quinta-feira, 23 de abril de 2009

ADEL Carteiro



Não há nada mais gratificante do que rever pessoas amigas. Até parece que nossos neurônios começam a bailar ao som dos ruídos vindos destes encontros. Não precisam ser encontros pessoais, de corpo presente como se diz. Antigamente poderiam ser as cartas, os telegramas, os cabogramas ou os telefonemas com chiados irritantes. Atualmente, através de mensagens eletrônicas, comunidades virtuais, Voip e celulares com suas quedas nas ligações e nas conexões. Mas, os neurônios dançam assim mesmo.
Vi no Mural do Blog da CIT uma pequena mensagem assinada: Ceição Sá (filha de Adel Carteiro). Não conheci a Ceição, que penso ser Conceição, nome que me traz à mente o Caubi Peixoto cantando com sua bela voz: Conceição, eu me lembro muito bem... Até aí, já valeu ter ido ao Mural. Entretanto, fui ao delírio quando vi: filha de Adel Carteiro.
Penso que dizer que conheci Adel, para quem tem a minha idade e nasceu e viveu em Bom Conselho certa época, seria apenas um lugar comum. Mas, para mim não é comum. Sempre fui muito ligado ao futebol quando estava nesta cidade. E, se tinha alguém que adorasse o valoroso Esporte Bretão (desculpem não encontro um melhor sinônimo), este alguém era o Adel. Ele era mais velho do que eu, mas participamos de várias peladas juntos. Não tinha o físico que o levasse a aspirar jogar ainda numa seleção brasileira como eu tinha e por isso ficava dentro de suas limitações. Imagine, se fosse hoje e ele visse o Ronaldo Fenômeno jogando. As barrigas eram as mesmas e Adel tinha mais preparo devido ao hábito gerado pela profissão de andar, andar e andar.
A Rua da Cadeia, também poderia, naquela época ser chamada de Rua do Correio, como a Rua do Hotel, como a Rua da Sede da Música, não sei porque se chamou José do Amaral. Nela eram realizadas as maiores peladas de que participei na infância: 1 contra 1, 2 contra 2, 3 contra 3, ou mesmo, para alguns considerados craques, como Zé Praxedes, 2 contra 1. Jogávamos com a bola que aparecesse, de meia, de borracha, de plástico, de couro, de todos as cores e tamanhos. Se desse para chutar no meio fio e dar um “drible de arrudeio”, tava valendo. Na frente da Maçonaria, na frente da Cadeia, na frente da casa de Seu Vitinho (que também gostava de futebol), na frente da casa de D. Júlia (que de vez em quando ameaçava furar a bola, se caísse dentro da casa dela) ou mesmo de frente da casa de Florisval. Tudo era campo. Sempre olhando de lado para ver se o soldado Monteiro vinha chegando. Ele tomava a bola. Dizia que ia levar para a Delegacia. As más línguas contavam que ele dava era aos filhos, mas isto era só boato, o que nos levava a ficar olhando sempre para Paulo, seu filho, se ele chegava com nossa bola.
Um dia eu estava com Zé Carlos, de frente à casa dele, brincando com uma bola de borracha, fazendo o que hoje chamamos “embaixadas”, e um passando para o outro sem deixar a bola cair, dominando a redonda, como diria um locutor esportivo que descrevesse a cena. Neste momento lá vinha Adel, com seu uniforme inconfundível e alguns cartas, talvez iniciando seu labor diário. Parou diante de nossa malabarística ação com a bola. Demorou um pouco e disse: Meninos, vocês estão bem! Que controle! Nesta hora Zé Carlos deixou a bola cair. Deve ter sentido o mesmo que eu. Aquela sensação que os artistas tem quando vêem alguém olhando e elogiando sua obra. Igual ao Alexandre, o Imperador, ainda não estávamos preparados para os elogios e deixamos a bola cair. Rimos todos e Adel continuou rumo ao centro da cidade cumprindo o seu dever. Nós recomeçamos a tentar dominar outra vez a bola. Perdemos o estímulo, eu fui para o trabalho e o Zé Carlos deve ter ido estudar, que parece era a única coisa que ele sabia fazer na vida.
Recentemente, vi em algum lugar alguém questionando a eficiência dos correios, quanto a entrega da A Gazeta, e que hoje sua agência é na Agamenon Magalhães. Está explicado não é mais na Rua do Correios e nem tem Adel Carteiro.

Jameson Pinheiro

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