segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Vamos aprender Brasileiro


Começo me apresentando. Sou José Andando de Costas. José porque nasci laçado. Não foi em Bom Conselho mas vou me esmerar para conquistar o tão sonhado título de Cidadão Honorário. Pelo menos foi o que prometi ao Diretor Presidente da CIT, em minha entrevista para este honroso cargo de revisor das bobagens escritas em seu Blog. Isto quando forem escritas em Português, em Inglês a tarefa pertence a Lucinha Peixoto.
Andando pela minha mãe, de ascendência espanhola, mas especificamente de Cuba, onde a família Andando, no período recente, orientou Fidel Castro a deixar o poder, com o lema, vá andando na frente que atrás vem gente. De Costas pelo meu pai. Família importantíssima em Portugal, da região de Monsanto, onde há tanta pedra que não foi preciso muito esforço para ele se adaptar ao agreste pernambucano, onde vivi grande parte da minha vida.
Estudei línguas neolatinas, com especialização em português, língua com a qual lido, algumas vezes como professor e outras como revisor. Esta última, minha tarefa atual na CIT. No entanto, tenho uma teoria e prática da língua portuguesa, sobre sua importância e seu uso, as quais não considero tradicionais. Talvez tenha sido por isso que hoje sou um contratado desta empresa inovadora e de nobres objetivos pela qual comecei a trabalhar recentemente.
Desculpem-me se for óbvio demais. Mas, para algumas pessoas, se não falarmos o óbvio ululante, eles pedem para desenhar senão não entendem. Usamos a linguagem para nos comunicar uns com os outros. Os monólogos são formas de expressão onde tentamos, e muitas vezes não conseguimos, nos comunicar com nós mesmos, vamos deixá-los de lado. A comunicação através da linguagem, foneticamente, envolve o falar e o ouvir, o escrever e o ler. Quando o que falamos ou escrevemos não é entendido por quem ouve ou lê a comunicação é inexistente. Se esta situação se repete, se repete e se repete, a língua morre. Um exemplo simples. Quando o Brasil foi descoberto a língua mais falada nele não era o português. Não imagino, na história, Pedro Álvares Cabral ter dito para uma índia: Tu és uma rapariga mui fremosa! Nem tampouco a índia responder: Rapariga é a tua mãe. Não sei como este diálogo poderia ter acontecido em Tupi, nem tem importância aqui. Para o Tupi, língua falada na época do descobrimento, existiram muitos estudos e até gramáticas foram escritas pelos jesuítas. Mas, hoje é uma língua morta (com algumas exceções na Amazônia). Por que? Falta de comunicação em Tupi dando vez á língua usurpadora que era o Português. Mas como isto pôde acontecer, se cada um falava uma língua diferente. Por que não ficaram cada um com a sua?
Isto ocorreu por um período de tempo. Entretanto, não pôde perdurar. Em alguns setores, a própria sobrevivência dependia do aprendizado da outra língua. Aquele que sobrevivia melhor vencia até na língua ou, vice-versa. Quando a índia do exemplo acima, compreendeu o que Cabral queria dizer, já respondeu em português: Castrar! Castrar! Se ela tivesse dito castrar em Tupi, mesmo falando errado para Cabral ir entendendo aos poucos, talvez castrar hoje fosse: Apiaocar, que é parecido com castrar em Tupi. Mas, deve ter surgido um índio professor de Tupi, já tendo decorado as regras gramaticais, prosódia, fonética, ortoépia e outras coisas que aprendemos para ser professor, e disse, você está falando erradamente, fale corretamente, diga apiaók. Nem é preciso dizer que a índia preferiu dizer castrar, porque era mais difícil o gringo entender o que ela falava corretamente. Talvez, se tivesse dito apiacar, apiacar, a língua estaria morta de qualquer jeito, mas a influência do Tupi seria muito maior, e assim ela sobreviveria noutra, como sói acontecer.
Nossa teoria é que o a língua inglesa, contemporaneamente, saiu na frente porque a civilização que a fala e escreve teve e tem um peso enorme sobre nossa economia, sociedade e cultura e o inverso ainda não é verdadeiro.
Voltemos a meados do século XX período em que vim ao mundo. O que tínhamos em nosso país? Uma população quase rural, onde imperava o coronelismo, mulher não votava, o homem mandava, não havia luz elétrica, a taxa de analfabetismo chegava a 50% da população adulta, uma carta demorava um mês ou mais entre o Oiapoque e o Chuí, e era privilegiado quem tinha um rádio ou um relógio de pulso de corda. Estamos no século XXI. Não preciso citar muitos fatos e dados para ver como são tantas as diferenças. Fomos redescobertos, agora pelo mundo digital. Vivemos num mundo globalizado onde da rapidez da informação depende a sobrevivência. A língua inglesa começou e domina neste mundo novo. Queremos manter nossa língua portuguesa mas, nossos filhos aprendem primeiro inglês para teclarem no computador com os colegas coisas que não entendemos. Isto quando são de classe média e tem acesso ao computador. Nas classes menos favorecidas, onde o computador próprio ainda é um bem de luxo, usa-se as Lan Rauses para aprender inglês e não português. O que fazem? Jogam video geimes. Que só acabam quando aparece na tela Game Over (geime ôver). Em breve cessa a comunicação entre nós, pais e filhos, igual ao que aconteceu aos índios no passado. Novos professores, novas gramáticas, novas regras para que o português seja preservado, preservado para quê? Para fazer o vestibular, ofícios para repartições públicas e concursos públicos. Então alguns proclamam: “A língua é, depois do território, o maior patrimônio de um povo. Como é dever inalienável defender a integridade territorial, não é menor obrigação preservar o idioma do país. (Waldênio Porto – DP – 12/12/2008). Se posicionando contra a reforma ortográfica. Ora, ele frisou bem, depois do nosso território, e perguntamos, qual território? O do sul do país invadido por empresas estrangeiras ou o do norte invadido por ONG,s internacionais? Qual a língua falada pelos habitantes da amazônia atualmente? Inglês ou Português?
Vamos supor que se consiga não fazer nenhuma reforma ortográfica, não se aceite nenhum neologismo ou estrangeirismo, e tudo continue como antes. O que ocorrerá? A língua portuguesa, que ai está, com tremas, acentos, cedilhas, hífens, que tanto se chocam com os computadores, será desprezada pelas novas gerações, sendo estudada, sem nenhum entusiasmo, somente para fazer vestibular, ofícios e concursos públicos. E, assim sendo, tenho convicção, em breve só se falará inglês nesta terra, abençoada por Deus e bonita por natureza. Se usarmos termos como saite, internetes, blogues, mauses (em Portugal é rato, parece piada de português), imeio, deletar (já consta de alguns dicionários de autores mais realistas), baites, gigabaites, pendraive, agadê, cepeú ou similares, serão portugueses, pelo menos foneticamente, e poderemos sobreviver mais tempo com nossa língua. Hoje já existe o Português Brasileiro e outros Portugueses, no futuro nossa língua poderá ser o Brasileiro. Todavia se continuarmos com nossa tradicional rejeição ao novo, brevemente falaremos inglês nas ruas e estudaremos português nas escolas, para os fins citados anteriormente. Quem sabe, se acordarmos para o óbvio, o Brasileiro, um dia não será uma língua falada em todo mundo? Para isto temos que avançar econômica, tecnológica e culturalmente com todas as influências sem xenofobia lingüísticas baratas. O Latim morreu há muito tempo mas, vive em outras línguas, inclusive no Português. Se o Português morrer, viva o Brasileiro.
Disse acima que minhas teorias sobre a língua portuguesa, pelo menos ao usá-la não eram muito tradicionais. Retificamos em parte, porque nossa atitude já estava prevista pelos lingüistas (o trema foi o processador de texto que colocou por conta própria, se a função de professor de português fosse esta, eu estaria desempregado há muito tempo) que orientaram a inclusão de estrangeirismos e neologismos de uso corrente no Brasil ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) de 1942, aprovado por unanimidade pela Academia Brasileira de Letras. Apenas o que estamos propondo é a inclusão deles pela absoluta necessidade de comunicação entre as pessoas. Deve-se se ter uma maior agilidade na atualização deste vocabulário oficial, antes que esta comunicação seja feita somente em Inglês, enquanto nas escolas se estuda o Português.
Portanto, nossa filosofia de trabalho resume-se em deixar as pessoas se expressarem com o potencial que têm. Ajudemos àquelas que querem usar o português de uma forma mais tradicional. Mas, não ajamos feitos cães raivosos contra aqueles que cometem erros gramaticais, prosódicos, fonéticos, ortoépicos e outros triviais, e, no entanto, se comunicam bem, e mantém nossa língua viva. Ao invés de nos preocuparmos em pesquisar se o indivíduo é doutor ou não, mestre ou não, analfabeto ou não, para corrigi-lo, antes disto, tentemos entender o que ele diz. Se entendermos não o sacrifiquemos com cultura inútil.
Vamos encarar a realidade. Um pessoa que não terminou o curso primário é considerada como analfabeto funcional pelo IBGE (menos de quatro anos de estudos completos). No Brasil em 1992 a taxa de analfabetismo funcional era de 36,9%, melhorando em 2002 para 26%. No Nordeste estas taxas eram de 55,2% e 40,8%, respectivamente, entre a população acima de 15 anos (http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/educacao.html). Vamos ouvir o que eles falam, vamos ler o que eles escrevem. Se quiserem nossa ajuda para se enquadrar dentro da gramática, prosódia, ortoépia e outros nomes feios, devemos estar à disposição.. Senão, critiquemos o que disserem ou deixarem de dizer de forma clara mais não vamos criticá-los quando disserem ou escreverem que “os companheiro precisam trabalharem para o Brasil comer melhor, o povo tão com fome”. Sabemos que estes jamais passarão no vestibular, nem escreverão um ofício, nem farão concurso público. Mas, com inteligência e argúcia, poderão até contribuir com a Reforma Ortográfica e falar à Academia Brasileira de Letras começando a vislumbrar nossa língua num futuro bem próximo: O Brasileiro. Um deles conseguiu e lançou recentemente um neologismo: Sifu, que brevemente estará no Volp ou Volb (Vocabulário Ortográfico da Língua Brasileira - Ver foto ao lado).
Poucos dias atrás Luis Fernando Veríssimo escrevia se sentindo culpado por nunca ter usado o trema. Diz ele, quando começou a escrever para o público, continuou o ignorando, deixava os trabalhos para os revisores, se eles quisessem botassem o trema. Eu juro para todos neste momento, no meu trabalho como revisor da CIT, jamais colocarei um trema em artigo de ninguém. E se alguém usá-lo eu não o tiro, pois tenho certeza de que foi o processador de texto que colocou, e que ele desaparecerá com a Reforma Ortográfica.
Conto uma estória ilustrativa do assunto. Num desfile de Sete de Setembro, em Bom Conselho, o locutor que narrava a parada estudantil, vendo o povo invadir o local por onde passariam as escolas, gritava: Polícia, polícia... o povo estão invadindo, o povo estão invadindo! Eu estava perto de um colega, professor de português dos mais conceituados da cidade. Então disse para ele: Por que você não corrige este locutor? Ele com a calma que é peculiar aos bons professores de português, disse: Se ele falar correto o povo não entende. Como eu aprendi naquele dia!
Resumindo e finalizando. O papel do revisor é melhorar a comunicação dentro dos padrões lingüísticos de mais altos níveis. Mas, não os dele e sim dos de quem escreve ou fala. Afinal de contas, se todos sempre seguissem os gramáticos, ainda estaríamos falando Latim. Deixa o Brasil falar e escrever. Português nós já sabe. Queremos aprender é Brasileiro.



José Andando de Costas (jad67@citltda.com)

Revisor

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