sexta-feira, 3 de abril de 2009

Um Debate


Apesar de ser ateu, eu adoro falar e tratar de assuntos religiosos. Talvez por isso mesmo não tenha fé. Nos últimos dias convivi com um debate muito importante. Em duas frentes, aqui na CIT, tendo algumas conversas com Lucinha Peixoto, e vendo o Mural do site de Bom Conselho, que se tivesse um contador, teria indicado grandes picos de audiência. Desde o início, quando Lucinha escreveu, muito a contragosto, sobre o Dia Internacional da Mulher, e lançou o tema do Bispo e Médico, vi que tudo, no fim não passaria de um diálogo de surdos.
Minha neutralidade sobre a fé das pessoas levou-me a esta conclusão. Fé, o ser humano tem porque lhe impingem desde criança, ou, por convicção adulta e madura, que parte do interior para o exterior e não o contrário. Nenhum debate modifica a fé, a não ser que ele atinja o âmago das pessoas. E a opção entre o Médico e o Bispo, jamais seria suficiente, para mudar opinião de quem quer que fosse.
Não estou dizendo, explico antes que Lucinha queira uma réplica, que o debate não teve importância. Teve sim. Pessoas participaram, pessoas sentiram, pessoas pensaram e podem até mesmo ter formado uma opinião, se não tinham nenhuma. Isto foi muito saudável. Vimos os protagonistas chegarem ao máximo de seus sentimentos, bons e maus, surgiram os provocadores e apaziguadores, como convém em qualquer situação onde os seres humanos interagem de forma intensa. Particularmente, vi a aflição de Lucinha, que dizia lutar para melhorar sua religião, evitando que outros chegassem à minha situação, horrível, no pensamento dela, de ateu desesperançado.
Não sabe ela que, durante o debate, dei graças a Deus ser ateu. Por motivos completamente diferentes eu defendia os médicos. Não se podia colocar em risco a vida de uma menina nas condições daquele caso, tão descrito e comentado. Sou a favor de que se defenda a vida, no entanto, devemos perguntar: que vida? Budistas morrem para não matar um formiga, ela poderia ser seu pai reencarnado. Eu não sou a favor de sair por aí matando formigas mas, se vir alguma mordendo um filho meu, vai pro pau. Teria mais dúvidas se fosse optar entre salvar um filho ou a mãe na hora do parto. Esta, como tantas, é uma decisão difícil, mas independe de religião e da existência ou não de Deus, tomar uma decisão moral que seja útil para sobrevivência humana. O que eu não poderia, seria impor ao outro o que acho certo ou errado numa decisão como esta, por exemplo, dizendo: se você fizer isto, vai ser excomungado.
O que apreendi do debate foram opiniões de pessoas crentes e católicas (ou que pelo menos dizem ser) resumidas no seguinte: Uns acham que o Bispo agiu certo porque estava defendendo a vida de pessoas, no caso os dois fetos, havendo a possibilidade de salvar as três vidas, inclusive da menina, em vez de uma só. Outros acham que ele estava errado por condenar à morte uma menina de 9 anos, pobre e desnutrida. Quem tinha a primeira opinião concorda com a aplicação das leis e normas da Igreja, que se confundem, segundo elas, com as Leis de Deus. Aqueles defensores da segunda dizem que o Bispo errou ao se apegar demais a estas leis, que ao contrário do que diz a primeira corrente, são leis humanas e não divinas. São argumentos irreconciliáveis pois não estariam falando da mesma Igreja e os contendores teimam em dizer que sim.
A Igreja que manda salvar a menina para não matar os fetos, não é a mesma que manda salvar a menina sem pensar nos fetos. A questão central é o aborto. Uma é contra, e outra é a favor. Mas todos dizem que são contra. Não estamos, então, falando do mesmo tipo de aborto? Claro que não. Uma coisa é dizer que se permite o aborto em qualquer situação, e outra é permitir o aborto em determinadas ocasiões, com valores morais diferentes. Quem deveria decidir qual o tipo de aborto?
Algum tempo atrás esta decisão era tomada até pela mãe que, muitas vezes, tinha a gestação e parto quase sem assistência, passando pelas parteiras, chegando, hoje, à medicina moderna. Atualmente, pelo menos para nós ateus, os médicos são os únicos que tem poder para decisão no caso colocado. O Bispo não. Alguns dirão, claro, você é ateu! Não, respondo, não é só por isso.
Algumas religiões levam à mesma conclusão e vão além permitindo a participação da mãe na decisão. Por exemplo, há uma carta do arcebispo de Canterbury para o jornal The Times, de Londres, na qual ,pergunta: "Para a Igreja e para o Estado, a unidade do respeito moral é a pessoa humana. Quando o embrião humano se torna uma pessoa?", mostrando a possibilidade de aborto em determinadas fases da vida intra-uterina. Foram os paises protestantes os primeiros neste século a adotar legislações mais liberais em relação ao aborto, havendo modernamente quem o defenda nas Religiões Islâmicas e recentemente, em 1969, o rabino David Feldman, ao prestar depoimento num processo instaurado em Nova Iorque, em que se erguia a inconstitucionalidade das leis desse Estado contra o aborto, afirmou que, do ponto de vista judaico, se o aborto não é desejável, também não é considerado um assassinato, e que em todos os casos é a saúde da mulher que prevalece, tanto no que se refere ao equilíbrio físico como psíquico.
Os espíritas, apesar de considerarem o aborto um crime, consideram a vida do ser já existente como prioritária em relação ao ser que ainda não existe e, havendo risco para a mãe, a interrupção da gravidez pode ser praticada. O Espírito, segundo sua doutrina, sempre existiu, desligando-se pela morte e reencarnando em outro corpo. Para eles portanto não há, no caso de um aborto, a "morte" de um ser. O que existe é a frustração de um Espírito que tem seu corpo abortado. Se as razões para esta interrupção da gravidez forem injustificáveis, os causadores terão naquele espírito um inimigo perigoso, causa de males futuros.
No Budismo e no Hinduísmo o cerne da questão está na forma como encaram o sêmen, considerado o veículo transmissor da vida. Isto significa que é no momento da concepção óvulo-espermatozóide, que se dá o início da vida. Concluí-se, pelas visões diferenciadas dos corpos masculino e feminino, que essas religiões defendem, que o homem é o portador da vida, e a mulher portadora de um corpo cuja única finalidade é proteger o feto. Ambas as religiões defendem uma visão machista, onde o homem é quem tem o direito de decidir pela continuidade ou não da gestação.
A única religião que proíbe o aborto em quaisquer circunstâncias é a Igreja Católica cuja posição pode ser resumida no que disse, em 1976, o Papa Paulo VI: que o feto tem "pleno direito à vida" a partir do momento da concepção; que a mulher não tem nenhum direito de abortar, mesmo para salvar sua própria vida. Essa posição se baseia em quatro princípios:
1) Deus é o autor da vida.
2) A vida se inicia no momento da concepção.
3) Ninguém tem o direito de tirar a vida humana inocente.
4) O aborto, em qualquer estagio de desenvolvimento fetal, significa tirar uma vida humana inocente.
Mesmo que se creia que a vida se inicia na concepção, quando se diz não ter direito de tirar a vida de um inocente, pode-se perguntar: De que vida estamos falando? Da mãe ou do feto ou fetos? Se respondermos que só Deus sabe, o Bispo tem razão. Se respondermos que a Ciência sabe, os médicos tem razão. Estamos com aqueles que tem a segunda resposta. O que não temos é o direito ainda, a Ciência não avançou tanto, para impor nossa opinião a ninguém. Se, mesmo como ateu, não déssemos relevância à religião, não teríamos nem escrito tudo isto. No entanto, enquanto Lucinha chorava pelos cantos em consequência dos conflitos entre sua religião e sua consciência moral, eu sentia pela colega mas, estava tranquilo seguindo só uma delas: minha consciência moral, certo de que nós seres humanos, podemos sobreviver com paz e dignidade, como seres divinos sem precisar de Deus e religiões num debate como este. Graças a Deus!

Cleómenes Oliveira - E-mail: cleomenesoliveira@citltda.com

Nenhum comentário: