quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sonhei

Prezados (as) senhores (as): caso queiram, podem publicar no seu blogue. Isso, se os rabiscos abaixo servirem para alguma coisa. A seu critério. - Agradeço, José Fernandes Costa.

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Sonhei



Tive um sonho estapafúrdio. Pra mim. Para outros, seria legal paca. Sonhei que o jurista Pontes de Miranda ainda era vivo. E havia botado fogo em tudo quanto havia na sua biblioteca. Isto é, tudo que fora escrito em língua portuguesa. Obras e mais obras do professor Pontes iriam de ponte abaixo. Sem contar as inúmeras coleções de autores outros, que compunham a sua vasta biblioteca.

Por quê? - O professor Pontes de Miranda decidira morar em Quebrangulo, cidadezinha das mais atrasadas(*) do Estado de Alagoas. E lá ele se dedicaria a ensinar inglês a todos os habitantes daquela cidade.

(*) Com todo respeito e carinho por aquela gente injustiçada e vítima dos maus políticos. Morei em Quebrangulo e ali tenho centenas de parentes.

Prosseguindo no meu sonho: sonhei que Waldênio Porto havia abandonado Recife. Nem mais queria saber da Academia Pernambucana de Letras. E se mudara para Caldeirão dos Guedes, onde iria ensinar inglês a toda aquela gente pacata.

Sonhei que o George Buche passara a presidência dos Estados Unidos da América do Norte para Barack Obama e viera fixar residência em Nova Iguaçu, na baixada fluminense. E a Margarete Tátixa havia vindo com o Buche. Mas a Tátixa iria morar no Morro do Alemão, no Rio. Porque ela não encontrou o Morro do Inglês. Ambos, o Buche e a táctica, iriam dar aulas de língua inglesa. Buche ensinaria a todos os habitantes da baixada, até que não sobrasse um só sem dominar a língua inglesa. E a Tátixa ficaria com toda a cidade do Rio de Janeiro.

Essa foi a parte mais chata do sonho. Logo o Buche e a Tátixa? Por que não a Britney Spears e Buchetinha, a filha do Buche? Nesse ponto G (de gata), com a minha teimosia em não aceitar o Buche e a Tátixa no Brasil, eu fazia inflamada argumentação oral para trocar o Buche pela Britney e a Tátixa pela Buchetinha. Em vão. Vencia o mal. E ficavam o Buche e a Tátixa, para minha tristeza.

O Buche e a Tátixa haviam trazido 69 aviões cargueiros, entupidos de teclados para computadores - sem nenhum sinal gráfico -, para que os brasileiros se esquecessem logo dos tremas, hifens e outros sinais da língua portuguesa, por demais inconvenientes.

Continuando o mesmo sonho: sonhei que o Evanildo Bechara, abandonara a Academia Brasileira de Letras, a tudo renegando. E se mudara para Cornélio Procópio, no interior do Paraná, a 440km de Curitiba, porque queria tão-somente ensinar inglês aos cornélios.

Além de ter de suportar mais uma das intromissões do Buche e da Tátixa - a de teimarem em viver no Brasil -, a minha maior angústia era imaginar como todo esse imenso contingente de brasileiros iria submeter-se a concursos vestibulares, sabendo-se que centenas de faculdades estão com datas marcadas para seus exames, visto que estamos no mês de janeiro.

E os que vão concluir defesas de teses, terminar dissertações ou elaborar seus relatórios? Ter de refazer tudo isso, passando para o inglês! Com tempo tão curto para se modificar tanta coisa, como iria ser isso possível?

Sem contar os milhares de inquéritos policiais já em andamento e com prazos exíguos para a sua conclusão. Delegados de polícia, juízes togados e promotores de justiça entraram em polvorosa. Porque, esses agentes, que devem fazer cumprir as leis, estavam com seus inquéritos, sentenças e pareceres quase prontos. Todos haviam sido escritos em língua portuguesa. E teriam de ser passados e repassados para a língua inglesa. Não haveria tempo, porquanto muitas dessas peças continham cerca de 400 ou mais páginas.

A menor das peças era uma sentença de 112 páginas, do juiz Fausto de Sanctis, que condenava o banqueiro coroinha, Daniel Dantas, a 108 anos de reclusão, por haver este tentado subornar um delegado da polícia federal. No meu confuso sonho (e que sonho!), aquela sentença, mesmo em português, já havia sido publicada. O processo transitara em julgado, porque a defesa do sacristão Daniel Dantas havia cochilado e perdido o prazo para ingressar com recurso.

Com a decisão de refazer tudo, aquele julgamento ficaria sem efeito. Os advogados de Dantas estavam rindo à-toa. E Dantas, então, nem se fala. Era só alegria. Defecando e andando. Pois Dantas sabia que, com essa reviravolta, o recurso impetrado por seus advogados iria cair justo no colo do Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal. E aí seriam favas contadas.

Nessa confusão toda eu tentava lembrar-me de uma grande comunidade que dominava a língua inglesa de cabo a rabo. Sem tirar nem pôr. Se eu me lembrasse onde habitava essa grande família, tudo estaria resolvido. Porque, em 72 horas (no máximo, estourando, em oito dias), o português já era! Não o português dono do bar ali da rua ao lado. Mas, a língua portuguesa. Essa coisa ultrapassada. E tudo que necessário fosse, doravante, seria processado na língua inglesa, sem nenhuma dificuldade. Graças a sapiência daquela grande comunidade, cujo nome e endereço ora me escapavam.

Foi quando lembrei-me do meu tempo na Associação Brasil Estados Unidos, crente de que eu mesmo seria gente para tamanha tarefa. Qual o quê? De pronto, entendi que sou um analfabeto de carteirinha. A única palavra que decorei, em todo o aprendizado, foi yes! Mas o sotaque e a pronúncia são horríveis!

E quem disse que eu me lembrei da briosa comunidade, que fala, escreve e traduz o inglês, como quem toma sorvete lá na esquina? Na minha cabeça, só vinha a lembrança do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que entrara em vigor, mesmo insipiente, no dia 1º de janeiro de 2009. Outra ingrisia para os meus miolos. O que fazer com tanta coisa que se discutiu e se escreveu em torno desse acordo ortográfico? Acordo esse que é uma grande besteira. Acordo que não tem acordo. Porque não unifica nada nos oito países que falam e escrevem em língua portuguesa. E que passaram 22 anos debatendo o pretenso acordo. Para, ao final, ele só trazer mais confusão do que solução. Ou melhor, trazer muita confusão e nenhuma solução.

Nisso fui acordando. Olhei em volta e vi os meus livros velhos, com as mesmas frases em português. Alguns já rotos, mas com a mesma serventia. Avistei um com o nome de Eça de Queirós na capa. Fui ver de perto. Tratava-se de O primo Basílio. Aí cismei: essa de Queirós!!!

Mais adiante, um punhado de papel que havia imprimido antes de me deitar. Eram alguns sonetos de Raul de Leôni. Todos em português. Sãos e salvos.

Aqui, chegamos ao ponto G (de Giménez), isto é, da Lucianta Gimenez. Entendi que havia sonhado. E o quanto aquele sonho fora nebuloso. Dei de ombros, guardei os sonetos de Raul de Leôni e voltei a dormir, tranqüilo que nem um anjo. Não quero mais sonhar com essas baboseiras, NÃO. - a) José Fernandes Costa.

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