sábado, 11 de abril de 2009

Vida, Paixão e Morte...



Estou em casa cozinhando. Entre um “trim” e outro do marca tempo de cozinha, resolvi escrever. Sentei, fiquei como o Gildo uma certa vez, olhando para o tempo. Fui no site de Bom Conselho, no Mural, li quem eu sempre leio, procurando inspiração. Escrevi umas baboseiras nele e voltei. “Trimmmm”, era o tempo do feijão de coco. Mexi. Voltei. Tudo cheira a Semana Santa. Pensei, vou escrever sobre o São João. Mas, quem iria ler? Resolvi não inovar muito. E lá vem a Vida Paixão e Morte de Jesus Cristo, outra vez.
Hoje começo pelo fim. À noite irei assistir à Paixão de Cristo do Recife. Já fui, alguns anos atrás. É um bonito espetáculo, e para nós católicos, a questão de texto, interpretação dos atores não vem muito ao caso. Eu choro nos espetáculos da paixão desde que via, no Cine Rex aquelas Vidas de Cristo, mexicanas, cujos diálogos seriam, mais ou menos assim (não sei espanhol):
- Como te hamas?
- Yo me hamo Pedro.
- Te hamavas, ahora serás pescadores de los hombres!
E por ai vai, passando pelo circo do Zé Bezerra, no qual vi Jesus ser retirado da cruz umas três vezes, e ainda chorava.
A Paixão do Recife, mesmo quando assisti pela primeira vez, já achei o José Pimentel um pouco velho para o papel. Jesus então fica, com todo respeito e pedindo o perdão ao verdadeiro, no linguajar do meu filho mais novo: “caidaço”. Hoje à noite ele ainda está lá no batente. Não sei se é por isso que o patrocínio ao espetáculo vem caindo. Vamos ver se ele ainda consegue carregar a cruz, e me emocionar. Se eu chorar, pode continuar, Pimentel.
Mas o patrocínio flui mesmo é para a Paixão em Nova Jerusalém. Todo ano é um Cristo novo e é um ator global. Engraçado que são bons atores. Fui dois anos e chorei nos dois. Porque é que a Rede Globo tem os melhores atores? Todos sabem, sou fã de novelas (aguardem a crônica sobre O Caminho das Índias, perdão meu Deus) e as desta emissora se sobressaem porque, acho eu, os atores são melhores. No entanto, pelo menos deveriam deixar um mesmo Jesus por alguns aninhos. Quando disseram que o ator deste ano era um Murilo, eu pensei, não, o Dódi, não.
Sem querer fazer propaganda, a CIT não firmou ainda nenhum contrato com a Globo, digo que a coisa lá em Nova Jerusalém é bonita. Um pouco cansativa, sim, mas, a beleza supera o cansaço. Embora quase ficamos sem tempo de chorar.
“Trimmm”, é o bacalhau de forno que ficou pronto. Receita de minha mãe, desde quando em Bom Conselho, bacalhau era comida de pobre. Meu pai contava, vinha numas barricas, baixas e redondas, não sei de onde, e era barato. Quando víamos uma mulher baixa e gordo, a comparávamos a uma barrica de bacalhau. Vou tirar do forno mas, volto..
Aproveitei e também tirei o peixe do fogo. Igual ao bacalhau hoje, o preço está pela hora da morte. Eu não sei como os pobres deste país poderão cumprir os preceitos de nossa Santa Madre Igreja, de não comer carne nestes dias santos. Comendo ovo, talvez. Porém, são estas coisas que eu digo, se não puder comer peixe, tenho certeza que Jesus, em sua infinita misericórdia, perdoará aquele que não o fizer. Jejuar, como faziam meus avós, pode ser até um bom motivo para minha filha perder peso, mas para uma pessoa pobre pode ser até prejudicial a saúde. São preceitos que a própria Igreja vai aceitando, ou pelo menos, os homens de boa vontade que a compõem.
Começamos pelo fim, agora voltemos ao início. Em minha época de adolescente em Bom Conselho, os rituais religiosos da Semana Santa eram feitos com muito esmero, devoção e carinho pela fé. O lava pés na Quinta-feira Santa, a procissão de Sexta-feira, Sábado de Aleluia, que terminava com a ressurreição de Jesus, eram memoráveis. Na quinta eram os meninos que se vestiam de apóstolo e iam para o lava-pés (homens da CIT e de Bom Conselho, escrevam sobre isto), havia ainda os Ben-hur, na sexta-feira éramos nós, mulheres, de Pecados. Maria Madalena, lembro um ano que foi Marilene de Dona Luisinha e Santa Verônica, posto cativo de Nevinha de Chico Cardoso, tudo isto me vem à mente, será que ela ainda funciona? Fui Pecado. Sim havia os 7 Pecados Capitais (agora lembrei do texto de Gildo, editado por Cleómenes). Fui, poucos anos, Luxúria, era cor-de-rosa, tomaram meu lugar. Dona Maria Francisca me disse que só tinha lugar para Avareza, cor amarela. Meu pai falou que não tinha dinheiro para comprar o tecido outra vez. Deixei os pecados. Só tinha dinheiro para ver a procissão passar e ver Dona Lourdes Cardoso, puxando o canto:
- Perdão meu Jesus, perdão Deus de Amor, perdão Deus clemente, perdoai Senhor!
Finalmente, ficava, com as amigas, rodando na Praça Pedro II, no sábado de aleluia, rezando para que a achassem, de sorte que o mundo não tivesse fim. Nunca permanecia até muito tarde. Meu pai era um zeloso senhor que, como quase todos na época, achava que chegar tarde em casa, tirava a honra das filhas. Ainda lembrava disso quando as minhas chegavam aqui em Recife, de madrugada. Nem dizia nada.
Quase hora do almoço. Todos a postos. Uma feliz Páscoa para todos.

Lucinha Peixoto

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