terça-feira, 5 de maio de 2009

O Circo Nacional da China e Zé de Puluca

Nada melhor para um descanso mental do que cansar a mente com coisas diferentes daquelas que estamos fazendo. Se estivermos pensando em alhos, devemos pensar em bugalhos. Alguns dirão que, no final, você nem terá alhos nem bugalhos. Ledo engano. Quando voltamos aos alhos eles parecerão ou serão maiores do que antes. Descobri isto neste fim de semana ao ser perguntado por alguns amigos, se estaria disposto a ir a um circo. Pensei, pensei e refleti. Um circo? Já vivemos em um mundo que em tudo parece com um, está cheio de palhaços, animais e ilusionistas. Prefiro ficar vendo a TV Senado.
Depois de muito insistência resolvi fazer esta aventura, caindo assim, na “farra” do trabalhador. Fui a um circo. Primeiro choque. O circo não tinha lona. Desde menino aprendi avaliar a importância dos circos pelo tamanho de sua lona. Tanto em Bom Conselho quanto aqui em Recife quando queríamos saber se um circo era bom, perguntávamos: é grande? E isto queria dizer: quantos metros tem de lona? A diferença era que, em Bom Conselho (no Alto de Santo Antônio ou na Beira-Rio, nas vizinhanças da casa de Dr. Orlando) isto também indicava o espaço que tínhamos para entrar por debaixo do pano ou da lona. Perdão meu Deus, mas entrei várias vezes. Naquela época, nem pensava que, do dinheiro da minha entrada dependia o sustento do Zé Bezerra e sua trupe.
Outra surpresa, que só me ocorreu no final do espetáculo. O circo não tinha palhaços, animais ou ilusionistas. Havia bailarinas mas, longe de estimular nossos sentidos mundanos para gritar: “Abre a janela!!! Abre a janela!!!”, como os rapazes faziam nos velhos tempos. Pensei que ia ser um porcaria. Circo sem isto não era circo. Mas era.
Começa o espetáculo. Todos chineses, não sei se da China ou do Paraguai. Todos tinham os olhinhos apertados e compleição de chinês. Fiquei “vidrado”, “embasbacado”, estupefato com o que eles faziam com seus corpos. Para mim, quando começavam, eu pensava: não vão conseguir. Conseguiam. O meu corpo, que, depois do teste de carbono 14, descobri que tem mais de 55 anos, se fosse comparado aos deles, eu marcaria 55 milhões de anos, era um dinossauro. Estava ali, boquiaberto, diante do ápice da perfeição física do ser humano. Um deles subiu numa forma cilíndrica, que simbolizava o mastro de um navio pirata, usando apenas as mãos. Não pensem que eram os braços. Não. Eram só as mãos que tocavam no mastro, sustentando todo peso do corpo. Que força, que destreza. E a platéia, eu inclusive, ficava com as mãos fracas e doloridas de tanto aplaudir. Certas horas cheguei a pensar que alguns deles iriam virar pelo avesso, talvez para mostrar que chinês também tem coração. Não chegaram a tanto, mas descobrimos como têm talento para esta arte. Não é a toa que sobreviveram aos ocidentais, a gang dos quatro, ao PCC e estão passando a perna nos seus ex-colonizadores ou exploradores. Foi preciso muito malabarismo, e isto eles sabem fazer.
Do começo ao fim da apresentação não dava para pensar em mais nada, a não ser nas estripulias corporais daqueles jovens. Nenhum aparentava mais de 30 anos. Havia um que aparentava ter 7 ou 8 anos. Entrou com uma “perna de pau”, que era de alumínio, dando cambalhota em cima de uma vara horizontal. Inquiri minha mente, já muito mais descansada, será que na hora do parto, na China, eles já saem dando cambalhotas? E a platéia ia novemente ao delírio. Será que eles nunca erram? Neste instante, um deles, que fazia malabarismo com 6 chapéus, deixou um deles cair. Imaginei, pronto, agora vem uma vaia deste nosso povo mal educado ou piadas de que ele estava fazendo malabarismo com o chapéu alheio. Que nada. Os aplausos foram maiores ainda, e tenho certeza absoluta, pelo mesmo motivo que eu aplaudi também. Apenas descobri que eles eram seres humanos, e, menos vezes do que nós, também erravam. Não eram robôs ou bonecos mecânicos, mas gente “qui nem nós”.
Fim do espetáculo. Marlos Urquiza, se o tivesse visto diria que ele é um sinal da existência de Deus, pela perfeição da natureza humana, Ele há que existir. O Cleómenes Oliveira diria que é um sinal da inexistência de Deus, o homem pode fazer coisa que até Ele, se existisse, duvidaria. Eu diria, sem entrar nesta polêmica, que ambos tem razão.
Mente descansada pelo diferente e belíssimo circo. Bugalhos enfim. Tão descansada que lembrei de um espetáculo semelhante que vi um dia, e tinha, para mim, quase todos os ingredientes deste circo. No Cine Rex, em Bom Conselho: Naná e Picolé. Sem lona, num teatro belíssimo, embora com uma bailarina e um palhaço, eles, Nana e Picolé, não tiveram muita importância para mim. O que me lembro, de perfeição, foi do nosso conterrâneo, e grande músico Zé de Puluca, tocando o seu sax. Recordo o concurso de dança que os dois protagonistas organizavam com pessoas da platéia, e pediam para o Maestro: Valsa, e tome valsa. Bolero, e tome bolero. Foxtrote, e tome foxtrote. Salsa, e tome salsa. E assim por diante... No fim, o palhaço Picolé, nem mais prestava atenção em quem estava dançando, e sim na performance arrasadora de Zé de Puluca. Ele deveria estar pensando como eu: será que ele vai saber tocar todas? Soube.

Diretor Presidente

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