quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sonhei - Complemento



O bom filho à casa torna, já dizia o brocardo popular. O senhor José Fernandes Costa, homem das leis e das letras, nos envia um tópico para publicação. Todos estão de férias, aqui na CIT. Sendo eu a mais recente aquisição desta empresa, fiquei responsável pelos recebimentos de imeios, ou mensagens eletrônicas se preferirem, em nossa caixa comum, e se possível, providenciar o que foi pedido. No tópico abaixo ele, José Fernandes, nos permite, caso queiramos, publicar o seu tópico. De minha parte, caro colega das artes linguístiscas, você será sempre bem-vindo ao nosso blogue. Não o conhecia nem aos seus escritos, por isso ganhei um tempo muito bom ao ler o que você publicou no saite de Bom Conselho e uma parte, pequeníssima, de sua biografia, o que foi o bastante para ver sua intimidade com as palavras e frases no uso do português, digo, língua portuguesa.
Confesso, sem intenção nenhuma de fazer crítica literária, que gostei mais de sua linha poética do que a prosística. Para ser sucinto, diria que você é um proeta. Um simples neologismo que mostra uma pessoa com as mesmas habilidades na prosa e na poesia e que odeia qualquer “libertinagem escrotora e poetera.” (Adorei os neologismos na prosa Passos do Português, que comecei a ler pensando ser uma receita de como se dançava uma música do Roberto Leal, mas não era. Era um libelo bem organizado contra os maus escritores da língua portuguesa. Bravo).
Além disso, nesta leitura descobri suas amizades e inimizades na empresa, o que não me dizem respeito. Numa delas sou acusado de ser um apelido pela similaridade dos sons e grafias dos nossos nomes. Confesso-lhe que acho o seu de sonoridade mais agradável. Mas o meu não é apelido.
Depois deste intróito, um pouco longo por necessidade, passemos ao ponto chave. Minha função aqui é de revisor dos textos publicados no Blog da CIT – o diretor presidente ainda não está convencido de minhas propostas quanto à grafia de palavras estrangeiras muito usadas – e , seria o que deveria fazer com o texto do José Fernandes Costa. Claro que para entender melhor o que proporei deve-se ler meu artigo: Vamos Aprender Brasileiro no linke: http://www.citltda.com/2008/12/vamos-aprender-brasileiro.html e, claro, o de José Fernandes no linke: http://www.citltda.com/2009/01/sonhei.html . Isto ajudaria muito na compreensão deste texto.
Antes de entrar no artigo propriamente dito vale um comentário sobre uso que ele faz da palavra blogue. Perfeito. Maravilhoso. Só falta constar do Volb (Vocabulário Ortográfico da Língua Brasileira). Duvido que alguém não entenda sua frase nos dias de hoje, com exceção dos analfabites (veja bem, “i” tem som de “i” e não de “ai”. Em inglês “bite” pronuncia-se “baites”, em brasileiro “bites”), que infelizmente ainda são muitos em nosso país. Imaginem, ainda temos um alto grau de analfabetismo, e qual o grau de analfabitismo (Analfabite é aquele que não tem acesso às modernas tecnologias da informação digital, por não poder, não querer ou mesmo por pensar que dar câncer).
Quanto ao título, Sonhei, eu sugeriria, pelo teor do sonho, um novo título: O Pesadelo de Policarpo Quaresma. O Policarpo é um personagem criado por Lima Barreto (se alguém daqueles que nos lêem, lerem pelo menos um pouco de Lima Barreto, já valeu a pena o que escrevemos neste blogue) continuando, Policarpo, era o burocrata exemplar, pragmático, vivendo uma rotina rigidamente determinada. Funcionário público, patriota nacionalista extremado. O interesse primordial de sua vida era o Brasil. Por isso, seu desejo ufanista de aprender tudo sobre a sua terra. Monta uma biblioteca tipicamente brasiliana. Começa estudar violão, modinha, folclore, e deseja fazer com que o o tupi-guarani seja a língua oficial do Brasil. Eu fico imaginando se ele tivesse o mesmo sonho, ou pesadelo, que teve o José Fernandes. Certamente, ele teria um fim mais triste do que aquele que teve. (Que fim? Leiam o livro, vale a pena).
Pensei muito no Policarpo quando propus, não voltar, mas, avançar para o Brasileiro como língua oficial do Brasil. Talvez tenha um triste fim como ele teve, mas alguém tem que acabar com o nosso Complexo de Vira-Lata. Porque ter medo de palavras estrangeiras e de outras culturas pensando que ao usá-las estamos nos subestimando? Muito ao contrário. É o não uso das boas influências que nos fazem patinar, em termos de desenvolvimento, na rabeira de outras nações, este é o verdadeiro Complexo de Vira-Lata. O Japão descobriu isto a duras penas. A China, A Índia, os países asiáticos, e nós? Com medo de anglicismos, francesismos, e ficando no latinismo dentro da nossa tradição bacharelista retrógrada, quando os europeus aprendem Japonês e Chinês. Um dia, se diminuirmos nossa xenofobia lingüística e tradição bacharelesca, eles é que irão querer aprender o Brasileiro.
Continuando nossa análise do sonho, tarefa que seria mais bem executada por Pedro de Lara ou por Freud, diríamos ao José Fernandes que, os nomes próprios de pessoas e lugares não devem sofrer modificações. Eles devem continuar sendo escritos como o são no idioma de origem: Bush, Thatcher, etc. Da mesma forma que o trema, que Deus o tenha, deve ser usada em nomes de origem estrangeira, e.g., Gisele Bündchen, Müller, etc. O pesadelo se tornaria mais palatável grafológicamente. No entanto, como ele é terminantemente contra a recente reforma ortográfica, os efeitos do pesadelo podem ser muito diminuído com a participação, durante o carnaval, no bloco criado recentemente, parece-me que em Boa Viagem: Os Órfãos do Trema. Li o excelente tópico do blogue do Carlos Sena sobre o trema, (ver linke: http://ca.sena.zip.net/arch2009-01-01_2009-01-31.html#2009_01-05_10_29_45-128348707-27 ) não sei se foi ele quem criou o Bloco mas deverá ser um dos componentes.
Quanto aos outros aspectos do artigo, digo, quem sou eu para criticar o colega ao escrever usando a língua portuguesa. Seriam apenas humildes comentários dentro da nossa visão de como ela deve se comportar em novas reformas que fatalmente virão. E virão, porque um país não é só formado por linguistas ou professores de português. Existem fatos políticos, econômicos, sociais e culturais que nos levam a sermos práticos, sem os exageros do Policarpo Quaresma, mas tentando preservar a unidade do país aceitando o fato de que não estamos sós, e os outros, inclusive na língua, também contam. Não é à-toa que Portugal foi quase unanimemente contra à reforma. O status quo (não quero voltar para o Latim) lhe favorecia. Como diz o angolano, favorável à reforma, José Eduardo Agualusa: “Portugal acha que a língua é dos portugueses, isso quando eles foram colonizados pelos árabes, esquecendo ainda que o centro, hoje, é o Brasil, com 95% dos falantes.” Mesmo admitindo que esta é uma defesa política da reforma, isto não deixa de ser um fato importante para acreditar que sonhar com o Brasileiro ou Língua Brasileira, pode ser um sonho bom e não um pesadelo.
Outros acordos virão e nossos netos – ou bisnetos? – nos agradecerão. Isto é um trabalho de muitas gerações. O angustiante, e ao mesmo tempo importante, aspecto do sonho mau do José Fernandes é o fato de tudo acontecer de repente. Na pena (que saudade), na tecla dele, pela sua capacidade de escrever corretamente, ele leva imediatamente Pontes de Miranda para Quebrangulo e Waldênio Porto para Caldeirões dos Guedes. Não sou o diretor presidente da CIT, mas posso assegurar que os dois seriam bem-vindos ao nosso humilde escritório em Caldeirões, pois nesta época já estaremos falando a Língua Brasileira, e os dois, mesmos já velhinhos ou em espírito, terão a capacidade de aprendê-la. Outros aprenderam a escrever farmácia ao invés de pharmacia, e terão muitas ideias com a mesma força das idéias que tiveram antigamente com menor gasto de tinta, e o mais importante, atingindo de uma forma mais eficiente um número maior de leitores.
Quando chegarmos a esta época, também já teremos capacidade tecnológica para exportar os nossos teclados com os nossos acentos, se necessários, e nossos processadores de textos, sem trema, aos quais outros países terão que se adaptar. Todos estarão aprendendo brasileiro. Quem não aprender não toma banho e pode até morrer de sede. Para fazer os pedidos de compra de petróleo, vindos do pré-sal, só aceitamos escritos em brasileiro. Os turistas devem saber a língua para pedir um sorvete de pitanga, e este será muito caro. Quando exportado, a forma de usar será em brasileiro. Quem não aprenderá a língua brasileira para tomar um sorvete de pitanga?
Isto leva tempo. Mas quanto mais cedo despertarmos para o mundo em que vivemos, melhor. Não é evitando o contágio de outras línguas e culturas que salvaremos a nossa. É o contágio, a interação com elas, com confiança e alta-estima que criaremos uma língua e cultura fortes. Basta olhar para história.
Meus Deus, pensei no Triste Fim do Policarpo Quaresma, e me lembrei da epígrafe que o autor usou, originalmente, em francês, e cito uma tradução dela, para terminar:

O grande inconveniente da vida real e que a torna insuportável para o homem superior é que, se para ela são transportados os princípios do ideal, as qualidades se tornam defeitos, tanto que muito freqüentemente aquele homem superior realiza e consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar.”


José Andando de Costas

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