minha professora, que indicaria D. Lourdes para patronesse da academia (para patronesse de uma das cadeiras indicarei, quando e se a Academia for criada). Ela foi de muita gente, uma grande educadora religiosa. Só que nem enxerga a importância da religião para formação individual e social das pessoas são estes ateus (como o Oliveira), que pensam, por serem eles homens de bem, isto ocorreria com qualquer um, mesmo sem religião. Um fato me vem à mente. Quando chego hoje nas igrejas vejo o comportamento, muitas vezes, relaxado e mesmo desrespeitoso de certas pessoas dentros dos templos, sejam eles de que religião forem. Até hoje, quando me sento num banco de igreja, não cruzo as minhas pernas. Porque? Pelo beliscão que ela me deu certa feita numa igreja, por ter feito isto. (Esta é outra variante do Palmatorismo, o Beliscaocionismo).
Além disto, era muito boa cantora sacra, e duvido que alguém no nosso tempo, não conhecesse sua voz na igreja cantando: A nós descei divina luz.... (Caro Gildo Povoas, nobre imortal, poderia ser o hino que você lembrou, Achei Jesus..., mas todos conheciam a voz dela. Será que alguém teria estes hinos gravados? A CIT não tem só ateus mandem prá cá e divulgaremos de alguma forma).
E eu queria falar de outras mulheres, falei de uma e olha onde já estou. Continuaremos depois. Se escrever mais, ninguém ler, mesmo que veja a novela A Favorita.



Lucinha Peixoto - ( lucinhapeixoto@citltda.com )

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