domingo, 12 de abril de 2009

Dia Internacional da Mulher - Complemento 2

No dia 8 de março último, a Lucinha Peixoto escreveu bom artigo sobre o Dia Internacional da Mulher. Ela foi aos quatro cantos da linha divisória e deu o seu recado.
Aproveito e faço alguns comentários sobre a data. Também sobre a pergunta que a Lucinha lançou ao finalizar o artigo: "Se você descobrisse que sua filha ou neta, de 9 anos de idade, foi estuprada e está esperando filhos gêmeos, de quem você aceitaria conselho: do bispo ou do médico?"
Primeiro, algumas considerações sobre o Dia da Mulher. Em que pese ter sido excelente o enfoque da Lucinha, permito-me acrescentar mais um pouco.
Não foram os homens que deram esse dia às mulheres. Ele foi instituído depois de muitas lutas de muitas mulheres, que contaram com a ajuda de poucos homens. E, logo no início dessa caminhada, os homens mataram 129 mulheres.
Tudo começou com um movimento grevista, no dia 8 de março de 1857. Um grupo de 129 operárias de uma fábrica têxtil, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América do Norte, iniciou uma greve.
Elas estavam dentro da fábrica. Os patrões não admitiam tamanha insubordinação. Por isso, mandaram fechar todas as saídas da fábrica e ordenaram que incendiassem tudo. Foi assim que as 129 mulheres operárias foram mortas sumariamente.
Por conta desse massacre, nos quatro cantos do mundo surgiram os primeiros levantes para que as mulheres conquistassem os justos direitos, que os homens lhe negavam, escudados na força bruta.
Mas antes mesmo do assassinato das operárias de Nova Iorque, o filósofo e político francês, Condorcet, em 1788, já clamava por participação política, emprego e educação para as mulheres. Por isso, em 1862, as mulheres puderam votar, pela primeira vez, nas eleições municipais, na Suécia.
E em 1874, no Japão, foi criada a primeira Escola Normal para moças. Continuando essa viagem, em 1878 fundou-se na Rússia uma universidade feminina. É certo que não precisava criarem-se institutos só para as mulheres. Poderiam ser mistos como é hoje. Mas, convenhamos, para a época, foram avanços extraordinários.
Ainda na França, em 1901, o deputado René Viviani defendeu o direito de voto das mulheres. Foi outro grande passo, para que as mulheres, um dia, saíssem do terrível cipoal em que os homens as mantinham. E nesse imenso cipoal, eles, os homens, as queriam prisioneiras, como aves em gaiolas.
E em 1910, realizou-se na Dinamarca, a Conferência Internacional das Mulheres. Ali foi decidido que no dia 8 de março seria comemorado o Dia Internacional das Mulheres. Mas só em 1975, por meio de decreto, essa data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Contudo, as mulheres não queriam somente comemorações. Em muitos e muitos países eram feitos debates e conferências, para discutir o papel da mulher na sociedade. E o principal foco das discussões era fazer reduzir os preconceitos e a constante e evidente desvalorização das mulheres diante dos homens.
Vale esclarecer que as 129 mulheres massacradas na fábrica de Nova Iorque, reivindicavam direitos como auxílio-maternidade, redução da carga horária de 16 horas para 10 horas por dia (!!). Elas também lutavam por igualdade salarial com os homens. Naquela época, a mulher recebia 1/3 do salário que um homem recebia, para fazer o mesmo trabalho.
Foi assim que nasceu o Dia Intercional da Mulher! A mulher é igual ao homem e lhe complementa. Só muda a fisiologia de cada um. Daí o sexo masculino e o feminino. Só. E sem mulher, eu nem vejo sentido na vida do homem.
Dito isso, vamos à pergunta feita pela Lucinha: bispo ou médico? Sobre esse assunto, todos os que leram o que escrevi, nos últimos dias, sabem do meu posicionamento: recorreria a um bom médico em quem eu confiasse. Mas antes, leria o artigo 128, II, do nosso Código Penal, mesmo já sabendo o que lá se contém.
Digo bom médico, porque nem todos os médicos são bons e muito menos confiáveis. Assim como não são confiáveis muitos e muitos advogados. E estes não são confiáveis, porque, tal qual tantos e tantos médicos não são éticos, nem são honestos.
Eu não iria pedir conselho ao diretor-superintendente do Imip, porque, pelo que noticiou a imprensa, ele, ao receber um telefonema do arcebispo, foi correndo à sua residência para saber o que deveria fazer com a menina sem nome, que fora estuprada por um cínico e estava internada no Imip, sob seus cuidados, para submeter-se a um abortamento.
Ocorre que o bispo é conselheiro do Imip. Então, o dito bispo disse ao médico que o aborto não poderia ser feito, porque a Igreja Católica não consente.
Posto isso, de lá mesmo, da casa do bispo, o mandachuva do Imip telefonou para a equipe médica que cuidava da criança grávida, e mandou suspender os preparativos para o aborto. Porque este não mais seria feito. E tudo voltou à estaca zero.
Não fosse a justa e pronta interferência das mulheres do Grupo Curumim, que atuam na defesa da mulher, aquela criança teria voltado para Alagoinha, para ser entregue às feras.
Foi aí que entrou em ação a equipe médica do Cisam, do Hospital Oswaldo Cruz. Essa equipe fez o aborto e salvou a vida da criança. Porque ela estava condenada a morrer, juntamente com os dois embriões que tinha no ventre. Mas a equipe médica e outras pessoas envolvidas nesse episódio, foram excomungadas pelo bispo que tudo pode (!?). Só faltou o bispo excomungar a criança vítima do estupro!
Em que pese isso tudo, o arcebispo dom Dedé será homenageado na próxima quinta-feria, 16.4, por ter tentado impedir o aborto legal na menina raquítica e desnutrida e por ter excomungado os médicos e a família da menina. Dita homenagem será prestada pela Human Life International, em reconhecimento à atitude misericordiosa, em defesa da vida. Da vida de quem? - Dos que nascem para viver ou dos que nascem para morrer, prematuramente, às vistas dos católicos e de outros religiosos, por falta de saúde e de alimentos?
A Human Life é uma entidade católica, estadunidense, e se diz pró-vida. Ela deve ter nascido nos embalos do Opus Dei, grupo ultraconservador de católicos, que se propõem ditar e editar normas que obriguem as pessoas a viverem e agirem conforme a estreita visão deles.
O restante dessa história o mundo quase todo sabe. Então, eu sempre estive do lado dessa menina, do lado da lei penal e do lado dos médicos do Cisam, que fizeram o aborto legal. Eles fizeram o que suas consciências mandaram.
Não obstante o terreno do Hospital Oswaldo Cruz pertencer a uma "Santa Casa de Misericórdia", que pertence à Igreja Católica e, por conseqüência, é o bispo quem manda na "santa casa de misericórdia (!?), o aborto foi feito e a menina foi salva. Essa "santa casa" deve ser irmã gêmea do Banco do Vaticano! - E onde está a misericórdia?
E por que o não obstante? Porque o reitor da UPE, a quem se vincula o Hospital Oswaldo Cruz, dependia de assinatura dos que mandam na "santa casa", para renovar o contrato de cessão do terreno. E sem a renovação, o Hospital não poderia receber verbas de um convênio, para melhor atender à população pobre, como a menina sem nome.
Mas o reitor da UPE, com muita firmeza, deu apoio à equipe médica do Cisam. E asseverou que, caso a "santa casa" não renovasse o contrato, ele iria ao Ministério da Saúde. A assinatura veio, mas a "santa casa" inseriu no contrato cláusula leonina, impondo que "o Hospital Oswaldo Cruz não pode realizar procedimentos obstetrícios." - Pergunto: a gravidez e seu acompanhamento, mais o parto e a intervenção cesariana, não são procedimentos obstetrícios? /./.



José Fernandes Costa - Recife

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