quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sobre Bom Conselho, as Origens das Espécies e o Bolsa Família.


Recentemente se comemorou o 200º aniversário de nascimento do cientista inglês Charles Darwin (1809-1882), conhecido, principalmente, pelo seu livro Sobre a Origem das Espécies*. Nele, depois de viajar pelo mundo colhendo evidências e fazendo hipóteses, Darwin levantou a mais polêmica de todas: os ancestrais do homem são mais parecidos com os macacos do que com Adão. Aqueles que achavam que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança começaram a dar algum valor aos chimpanzés, mesmo que todas as afirmações a este respeito, até agora, tenham seus prós e seus contras, sem conclusões fatais para um lado ou para o outro.
O que todos sabem de fato, sobre esta viagem, é de sua passagem, entre outros lugares, pelo Brasil, pelas cidades de Salvador (Bahia) e Rio de Janeiro. Em Salvador o SMS Beagle, navio em que viajava, aportou em 29 de fevereiro de 1832, local onde ele ficou maravilhado com a floresta tropical, e mostrou sua sensibilidade ao classificar a escravidão como uma atitude humana ofensiva e, por isso, quase foi banido da expedição.
O que muitos não sabem é que durante esta parada na Bahia, ele fez uma esticada pelo interior do Brasil, - ver roteiro no Mapa - atingindo Sergipe, Alagoas, e depois, indo até uma área com as seguintes confrontações: “as terras ao Sul de Alagoas (Palmeira do Índios, Tanque d’Arca, Campo de Anadias); em Pernambuco ao Norte faziam divisas com o município de Garanhuns, próximo ao povoado de Brejão de Santa Cruz, a Leste com o Poço do Veado e a Oeste com o município de Águas Belas.” Esta região foi a ele indicada por pessoas que, ao saber dos seus objetivos como estudioso, havendo passado por ela, souberam de algumas espécies, parecidas com veados e caititus (porco-montês), que já nasciam gordos e castrados. Na época a localidade em lide já se chamava de Papacaça.
Ao chegar lá, com sua curiosidade à flor da pele, como convém aos cientistas, ele perguntou a origem daquele nome. Foi lhe contado por um morador local (poderia ser um ancestral de Zé Bias, fala-me alguém no ouvido) ser um costume antigo pegar os animais que serviam de alimentação, castrá-lo e soltá-lo para que depois, pela sua abundância, fossem pegos mais gordos. Daí, começaram a chamar aquela localidade de Capacaça. Já mais tarde, continua o respondente, por volta de 1774 o povoado, que tinha à frente Matias da Costa Villela, que construiu uma igreja sob a invocação de Jesus, Maria e José, se tornara um homem influente entre os colonos e os comerciantes. Não era só o chefe da família patriarcal. Era também chefe político da região e muito conhecido pelo nome de Comandante. Possuidor de grande autoridade e por não gostar do nome Capacaça, mudou o nome do povoado para Papacaça.***
A mente brilhante de Darwin logo deduziu, de sua ideia fundamental sobre a origem e evolução das espécies, a seleção natural, uma explicação para os acontecimentos. Os pais dos animais castrados, ao verem a judiação que se fazia com os menos afortunados de sua espécie, sofreram mutações casuais, e algumas modificações dos seus genes (isto só se descobriu modernamente) fazendo com que seus filhos já nascessem castrados e gordinhos, evitando o sofrimento posterior. Isto foi corroborado pelo fato de, cada vez mais, aumentar a escassez destas espécies na região. Os castrados não podiam se reproduzir.
Não se sabe o que as hipóteses feitas pelas observações nesta região, onde hoje fica o município de Bom Conselho, influenciaram nas conclusões de seu brilhante livro. O fato comprovado é que não temos mais veados ou caititus nesta área. Aqui o mecanismo da seleção natural funcionou às avessas, pelo menos para os bichos.
Num salto no tempo, como convém a quem escreve sobre a Teoria da Evolução das Espécies, lá pelos anos de 2000, nesta mesma região, de Bom Conselho, o que preocupava era a existência de muitas pessoas com rendimento tão baixo, a ponto de não se atingir um nível de reprodução adequado da sua força de trabalho (Karl Marx mexeu com estes conceitos e foi contemporâneo de Charles Darwin, mas nada indica que tenha estado em Bom Conselho). Isto poderia ter sido provocado pela escassez da flora e fauna, provocada pela castração dos animais e seu consequente desaparecimento? Eram hipóteses a serem levantadas pelo agora forte setor público com todas suas pesquisas, planos e programas, mais conhecidos nesta época como políticas públicas.
Depois de alguns estudos, com o apoio da CODEAM, uma associação de prefeitos da região, descobriu-se então que se estes trabalhadores tivessem escolas dignas, remuneração decente, alimentação farta e de qualidade, seria melhor para o futuro de todos. Os governos, os empresários e os homens que pareciam ser de boa vontade, começaram a fazer esforços no sentido de prover tudo isto a partir de políticas públicas voltadas para os pobres. Todos ficaram maravilhados com o sucesso das medidas adotadas. O analfabetismo quase acabou. Os indicadores de mortalidade infantil quase foram a zero. O número de pobres quase contraria as Sagradas Escrituras quando Jesus diz que “pobres sempre existirão na face da terra”. Parecia que todos seriam felizes para sempre, ou pelo menos por um bom tempo, ao ponto de se desmentir o dito popular de que “alegria de pobre dura pouco”.
Com outro salto no tempo, agora no ano de 2056, um cientista inglês, por nome de Joseph Darwin, bisneto do Charles Darwin, visitou Bom Conselho. O motivo de sua visita inusitada a este município fora uma estória, ouvida por ele ou lida em The Economist, que, nesta região, todos nasciam magros e continuavam magros pelo resto da vida. Isto era importante para ele, pois não sendo mais um cientista interessado apenas nos estudos, como seu bisavô, uma fórmula da magreza geral deveria render um bom dinheiro, já que ainda persistiam os padrões estéticos do século anterior que privilegiavam os magros. E vinda da terra que um dia teve Gisele Bündchen, era tudo de bom.
Chegando lá, encontrou uma população vivendo ao nível de subsistência, isto significando que o que eles comiam era apenas o suficiente para permanecerem vivos. No entanto, ele também constatou que todos comiam três vezes ao dia. Todos trabalhavam numa empresa chamada Perdigão, que era produtora de alimentos, e por motivos óbvios, era inteiramente voltada para exportação, já que todos consumiam o mínimo dentro do Município.
Curioso como seu ancestral, procurou então alguém para esclarecê-lo sobre este fenômeno. Dirigiu-se então à Academia de Letras da cidade. Nem é necessário dizer que diante das pessoas que encontrava, mesmo se considerando magro, ele se sentia um Jô Soares. Quando entrou na casa, sede da Academia, de arquitetura quase colonial, com varandas e alpendres, tendo pertencido a um Coronel de muita importância no passado político da cidade, se viu diante de uma cadeira grande de estilo Luis XV. Nela, sentado, de óculos e com seu fardão inconfundível, o seu presidente, A. Tenório Vieira Neto. Deu para o visitante observar, acima da cadeira, na parede, um retrato grande, quase como se fosse uma pintura, de um senhor com bigodes e cabelos longos segurando um ramo de lírios brancos que dava paz e serenidade àquele ambiente de sapiência e cultura. Soube depois ser o Patrono da Academia.
Ao ver entrar o visitante, o presidente levantou-se para cumprimentar aquele representante de Sua Majestade o Rei Charles II, bisneto da Rainha Elizabeth II, que reinara no Reino Unido no início do segundo milênio, tendo abdicado em favor do seu filho Charles. O Joseph Darwin foi logo ao que interessava, indagando-lhe se havia uma explicação plausível para aquele fenômeno peculiar a algumas regiões do Brasil.
Tudo começou, disse o Presidente da Academia, lá pelos anos de 2003, quando um governante criou um mecanismo chamado de Bolsa Família. Era um auxílio financeiro às famílias de baixa renda. Na sua língua poderíamos chamar, numa tradução livre, de Family Benefit. Como promessa de campanha ele tinha a meta de fazer com que todas as pessoas tivessem pelo menos três refeições por dia. E este auxílio foi a solução encontrada por ele.


Pelo menos para esta região do Brasil, esta promessa foi cumprida. Dentro de 10 anos todos já comiam três vezes ao dia. A comida não era muita. Seria impossível engordar com ela. Entretanto, as horas de trabalho, exigidas de quem participava do programa, eram as mínimas possíveis. Conta-se que pessoas antes trabalhadoras tenazes ganhavam um pouco mais, no entanto, achavam que seu trabalho era demasiado para aquilo que ganhavam, então se tornaram cada vez mais invejosas daqueles que ganhavam o Bolsa Família, e trabalhavam muito menos. Estes, participantes do programa, diziam: o pouco com Deus é muito, e o muito sem Deus é nada. E cada dia faziam mais inveja aos poucos remanescentes de fora do programa. Todos que trabalhavam, certo dia, deixaram de faze-lo, e reivindicaram o auxílio. Até que todos aderiram a ele. Ganhavam pouco, comiam pouco e portanto todos eram magros. Dizem que até aumentou a expectativa de vida na área e o número de "modelos", desta região, trabalhando nas passarelas no exterior aumentou muito.
Isto passou de geração para geração. Antes que o nosso cientista visitante apelasse para suas hipóteses biológicas sobre a permanência da magreza pela a transmissão de genes, mutações, etc. nosso respondente, que havia aderido também recentemente ao programa, disse: os genes, mutações, adaptação ao meio, e outras causas biológicas não tem nada a ver com isso. O fato principal foi que, ao longo do tempo, os políticos descobriram que, sem o programa do Bolsa Família jamais seriam eleitos. E todos o apoiaram, da situação ou da oposição. Agora todos defendem com unhas e dentes o auxílio. Quando chega algum político propondo que se deve voltar ao trabalho ou com promessas mirabolantes como, vamos engordar de novo, ou vamos comer mais, tem seus 3 ou 4 votinhos e logo que podem, deixam para lá estas idéias, e aderem ao programa. Eis ai, caro cientista, a explicação é simples assim. É um processo de seleção natural da classe política ou poderia dizer espécie política. Os políticos dizem que as crianças já nascem com um cartãozinho de filiação ao programa, embora não ouve até agora comprovação empírica desta hipótese. Na última pesquisa feita descobriu-se que sempre que isto ocorria, havia entrado um político na maternidade. Temos muitos estudos pela frente ainda.
Até agora, não houve desmentido do governo britânico à notícia de que, ao chegar em Londres, o cientista, ia lançar o livro: Sobre o Destino das Espécies.** Com isto, ele estaria tentando influenciar os pilares da ciência moderna na área de beleza e emagrecimento propondo, à moda inglesa, o Bolsa Família.
Já se foi a nossa biodiversidade agora se vai também nossa magreza.

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* "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life" - Sobre a origem das espécies através da selecção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida

**"On the Destiny of Species by Means of Family Benefit or The Preservation of Favoured Political Classes in the Struggle for Life" – Sobre o destino das espécies através do Bolsa Família ou a preservação da classe política favorecida na luta pela vida.

***Alguns trechos que soem como algum fato histórico real deve-se a várias fontes, e aqueles relacionadas com Bom Conselho, deve-se a Celina Ferro no livro: De Capacaça a Bom Conselho. As fotos são da CIT, Internet (vários sites) e do Saite de Bom Conselho (Agradecemos a Saulo Neto, administrador do saite em 2056 pela autorização).

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Cleómenes Oliveira (cleomenesoliveira@citltda.com)

Diretor de Operações.

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