quinta-feira, 19 de março de 2009

O Músico

Como alguns já sabem, nasci em Bom Conselho, mais especificamente na Praça Lívio Machado. Livio Machado pertence à nossa história, foi um grande comerciante e prefeito da cidade. Durante minha infância ele era um busto no meio da praça que tinha o seu nome. Hoje a praça continua lá mas, não sei qual o nome dela. Onde está o busto? Parece que está numa praça no Corredor. Sobre ela lembro, minha mãe contava, eu a chamava a “peste” preta, mas não me lembro o porque de “peste”, só do preta, porque era a sua cor. Algumas vezes colocavam um auto-falante em cima dela. Era a Voz da Verdade? Ajudem-me, historiadores. “Mãe, a peste preta tá falando”. Minha mãe ouviu isto várias vezes.
Não é sobre Livio Machado nem sobre onde nasci, que estou tentando escrever. No entanto, viver ali um período, sem muita consciência disto, mas, olhando a Matriz de Jesus, Maria e José, foi um privilégio, que poucos tiveram. Era do centro, Jameson da periferia. Quando digo isto hoje a ele, rimos muito, e comentamos: a Lucinha é dos “arredores” (obrigado, Carlos Sena), da Praça da Bandeira. Sorry, periferia! Escrever sobre coisas do passado dar nisso, queremos ir ao ponto e ficamos parado na praça.
Como todo pré-adolescente, caminhava pelas redondezas. Uma delas me era muito familiar. A Rua da Cadeia. Como temos história naquela rua. Não me lembro bem do episódio todo mas contavam:

- Vim soltar fulano de tal! Disse Padre Alfredo subindo as escadas da cadeia.
- Se o senhor subir eu atiro! Disse o soldado apontando o fuzil para ele.
- Atire soldado, mas cuidado para não errar, pois se errar eu solto o preso.

O padre levou o homem com ele. Eu ouvia aquilo e cada vez mais o admirava como cristão.
Mas, já estou perdendo a paciência comigo mesmo. Vamos ao ponto. Ele tem a ver com a Sede da Música. Alguém já ouviu falar disto? Se não ouviu, é muito jovem ou não é de Bom Conselho. Era uma casa que ficava na Rua da Cadeia, hoje José do Amaral, e abrigou, durante muito tempo a maior fábrica de artistas que Bom Conselho já teve. Ficava ao lado da casa de Seu Carlos Cordeiro (pai de Zé Carlos que muitos confundem comigo, nada contra, mas sou mais jovem) e pegado com a Casa de Dona Teté, mãe de Tanzinho, quase de frente da casa de D. Júlia, mãe de Naduca, avó de Jorge.
Eu sempre ia lá, na época em que Zé de Apolinário, Zé de Puluca, José Duarte Tenório ou seu Zé, era o maestro e o grande “fazedor” de músicos de nossa terra. Ficava olhando os ensaios. Cito de cabeça, e me desculpem se esquecer alguém, me lembro de Zé de Dinda, Zezé Não me Mui, Mané Guadêncio, Artur de Paizinho, Seu Abdon (não sei se se escreve assim. Ele vendia o melhor arroz doce que já comi, no recreio do Ginásio), Seu Luis, Zé Delicado, Zé Povoas, Reginaldo e outros.
Presenciei um diálogo do mestre Zé de Puluca (que recebeu uma homenagem da CIT um tempo atrás ver: http://www.youtube.com/watch?v=tpYoav-2uEc ou ver filme no final), com um futuro artista que me chamou a atenção. Seu Abdon queria aprender música. Penso, como todos que se iniciam, começam pensando no instrumento que querem tocar, influenciados pelo que acham belo e importante. Ele queria tocar clarinete.

- Por que o senhor que tocar clarinete, seu Abdon?
- Porque é o que mais gosto de ouvir.
- O senhor vai tocar para o senhor mesmo ou para os outros?
- Pros dois, disse seu Abdon.
- Então vamos tirar a dúvida. Vamos começar aprendendo as notas.

Depois vi seu Abdon marchar garbosamente, na linha de frente da Banda Villa Lobos, tocando Tuba.
Certo dia, estava olhando outros rapazes aprenderem com ele. Ele virou-se pra mim e disse: E você não quer aprender? Tinha pensado nisto algumas vezes, gostava do resultado, mas não sabia se estava disposto a algum dia participar na produção daquele resultado tão bonito. Falei com meus pais, minha mãe foi silenciosamente a favor. Meu pai ainda disse: é melhor do que ficar jogando sinuca em João Jararaca. Decidi começar.
Primeiro dia, primeira aula. Seu Zé: já conhece alguma coisa de música? Não, respondi. Aprendi os nomes das notas e algumas outras coisas e chegamos numa aula que ele dizia ser de solfejo. Eu tinha que levantar e baixar a mão numa determinada cadência dizendo: dó, sol, lá, fá, sol, dó por exemplo, vendo uma pauta. Quando comecei a fazer isto não agüentei, tive um ataque de riso, destes que você não consegue parar mesmo que esteja na frente de um pelotão de fuzilamento, e morre sorrindo. Óbvio que seu Zé ficou uma fera comigo e me mandou embora. Minha música foi morta pelo meu riso.
Apesar disto, ainda rio quando lembro deste “causo”. O riso salvou Bom Conselho de um músico que, certamente, iria desonrar a Sede da Música. Todos os outros alunos, pelo menos os que acompanhei, a honraram. Gosto de ouvir música, boa música. Existe uma má música? Será o Brega ou a Ópera? Na dúvida, aqui na CIT, mando outros escolherem. O riso matou o músico.





Diretor Presidente.

(*) Todas as fotos foram obtidas no Site de Bom Conselho ou Orkut de Niedja Camboim (belo trabalho), todos serão devidamente pagos. Esperem os cheques em $RE.

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