quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Acordo ortográfico (1)

"No Brasil, escreve-se português com açúcar."
Eça de Queiroz.




Reportando-se ao acordo ortográfico que sentou praça em nossas praças, o Millôr Fernandes diz que teme perder o chapéu, ops!, o circunflexo no Millôr. Eu lhe disse que sossegue, porque o circunflexo é nosso. Depois me lembrei de que o circunflexo também é de muitas outras línguas.

Vêem, antevêem, revêem, dêem, crêem, descrêem devem perder o circunflexo. Mas vêm, intervêm, provêm, têm, mantêm, detêm não vão perdê-lo. Vão mantê-lo.

Porém, sempre há um porém. O Millôr tem outras indagações: se houve plebiscito nessa história de acordo; se alguém ouviu um grande escritor ou algum dedicado professor de português, dos tantos quanto existem por aí. Segundo o Millôr, só os velhinhos da ABL daqui e de lá (Portugal) foram auscultados.

Mas eu ouvi alguns professores. E senti a preocupação deles com as dificuldades que advirão para os seus alunos. Até porque a muitos professores, que não sejam tão dedicados, faltam conhecimentos e sensibilidade para lidar com essa problemática. E ninguém pensou como será a capacitação desses professores já meio capengas.

Pois precisam preparar-se para dizerem aos seus alunos que eles podem escrever das duas maneiras - a de antes e a pós-acordo. E dizerem que nenhum professor, nem banca nenhuma pode tirar ponto de aluno ou candidato que escreveu paranóia, antiinflacionário, idéia, heróico, freqüente, argüir, vêem, crêem, auto-escola numa prova ou concurso público. Que eles, os alunos e nós todos, temos quatro anos para nos adaptar a essa barafunda.

E a confusão se vai instalar na cabeça de muitos: ao dizer que idéia, heróicos, Coréia, paranóico não têm mais acento agudo, o professor tem que dizer por quê. Ao explicar que papéis, heróis, anéis, carretéis, anzóis, caracóis vão manter seus acentinhos, também precisa ele dizer por qual razão. Deixar claro que o acento só morreu para os ditongos abertos das palavras paroxítonas. E está vivinho da silva para os das oxítonas.

Haja dúvidas por cima de dúvidas. Porque nós vamos continuar escrevendo em língua portuguesa. E os alunos têm que escrever muito vida afora.

Agora mesmo o Instituto Rio Branco está abrindo inscrições para concurso de admissão à carreira de diplomata. O concurso abrange quatro fases de provas. Quem lograr êxito na primeira fase, que consta de várias matérias, vai para a segunda fase, somente de língua portuguesa escrita, com caráter eliminatório e classificatório. Se passar, submete-se às outras duas fases.

Pergunto: quem não quer melhorar de vida? Todos queremos, novos e velhotes. Mas, para isso, é preciso saber escrever na língua-padrão. Do contrário, o Itamaraty dá-lhe um pé-na-bunda.

Quem já tinha dificuldades com a língua, vai ficar pior. Então, dentro do Brasil, nenhum ganho para nós. Só há ganhos para os comerciantes de livros didáticos, dicionários, manuais de redação etc.

Assim, chamamos isso de grande acordo comercial. Se houver um pequeno ganho nas relações internacionais, isso não justifica os gastos, que serão lançados na coluna de prejuízos. Prejuízos para nós, pagantes de impostos. Não tenham dúvidas: sobrou pra nós, os macaquinhos que votam e pagam impostos!

E se é certo que outros medalhões não foram consultados, também é certo que foram muitas as viagens para seminários, congressos, conferências etc., para tratar dessa minirreforma. As conversações começaram em 1986. Portanto, foram 22 anos de proveitosas (para quem?) viagens e convescotes. E os países africanos, que falam o português, quase nem foram ouvidos.

Pra que ouvir africanos? - Devem ter pensado os grandes reformadores. Ocorre que há bons escritores nos países africanos de língua portuguesa.

Gastaram-se alguns milhões nessas idas e vindas. Mas os milhões já gastos com os convescotes, não são nada, se comparados com os milhões e milhões que se vai começar a gastar para reeditar tudo. O Ministério da Educação pode falar sobre o material escolar que se deve importar, satisfazendo os editores, que são pouquíssimos, mas vão ganhar muitíssimo, à custa desse acordo. Muito dinheiro nosso vai rolar por baixo e por cima desse miniacordinho.

Portanto, os velhinhos de lá e de cá, obraram muito bem quando puseram o nome acordo. Porque se trata de um acordo financeiro. Acordo comercial. E em acordo comercial, ninguém se une. Apenas existem os ganhos financeiros. Cada qual defende os seus. Ou seja, ninguém deixa o seu na reta. Depois, havendo civilidade (se é que há civilidade entre comerciantes) - havendo civilidade, comemora-se o resultado com o perdedor. E sai-se pra outra. Esse é o jogo das finanças!

O que se contém nesse esboço de acordo, que teve uma gestação de 22 anos, é um fiasco. Veio mais para confundir do que para explicar. Isso não é teimosia, nem apego a velhos costumes, nem radicalismo, nem saudosismo, nem conservadorismo. É constatação!

Tenho encontrado esse texto em vários veículos de comunicação. Do "Estadão" ao portal de internet "Corto cabelo e pinto". Muitos o reproduzem. No Corto cabelo e pinto, há comentários de leitores. Alguns deles se viram contra o presidente Lula que assinou o acordo. Dizem que o presidente da República é semi-analfabeto e, por isso, tal aberração haveria de ter a sua chancela.

Apesar de dicionários registrarem semi-analfabeto, eu nem concordo com esse termo. Porque ou você é alfabetizado, ou semi-alfabetizado ou é analfabeto. Mas, deixa pra lá. O danado é que os que dão essas opiniões usam o português sinuoso e subnutrido.

Por essas e outras, resolvi dar os meus palpites sobre o acordo que se diz ortográfico e que está aí na praça. Nunca vislumbrei nele mudanças para melhor. Também não acredito que ele vá unir coisa nenhuma. Então, julguei-me no direito de me intrometer. Antes, porém, quero citar alguns pontos de vista de quem entende do assunto.

Leiam o que escreveu a respeito, Marcelino Freire, escritor e ganhador do Prêmio Jabuti, pelo seu livro "Contos negreiros":

Essa coisa é, repito, mais financeira. Não acredito que seja para melhorar. Nunca acredito nisso. Em projeto para unificar. Eu quero desunificar a língua. Como escritor, deixem que eu mesmo mexa nela. Requebre e rebole. Bote ou não bote trema. Deixem que eu trema. Que eu junte ou não junte. Minha pátria é minha língua. Logo, única. Viciada. Por que, ora, em vez disso, atenção e aviso: o pessoal não se preocupa em banir o estrangeirismo excessivo pelas ruas e 'shoppings'? Pelos edifícios. Xô, MacFish. Quero o peixe, o tubarão. Certo? Chega de 'all right', meu irmão."

E o escritor angolano, Ondjaki, autor de "Os da minha rua", pensa do mesmo jeito de Marcelino.

O escritor e jornalista português, João Pereira Coutinho, que tem excelente coluna no jornal Folha de São Paulo, considera o acordo "um brutalíssimo erro". E notem que Coutinho, nos seus artigos assinados, procura usar os vocábulos empregados na nossa escrita e não os de uso em Portugal.

O professor e estudioso da nossa língua portuguesa, Pasquale Cipro Neto, disse: "Estamos fazendo a reforma no susto." Pasquale ainda acredita nesse ensaio de reforma. Mas nem deveria acreditar.

Os retoques finais desse acordo, saíram da luneta do renomado professor e acadêmico da ABL, Evanildo Bechara. Na redação do miniacordo, há impropriedades de colocação pronominal e redundâncias. Mas isso é de somenos. Não é a redação que está em debate. É a essência do projeto; é o que ele poderia representar de avanço. Mas, não houve avanço. Trocamos seis por meia dúzia.

Basta que o leitor atento veja a quantidade de observações e pendências que estão no texto. São exceções que não vieram para confirmar a regra. Essas exceções vieram para mostrar os desacertos.

Se ao menos houvessem escrito Chico em vez de Francisco, haveria um ganho: menos letras no texto. Mas, do jeito que está posto, quem não sabia usar hífen, vai continuar sem saber. Porque o hífen continua existindo. Apenas mudou de lugar. Ele não sumirá das nossas penas, nem dos nossos teclados. Até o trema permanece nos nomes próprios, de língua estrangeira, e seus derivados: Müller,mülleriano,Jünger,Bündchen.

Mas o trema praticamente nos abandonou. O hífen, teimoso que é, não nos vai abandonar. E como ficam as mentes de quem mal acabou de se alfabetizar, ao deparar-se com quente e frequente; com aquilo e arguir; com banquete e consequente? Como pronunciar?

Os defensores do miniacordo dizem que o espanhol é falado por 400 milhões de pessoas e tem escrita única. Matreiramente, esses defensores não dizem que dentro da Espanha existem quatro idiomas: o castellano (oficial); o gallego; o catalán e o bascuense. São idiomas com escritas diferentes. Não são dialetos.

Deixemos o espanhol, para nos ater às incongruências do pretenso acordo. Basta-nos observar o emprego do hífen. Na forma anterior, pouca gente sabia usá-lo. Na forma hoje pretendida, tornou-se o samba do crioulo doido: muitas palavras mantêm o hífen; muitas outras das que o tinham, deixaram de tê-lo; e outras que não o tinham, adotaram-no.

Ora, quem corta o trema / que diz onde está o fonema / e que dá o tom da pronúncia do que é conseqüente / e mostra tudo quanto é quente. Por que manter o hífen em vice-presidente?

É muita desordem num só pacote!

Exemplos de palavras que mantêm o hífen: ano-novo (o ano entrante: feliz ano-novo); bom-dia, boa-tarde, bem-vindos, guarda-chuva, recém-nascido, recém-iniciado, pré-histórico, pré-natal, pós-graduação, pós-acadêmico, pró-reitor, conta-gotas, azul-claro, pró-empresários, cor-de-rosa, segunda-feira, sexta-feira, erva-doce, vice-rei, mal-me-quer, sem-vergonha, sem-terras, além-fronteira etc.

Agora, cantem comigo:

Eu estava em Pernambuco / e um velho maluco me apareceu. Vinha com um acordo enrolado, emaranhado e dizia: "Toma, que ele é teu."


Voltarei ao assunto. - José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br

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