domingo, 12 de abril de 2009

MINHA EXPERIÊNCIA COMO APÓSTOLO



Em dias de feriados, nos convidando ao ócio, ao deixar para depois, a postergar aquela arrumação nas gavetas abarrotadas de papéis, paramos, às vezes, a pensar “no tempo”. O que é o tempo? Passado, presente e futuro, tudo pode se agregar em uma mesma linha e acontecer a qualquer momento. Somos seres eternos. E é a crença nesta eternidade que nos dá a confiança para aceitar os fatos e acontecimentos e as pessoas com as quais nos defrontamos as longo de nossas vidas. Acho que é um conceito difícil para quem vive em um planeta onde o tempo não só existe, como está representado por calendários e horários. Já perceberam como o tempo está passando rápido? Como a vida parece “voar” e, muitas vezes nos deixa a sensação de que estamos perdendo o controle do que fazemos, tamanhas é a velocidade com que passa? Já repararam que o que levava anos, ou décadas para acontecer, agora pode levar apenas dias ou semanas ou minutos? Parece que foi ontem que eu estava a escrever sobre o encontro dos papacaceiros, pouco depois veio o carnaval e eis agora a Semana Santa.
E o tempo, ah, esse tempo que passa, passa, mas uma das poucas coisas que ele não consegue apagar de todo são as nossas lembranças, as suas lembranças, as minhas lembranças. Lembranças....Lembrar, trazer à memória, por analogia ou semelhança; fazer recordar; recordar....Foi isso que senti ao ver o corre - corre das pessoas nesta época do ano. O desespero de algumas com a compra dos chocolates, dos ovos de páscoa. Carrinhos e mais carrinhos cheios de ofertas, ovos de páscoa para tudo que é bolso. E ainda por cima a mídia a jogar nas nossas casas ofertas tentadoras e arrasadoras de chocolates e mais chocolates, como a nos obrigar a dar presentes, comprar, consumir. Em meio a toda esta confusão ainda me sobrou tempo para reavivar a minha memória e voltar no tempo. Um tempo longínquo no tempo, mas presente no tempo além do conceito de linearidade. O tempo não tem movimento, o que se desloca é a nossa mente e foi isso que fiz, me desloquei para uma Semana Santa lá pelos anos sessenta, em Bom Conselho.
A Semana Santa em minha terra começava logo após o carnaval. Já vinham os sermões que eram realizados com encenações aos domingos à noite e tinham seu apogeu na Semana Santa propriamente dita. O Domingo de ramos era o início. Havia nas missas a distribuição de folhas de palmeiras para os participantes. Estas folhas na minha casa, além de serem guardadas com carinho, tinham várias utilidades. Algumas eram colocadas atrás da porta para afastar maus espíritos, outras eram colocadas no telhado, entre as telhas, ripas e caibros. E em dias de grandes tempestades (que eram constantes durante o ano), pegava-se algumas destas folhas e queimavam-se, acreditando-se que assim acalmaria os céus.
Mas, pra mim, a Semana Santa só começava na Quarta-feira. Tínhamos uma feira que era realizada no “corredor” e esta feira funcionava como termômetro para os dias seguintes, pois demonstrava a disposição da população para vivenciar os grandes dias que viriam. Os antigos chamavam esta Quarta-feira de Quarta-feira das “trevas”. Bem, sei que neste dia era uma feira monumental!
Chega-se então a Quinta-feira Santa. Aqui, pra mim, começavam os grandes preparativos. Eu iria participar dos atos litúrgicos da igreja. Logo cedo os preparativos das minhas irmãs, Luiza e Mercês, com a minha roupa, asseio e a parte mais importante: lavar bem os pés.
Os cheiros que vinham da cozinha eram sem iguais: Peixe ou bacalhau ao coco, feijão ao coco e também “umbuzada” (só de lembrar, o meu sentido gustativo deixa a minha boca cheia d’água). Lá pelas quatorze horas minhas irmãs começavam a me preparar. Uma roupa leve por baixo, e por cima uma túnica branca, uma faixa amarela caindo do ombro direito e sendo amarrada na cintura no lado esquerdo. Um cajado (que era um cabo de vassoura) e pronto. Estava feita transformação: Eu era um dos apóstolos! Representava a figura do Thiago Maior. E lá íamos nós para a igreja. Lá chegando, estava a dona Lourdes Cardoso, responsável por toda a criançada, que ia participar da cerimônia do lava pés. Éramos os doze apóstolos.
A igreja cheia, uma multidão que se acotovelava para ver a representação do que foi o grande ato de humildade praticado por aquele que se chamou Cristo.
E eu no meio da meninada, sendo alvo de olhares e elogios. O ritual começava e lá pelas tantas, o Pe. Alfredo se encaminhava para onde estávamos (uma bancada mais alta no meio da igreja) e um a um ia lavando os nossos pés. Interessantes que depois os adultos nos perguntavam: “Ele beija os pés?”. Não, não beijava! Só fazia uma inclinação com a cabeça, e isso eu prestava muita atenção desde a primeira vez que participei. Ao final do ritual cada um de nós éramos presenteados com uma “sacolinha” cheia de doces com algum “trocado”. . A recomendação era que não podíamos sujar a túnica, pois ainda teríamos apresentação no dia seguinte, assim saíamos para a sacristia onde tirávamos os paramentos que eram guardados. A minha felicidade era completa nestes dias. Se eu pudesse parar o tempo pararia nesta fase. Era um regozijo pleno, algo que me preenchia por completo. Gostava de incorporar o personagem Thiago Maior.
Na Sexta-feira (santa), como se falava, na minha casa era um sentimento de consternação total. Não que estivéssemos doente ou algo assim, não, era uma forma de respeito ao grande dia: A morte do Cristo. Não podíamos cantar, ouvir rádio, isso então era um sacrilégio! A parte boa do dia começava depois do almoço. Todos da minha família iriam participar dos atos litúrgicos. O meu pai, Pedro Povoas, era uma das figuras que na encenação, retiravam o Cristo da cruz. Eram seis homens com túnicas brancas, cordões amarrados na cintura e um pano branco amarrado na cabeça. Iam conduzir o esquife durante a procissão. As minhas irmãs iam representando os pecados, não me lembro quais dos pecados. O meu irmão, José Povoas, ia com a banda de música do Zé Puluca acompanhando a procissão.
Bem, aqui, lembro da dor de cabeça da dona Lourdes Cardoso em querer controlar as dozes crianças, tinha hora que a senhora já sem paciência com a bagunça que fazíamos falava entre os dentes: “isto não são apóstolos são umas pestes, pois não ficam quietos”. Ah, dona Lourdes, quanta saudades!
Mas eis que chega a hora máxima da encenação. Padre Alfredo com toda a sua eloqüência empregada em prol da pregação; dá ordem e a cortina, azul, abre-se e uma figura que representava a Verônica, começa a entoar uma canção enquanto discerra um “banner” com a imagem do rosto do Cristo. A representação da Maria Madalena ajoelhada aos pés da cruz. Lembro bem que a figura da Madalena foi muitos anos representada pela filha de dona Pureza, acho que de nome Girlane, tinha um cabelo imenso.Neste momento os vultos responsáveis pela retirada do Cristo da cruz, começam a agir, e a banda de música começa a tocar “a marcha fúnebre”, então a comoção é geral, velhos moços, todos são tocados por algo, um sentimento que ia da tristeza aos raios da piedade e lágrimas se faziam presente. E era o único momento em que parava de falar e fazer bagunça e entro na consternação geral da platéia. Pronto, o corpo no esquife, que tinha o cuidado de dona Sofia Amaral, sempre responsável pelo andor do Senhor morto, segue a procissão pelas ruas da cidade. Uma multidão seguindo o cortejo. Nós, apóstolos, tínhamos a mania de bater com o cajado nas pedras do calçamento, o que fazia uma orquestração: toc..toc..toc.. E o que irritava profundamente a dona Lourdes Cardoso, que por vezes sorrateiramente vinha e nos puxava as orelhas e falava: ”já não falei para não bater no chão!”.
Depois de encerrada a procissão, à noite era a adoração e neste item o Sr. Gabriel Vieira era “expert”. No altar da N. S. do Carmo era montado um espaço com todos os objetos que tinham participado da crucificação (martelos,pregos,chicote, lança, dados), tudo arrumado de uma forma cenográfica e bonita, e aí ficava grupo de pessoas orando e revezando-se de hora em hora até o dia seguinte.Estas são as minhas lembranças mais vivas da semana santa na minha terra. Eu participei destes atos por anos seguidos, depois cresci e não me encaixava mais em nenhum personagem. Ficou as lembranças de um tempo que morará para sempre em meu coração e por isso fiz questão de registrar, pois pra frente, mas bem pra frente quando a memória já não me for tão pródiga em detalhes, eu possa ler e quem sabe reviver novamente como estou revivendo agora. Logo que estava terminando de escrever este final de texto, fui interrompido pela minha campainha...Era o nosso porteiro com a entrega do meu jornal; abro-o e logo de cara vejo um encarte de um supermercado próximo da minha casa: Ofertas de chocolates e ovos de páscoa! Corro para o computador fecho mais que rápido todos os programas e vou correndo garantir os meus ovos de páscoa, pois também sou filho de Deus.

Gildo Póvoas

(*) Fotos do site de Bom Conselho, produzidas por Niedja Camboim, que já possui nosso Museu Virtual pronto. A CIT agradece, Niedja, e lhe paga em $RE.

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