quarta-feira, 1 de abril de 2009

Amor Filial e Política em Bom Conselho



Para começo de conversa, fica aqui a explicação do porque desse artigo. Em uma troca de e-mails com o nosso Diretor Presidente, começamos a conversar sobre um assunto que chama a atenção de qualquer um, que é a política de nossa cidade. Essa conversa me fez relembrar um turbilhão de fatos, e aliando-se a isso a idéia de escrever alguma coisa para o Blog, resolvi narrar um dos dias mais marcantes que eu já vivi, e, sem dúvida, o dia mais feliz da minha vida, um fato que se confunde com a história política de nossa cidade: o cinco de outubro de dois mil e oito. Tentei fazer isso da maneira mais imparcial possível, e antecipadamente já peço desculpas por não conseguir isso em alguns momentos, porque isso é impossível pra qualquer apaixonado por política (os apaixonados são sempre cegos). Essa é uma história que não está nos jornais, mas são as impressões de uma pessoa que esteve muito perto dos acontecimentos e que viveu aquele dia até o último minuto, e que ainda quis esticar um pouco mais. Aos eleitores de outros candidatos, é uma leitura que vale a pena, porque não se trata de uma narrativa com o intuito de depreciar esse ou aquele candidato. É um simples relato dos fatos, como eles aconteceram. Vale a pena conferir...
Aquele dia, por incrível que possa parecer, teve mais que 24 horas! Ele não começou quando o ponteiro virou das 23:59:59 seg do sábado dia 4 para o dia cinco. Começou algumas horas antes, com uma carreta incrível do candidato adversário. Para alguns, soou como um grito da vitória, e para nós, o último suspiro da derrota. Isso porque diante de tudo que foi trabalhado, nós tínhamos certeza da vitória (aliás, todos os três candidatos tinham, mas pra gente é como se estivéssemos a uma cabeçada à frente). Nervosismo, apreensão lá em casa, com os últimos preparativos. Acho que nem é preciso dizer que ninguém dormiu naquela noite. Meu quarto fica ao lado do quarto da minha mãe, e vez por outra eu notava alguém levantando, indo tomar uma água sem sede, ir ao banheiro, ou simplesmente levantar pra passar o tempo. Eu também não dormi, e acompanhei todo aquele movimento madrugada adentro. Foi um dos poucos dias que não foi preciso tocar nenhum despertador naquela casa pra que as pessoas acordassem (eu mesmo estava acordando do meu cochilo intermitente às 5:40). As sete, todos estavam prontos pra encarar aquele dia, que poderia mudar as nossas vidas e a vida de muitos bom-conselhenses.
Trabalho duro durante o dia. Exerci minha democracia bem cedo, como costumo fazer (gosto de perder o valor logo, como alguns dizem por ai). Sempre faço isso para dar logo espaço a um dos maiores prazeres que tenho, que é caminhar pelas ruas de Bom Conselho em dia de eleição. Quem nunca o fez, experimente! Pode estar certo que vai sempre querer fazer isso. Ver as pessoas se movimentando, as provocações (!), a expectativa das pessoas pelo resultado final. Chega um momento que toda essa avalanche de movimento e sentimentos toma conta do seu juízo, e aí é a hora de parar. Meio-dia voltei pra casa cansado de tanto caminhar. Nada como uma refeição copiosa pra aguentar a outra metade do dia, talvez a mais difícil. Tentei ligar pra minha mãe, pra ver como ela estava, mas não consegui. Estava fazendo visitas nas seções eleitorais dos distritos. Isso já ia lá pras duas e meia da tarde. Só pude encontrá-la, por coincidência, lá no CERU, umas 4 da tarde. Parecia bem. Lembro-me que contei as boas notícias do dia. Sempre que posso eu faço uma pesquisa informal entre os eleitores, e estávamos indo muito bem dessa vez. Dava pra sentir, como em tantos outros momentos (convenção partidária, comícios, arrastões...), que naquele ano seria diferente! Eu lembrava bem da campanha derrotada de vice-prefeita, em 2004, e em nada se assemelhava àquele momento. Tudo era diferente! O entusiasmo das pessoas era diferente.
Já era quatro e meia da tarde, a hora mais difícil do dia. Um dia de campanha em Bom Conselho, podem observar, se resume a antes e depois dessa hora, e eu tinha que me posicionar estrategicamente no local onde tudo acontece nesse momento: a ponte do Colégio. É nessa hora que os vitoriosos se revelam e os derrotados vão embora pra casa. Tudo é questão de quem faz melhor o jogo de nervos. E eu, mais nervoso que todos, comecei a fingir muito bem! Eu via de um lado da ponte nossos guerreiros apáticos, e do outro lado adversários desconfiados também. Alguém tinha que tomar uma atitude naquela hora. Foi quando um amigo sacou essa:
- E aí, Felipe? A gente leva essa?
Eu não sei o que foi que me deu naquela hora, de onde veio tanta confiança. Mas eu mandei a resposta de volta, como num ato reflexo:
- Ta doido, rapaz? Qual é a tua dúvida? Judith já é a prefeita!
Coincidentemente, e pra minha sorte naquele momento, se aproximou de nós um amigo, de moto. Ele trazia notícias da Rainha Isabel. Disse que no que dependesse dos votos daquele distrito, Judith já era a prefeita! E seguindo o ímpeto da empolgação, já arrematei outra:
- Ta vendo! To te dizendo! Eu não sei do que vocês estão com medo! Judith já é a prefeita!
Curiosamente isso foi dando uma confiança extraordinária a quem torcia por Judith e a gente podia ver a desconfiança do outro lado da ponte, inclusive algumas pessoas indo embora pra casa. A tática pareceu-me bem sucedida!
Cinco da tarde, e finalmente a hora do resultado. Eu lembro que eu fui à direção do Ginásio São Geraldo, onde sabidamente saem os primeiros resultados. Fechadas as primeiras urnas, eu pude avistar o amigo Luiz Clério e Álvaro Gomes saindo de lá, e com uma cara muito boa, o que tranqüilizou todos nós. Luiz fez um sinal positivo pro lado de fora dos portões, sinal que vinha notícia boa por ali. E a primeira urna foi o pontapé inicial pra festa: Judith 140 votos, Audálio ,72, e Gervásio, 71. Eu esbravejei aquele resultado, causando uma onda de abraços e sorrisos pra quem estava perto. Um a um a notícia se espalhou para os que estavam mais abaixo, na entrada do colégio. A cada urna que revelava seu resultado, mais festa! E quando foram anunciadas as 4 primeiras do Colégio Estadual, todas com a vitória de Judith, ninguém podia mais segurar aquele povo. Eu corri sem direção, pra todos os lados! Encontrei meu irmão na frente do portão do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, com uma cautela e uma desconfiança inacreditável pra aquele momento:
- Pelo amor de Deus! O povo tem que parar de comemorar, rapaz! É melhor esperar as urnas dos distritos pra poder comemorar! Pelo amor de Deus...
Eu nem conseguia acreditar no que estava ouvindo! A cidade explodindo de alegria, e um cético na minha frente! Não deu pra segurar:
- Comemora, rapaz! Mainha já é prefeita! As urnas da Barra do Brejo já chegaram! Ela ganhou nas cinco de lá também!
Aí nem ele mesmo conseguiu se segurar! Aquilo tudo era verdade mesmo.
Eu lembro que uma senhora, aliás, uma jovem de idade avançada, se aproximou de mim naquela hora, com um pedido curioso: “Posso te dar um abraço? Já que ela não está aqui, eu dou um abraço em você como se fosse nela”. E como recusar um pedido desses, numa hora de alegria como essa?
A partir daí começou minha peregrinação em direção à Praça Pedro II. Eu devo ter gasto mais de meia hora, num percurso que não dura nem 10 minutos. A cada esquina era uma festa! Na Joaquim Nabuco, avistei uma mais vibrante, na frente da casa de um dos organizadores daquela campanha, o Germano Alapenha. No calor do momento, paguei uma rodada de cerveja pra uma dúzia de gente que eu nunca tinha visto na vida (kkkkkkkk)! Meus amigos que não me escutem...
Segui para a praça Pedro II, subindo pela Joaquim Nabuco e dobrando à direita na Sete de Setembro. Lá sim eu tinha certeza que a festa estaria completa! Foi do jeito que eu sempre imaginei. Quando a gente se envolve numa campanha política, quando se toma partido por um candidato e veste a camisa pra valer, não há como negar que o momento que sempre nos vem à mente é a hora da vitória, até porque ninguém gosta de imaginar como pode ser o lado ruim do desfecho, e assim aconteceu comigo. A praça estava tomada de vermelho, um símbolo que representava muito para todos nós. As pessoas pulavam, gritavam, se abraçavam com os desconhecidos, e entoavam as músicas da campanha com mais vontade, mais emoção. Foi coisa bonita de se ver! Mas faltava alguém ali naquela festa... faltava “a mulher”.
Pouco depois de chegar à praça, encontrei com alguns amigos, um pouco mais acima da esquina da Rua Sete de Setembro com a Rua Quinze de Novembro. Subitamente, surgiu um aglomerado vindo em nossa direção. Pensei que fosse uma briga, e já ia me afastando, mas notei uma fisionomia conhecida no meio deles. Sim, era minha mãe! Minha prefeita agora! Foi a primeira vez que a vi depois de anunciado o resultado do pleito. Saí em direção a ela correndo, trombando nas pessoas. Todas queriam dar um abraço naquela mulher, mas eu queria muito mais, isso eu garanto! Quando finalmente consegui chegar a ela, eu dei um abraço forte, o mais forte que alguém possa imaginar, e ela ao me reconhecer me abraçou também. Eu já estava tomado pelas lágrimas, e só conseguia dizer uma coisa pra ela:
- A senhora conseguiu, mainha! A senhora conseguiu!
Ela era só choro! Chorava muito. E quando nos abraçamos ali, pra mim é como se todo o resto não importasse mais. As pessoas pareciam assustadas, vendo nós dois aos prantos ali, como se alguém tivesse passando mal. No momento em que nos separamos foi que eu tive a dimensão do que estava acontecendo. Bom Conselho tinha sua primeira prefeita.
No calor do momento, como é de costume em fim de eleição, formou-se rapidamente uma carreata com a chegada da nova prefeita. Ela saiu em carro aberto, e eu fui acompanhando ao lado. Guardo recordações não muito boas desse momento, porque nem mesmo em dia de comício eu havia caminhado tanto! O percurso saiu da praça, subiu pela rua ao lado da Igreja Matriz (até onde eu conheço a conhecida Rua do Caborge), dobrou na Rua dos Guararapes e percorreu toda sua extensão. Voltou para o centro pela Rua Quinze de Novembro e seguiu em direção ao comitê de campanha. Era muita gente correndo, até mais gente do que se esperava, se é que vocês me entendem... Mas isso é o que menos importa numa hora dessas.
A partir daí a festa continuou madrugada adentro na rua do Corredor, como é mais conhecida a Rua Agamenon Magalhães (sim, temos uma em Bom Conselho também). Anunciada a apuração final, foi quando me dei conta que estava totalmente desinformado sobre a eleição de vereador. Lembro-me que saí correndo daquele lugar, e subi em direção à casa de duas pessoas pra quem torci muito nessa eleição. O meu amigo Luizinho e minha grande amiga Ivete enfermeira. Tive o privilégio de conseguir parabenizar os dois naquele mesmo dia, pessoalmente. A festa era grande em suas casas. Voltei para a praça. Eu queria ficar lá, queria que aquele dia não acabasse mais. Eu queria comemorar muito, porque aquele era um dia especial para todos nós, principalmente para nossa família, diante de todos os “sapos” que engolimos até chegar ali.
Somente depois de muita cerveja (não tão estupidamente gelada) e todas as outras bebidas que tomei naquele dia que vinham me oferecer, sempre sob o pretexto da vitória, o tempo passou bem rápido. Já bem tarde, e era melhor voltar para casa. A festa já estava acabando, e pra quem teve um dia tão tumultuado, uma boa noite de sono vinha a ser útil. Chegando em casa, encontrei uns poucos amigos ao redor da mesa. Meu pai, o sempre sério Dr. José Alípio, sorria feito criança pequena, satisfeito pelo resultado de todo sacrifício que foi feito. Se eu posso citar uma pessoa que foi essencial nessa caminhada, o maior responsável por essa vitória, além das duas candidatas é claro, essa pessoa foi meu pai. Era notória a expressão de dever cumprido que ele passava. Cercado de algumas pessoas mais chegadas ao redor da mesa, ele contava os principais momentos daquele dia tão marcante. Notei a ausência de alguém ali. Onde será que estava minha prefeita?
Eu a conheço muito bem. Pra dizer a verdade, eu a conheço desde que nasci (como já era de se esperar!), e sabia que nesses momentos ela gosta de se reservar, pra ter um momento de reflexão só dela. Como a porta do seu quarto estava fechada, eu deduzi facilmente que somente ela mesma poderia estar ali. Abri a porta devagarzinho e chamei:
- Minha prefeita?
Quando abri a porta por completo, vi uma cena curiosa. Ela estava deitada na cama, de papo pra cima (como diz o matuto), mas não estava dormindo. Estava paralisada, olhando para o teto. Aproximei-me e sentei ao lado dela:
- Parabéns mainha!
E ela me respondeu ainda assustada:
- Eu não tô acreditando no que tá acontecendo.
E eu ri com aquele comentário! Ela parecia uma criança, com medo dos novos desafios que viriam pela frente, mas demonstrava ao mesmo tempo uma confiança de que tinha a capacidade de cumprir a missão que o povo tinha confiado a ela. Deixei-a aproveitar esse momento um pouco mais...
- A bênção, mainha.
- Deus lhe abençoe, filho. Fomos dormir. E daquele dia em diante Bom Conselho nunca mais seria a mesma.

Felipe Alapenha
(*) Fotos enviadas pelo autor e do site da Prefeitura.

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