sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Aniversário de Ana Luna e o Licor de Jenipapo


O nosso Diretor Presidente sempre nos avisa para não personalizar nosso Blog de forma extrema evitando, pelo menos, títulos com nomes de pessoas, fotos que possam comprometer ou ferir alguém, citações maliciosas sobre pessoas, etc. Eu concordo em parte, mas, como convém, não em tudo. Se Ana Luna, minha amiga, embora não nos conheçamos pessoalmente, e, só não confidente pela distância que nos separa – confidência tem que ser ao pé do ouvido, por e-mail perde a graça – nos manda uma mensagem dizendo que seu aniversário é hoje (28/02), não posso repetir aquele artigo dele: Falando para a Lua (http://www.citltda.com/2008/11/falando-para-lua.html), desculpe-me.
Este, que agora escrevo, foi motivado pelo o aniversário de Ana. Tratarei de outras coisas para não perder o ensejo.
Ana nos brindou, poucos dias atrás, com uma receita culinária. Confesso que tentei fazer o seu Alho em conserva. Deve ficar divino. Mas, esbarrei na falta de alguns ingredientes aqui nestas terras de Recife, mais chegadas a Galinha de Cabidela. Começou com o alho espanhol e empacou mesmo na pimenta jamaicana, que nem no Mercado de São José tinha. Cara amiga, cozinho direitinho, no entanto, não tenho o mínimo de criatividade na substituição de ingredientes. Deixei para fazer depois.
Meu contacto com a cozinha vem do interior, como acontecia com todas as moças casadoiras da minha época. Minha mãe vivia repetindo: Como queres te casar se não sabes nem fritar um ovo? Hoje quando tenho a petulância de dizer às minhas filhas uma coisa como esta, elas dizem: Mamãe, hoje as mulheres não fritam mais ovos de ninguém, às vezes, chutam neles. Penso em ralhar com elas, mas me lembro de que já está na hora de pedir um Frango Xadrez num restaurante chinês qualquer. Oh vida!
Voltando ao assunto, aprendi a cozinhar o básico: feijão, arroz, um bife, e até um macarrão no domingo. Saladas e verduras não, ninguém comia naquela época. Meu pai dizia que não era boi prá comer capim. Quando conto isto hoje, a uma amiga de minha filha, que é nutricionista, ela fica perguntando como cheguei a esta idade. Mas, vê logo, gorda. O meu nível de renda familiar não ajudava na diversidade culinária. Demorei mais a aprender a fazer o bife do que o feijão com arroz. Atualmente, não estaríamos engajados num Bolsa Família, mas só fui para o Ginásio com uma Bolsa de Estudo. Era estadual mas foi o prefeito, Dr. Raul, que falou com seu Waldemar. Muitas vezes criticam o Programa Bolsa Família, eu, nem sempre. Só os desvirtuamentos. Meus pais não votaram no canditato A ou B porque me deram a bolsa, e se eles pedissem isto seria inútil. Ambos eram analfabetos e ainda não votavam.
Dentro desta realidade o que me propus, neste artigo, foi tratar de uma receita de um licor que meu pai fazia. Antes, porém, uma explicação.
Na minha época de criança e adolescente, em Bom Conselho, havia uma tradição de oferecer uma bebida aos visitantes das mulheres paridas recentemente. A mais conhecida era o “cachimbo”. Tenho dúvidas se o “cachimbo” se referia ao acontecimento de tomar a bebida, qualquer bebida (hoje vou a casa de fulano tomar o “cachimbo”, a mulher dele deu à luz, foi “corno”, é mulher), ou, se era referente à mistura de cachaça com açúcar ou mel de abelha que se oferecia.
Lá em casa, meu pai ia além. Ele gostava de servir um Licor de Jenipapapo. Pesquisando, com as facilidades de hoje, descobri que o jenipapo é o fruto do jenipapeiro, árvore nativa das Américas do Sul e Central, chega a medir 14m de altura e 60 cm de diâmetro. A fruta de polpa aromática, ácida, de cor marrom clara que chega a ter 10 cm de comprimento e 7 cm de diâmetro. Pode ser usada em compotas, doces, xaropes, bebida, refrigerante, licor. O jenipapo é utilizado como fortificante, estimulante do apetite, indicado contra a anemia e doenças do baço e do fígado. É rico em ferro, contém cálcio, hidratos de carbono, calorias, gorduras, água, vitaminas B1, B2, B5 e C. Nunca pensei que tivesse tantas utilidades.
Assumo que não sei onde meu pai encontrava os jenipapos que usava na sua produção doméstica e de parturição. Será que em Bom Conselho mesmo? De qualquer forma, procurei e encontrei também uma receita de Licor de Jenipapo. Aqui vai:

Ingredientes:

4 jenipapos grandes --
1 litro de água;
1 kg de açúcar;
1/2 litro de aguardente (cachaça),de boa qualidade
.

Preparo:

Lavar bem os jenipapos, cortá-los ao meio e deixá-los durante 10 dias, num vidro fechado, juntamente com a aguardente.
Passado esse período, fazer uma calda grossa, misturando o açúcar e a água — em fogo alto, gastam-se aproximadamente 45 minutos. Deixar ferver bastante.
Retirar do fogo, esperar esfriar, e despejar a cachaça (aguardente) na calda,
apertando os frutos com as mãos.
Retirar os pedaços do jenipapo e passar a bebida num coador de flanela e depois num coador de papel.
Se o processo estiver muito lento, trocar o filtro. Depois de pronto, guardar em garrafas, bem fechadas.

Não sei também se o processo de preparo era bem este, mas é muito parecido. A única coisa diferente é que vi meu pai usar mel de uruçu, e dizia ser o seu segredo. Se era o seu segredo, morreu com ele. E aquele ficou sendo o nosso Licor de Jenipapo. Parabéns Ana e tintim com o nosso licor.

P.S. – Antes da publicação mostrei este artigo ao Diretor Presidente, ele ficou um pouco reticente com medo de transformar o Blog da CIT num blog de receitas. Só quando o ameacei de mudar seu pseudônimo para Louro José ele concordou.



Lucinha Peixoto ( lucinhapeixoto@citltda.com )

Coordenadora Administrativa

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