quarta-feira, 20 de maio de 2009

Maio - Mês das Noivas



Maio é um mês de muitas emoções. Começa com o Dia do Trabalho, passa pelo Dia das Mães, continua com o Dia da Abolição da Escravatura, que é também o dia da Virgem de Fátima. Além disso, é considerado o mês das noivas. Dizem que a influência da Igreja Católica foi preponderante na escolha desta denominação para maio, por ser o mês da consagração da Virgem Maria, além da influência do dia dedicado às mães, e pelo fato, que não sabemos se é causa ou conseqüência, dos casamentos serem realizados em maior número neste mês. Alguns já dizem, que, por motivos mais “nobres”, férias e 13º salário, já se casa mais no mês de dezembro. Porém, o nome continua no mês de Maio.
Tempos atrás, quando eu era uma moça casadoira, noivar era quase uma obrigação. Casar sem noivar cheirava a pressa a que se submetiam os noivos quando praticavam o que não deviam. Aliás, praticar o que não se devia é uma questão moral e de costumes, e como tal, envolvida com todos nossos valores religiosos. O que não se devia fazer numa relação a dois sempre variou no tempo e no espaço. No caso do noivado eu fugi um pouco da regra geral, apenas comunicando a meus pais que tinha noivado. Não foram pedir minha mão e até hoje reclamo do meu marido por isto. Tenho que me explicar, antes que algum desafeto ou mesmo moralista de plantão me acuse de libertinagem.
Fiquei em Bom Conselho até a adolescência, talvez um pouco mais. Não namorei muito, talvez porque a música que eu mais cantava deve ter influenciado minha vida: “Quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora...”. Os rapazes da época, não sei se por culpa minha ou deles só queriam xumbregar. E xumbrego comigo não, gavião. Meu Deus, quando já se é uma mulher madura, eu disse madura e não podre, temos compulsão de explicar tudo, já que vivemos muito para que mal entendidos possam comprometer nossa reputação. Se minhas filhas me vissem falar em xumbrego morreriam de rir, e diriam:
- Mãe, hoje ninguém xumbrega, a gente “fica”.
É isso ai, hoje elas "ficam", tempos atrás as moças xumbregavam. Havia muitas moças xumbregueiras naqueles tempos, no entanto, meus preceitos religiosos me impediam de fazer isto e meu pai me mataria se algum amigo dele lhe contasse que me encontrou xumbregando com alguém. Se fosse mamãe que dissesse a ele talvez não chegasse ao homicídio doloso, mas ao culposo, com a surra que levaria, sim. E não pensem que meu pai era um monstro desnaturado ao ponto de matar a filha. Todos eram. Colocavam a honra em primeiro lugar, e o amigo saber que a filha estava xumbregando era a maior desonra, se só a mãe soubesse a desonra era menor. Costumes e moral de uma época?
Atualmente, antes de noivar, as moçoilas “ficam” à vontade, depois namoram, depois noivam e depois casam, às vezes, não necessariamente nesta mesma ordem. Depende muito da classe social, nível de renda, grau de instrução, formação religiosa e de outras variáveis. O que mudou muito dos tempos de outrora foi o período envolvido nisto e o significado das palavras usadas. Entre xumbregar e “ficar” não vejo muita diferença e o provaria se o nosso Blog só pudesse ser lido tarde da noite, entretanto, já sei que ele já é leitura quase obrigatória nas “lan houses” de Bom Conselho, então, acreditem. Namorar, Noivar e Casar é que mudaram totalmente de sentido. Como estamos tratando do mês das noivas, fiquemos neste termo.
Noivar antes era um sonho para nós mulheres talvez até maior do que o casamento que seria o acordar para realidade. Era o ponto futuro do casamento com mais certeza do que no namoro. Era a preocupação dos pais com o dote, em minha geração, já restrito ao chamado enxoval da noiva. Quanto ao dote, os machistas diziam que era uma forma de compensar o noivo por aceitar carregar a "carga", arrematando: o "burro" tem que comer alguma coisa para levar a "carga". Nossa vingança como mulher veio pelo nosso brio e não pela nossa praticidade. Hoje nós, como mães ainda tratamos do enxoval e trabalhamos para ajudar o "burro", mas dizemos a nossas filhas: se o "burro" der coices, não titubeie, dê um maior ainda naquele lugar onde lhe ensinei. Voltemos aos encantos do noivado. As noivas sonham ainda, e como sonham. Mas, um sonho diferente. De participação na vida a dois, na maternidade, mesmo quando já levam uma criança no bucho, no amor, mesmo que saibam que é chama e pode se apagar numa sala da justiça, no trabalho, mesmo que trocando o posto de chofer de fogão para dirigir outros veículos mais complicados. Sonhos enfim.
O que falta mesmo aos noivados atualmente, é o que falta a todos os atos humanos que eram possíveis no passado e não mais são possíveis hoje. Antes tudo parecia acontecer até que a morte separasse. Hoje não se espera a morte. Tudo acontece antes porque a morte ficou para depois. Pensamos que temos tempo para “ficar” muitas vezes, namorar mais ainda, noivar nem se fala já que o casamento se tornou quase o xumbrego do passado. Vivi o suficiente para dizer que nada disso é errado hoje e nem foi ontem, desde que as consciências de cada uma não doam. Eu mesma noivei, casei e xumbrego com o mesmo homem há quase 30 anos. Estou feliz neste maio: Mês das Noivas.

Lucinha Peixoto

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