sábado, 30 de maio de 2009

O Monstro da Lagoa Negra



Em nossa vida passamos por momentos que são apenas enganos do nosso cérebro. Quem não já chegou a vivenciar um destes momentos nos quais dizemos: eu já passei por isto antes? Li em algum lugar que isto é um dos principais sintomas de esquizofrenia. Se é verdade, hoje estou esquizofrênico. Aqui na CIT a Internet pifou, ou como dizemos já com naturalidade de quem lida com a área, caiu, deu pau, etc. Uso esta estória de esquizofrenia para começar um texto e evitar os efeitos desta queda. Sei, o que eu e todos desta empresa estão sofrendo. Os sintomas são claros e evidentes. Irritação, mãos suadas, tristeza, sensação de sono e de noite mal dormida, vagueza de idéias, olhos voltados para o infinito, sem contar os mais perigosos e violentos, como, xingamentos, palavrões fora de hora e, no meu caso particular, o sintoma descrito acima: sensação de já ter passado por este momento. Perguntamo-nos o que seria isto. Veio a resposta: é a SAI, sigla para Síndrome de Abstinência de Internet. Mais uma doença moderna para a qual não existe ainda remédios que remetam à completa cura.
Dizem os otimistas que se alguém te der um limão, não reclames do azedume, faça uma limonada, ditado que chegou aqui à empresa, certamente pela Internet, numa forma mais jocosa ou, como diz Lucinha: machista. Se a vida te virar as costas, passe a mão na bunda dela. Penso que bunda não é palavrão, estou com a SAI mas ainda permaneço lúcido. O que quero dizer é que ao escrever este artigo estou fazendo uma limonada ou tentando bolinar a vida.
Tudo me remete a Bom Conselho, idos não sei de que ano, dias bonitos e noites de maior beleza pela sua escuridão. Se hoje sentimos falta da Internet naquela época sentíamos falta de Energia Elétrica. Para os mais jovens isto parecerá um filme de terror, Bom Conselho sem luz durante alguns meses. Os únicos sinais de energia elétrica, à noite, vinha do cinema: O Cine Rex. E era para lá que confluíam as pessoas de maiores posses. Os outros aproveitavam o escurinho das casas e ruas de uma melhor forma. Lembro da noite caindo, as casas comerciais fechando junto com a saudade da luz noturna produzida pelo motor da Empresa, quase de frente do cinema. Haviam-nos prometido energia elétrica, vinda de Paulo Afonso. Quando pensávamos que Garanhuns já tinha, isto nos enchia de esperança, talvez maior do que a esperança de sermos hoje uma cidade industrial, com a chegada da Brasil Foods. Da mesma forma que hoje, a cidade se preparava para a luz com uma ponta de incerteza e curiosidade. Meu pai pensava no rádio novo, a energia, aposentando aquela velha bateria de caminhão.
Minha mãe, pasmem, pensava numa geladeira, evitando assim ter que cozinhar feijão todo dia. Outros, mais ricos já pensavam numa radiola. Isto nas residências. Nas casas comerciais os sonhos eram mais altos ainda.
Para a molecada não existia tempo ruim. Quando tinha luz brincávamos, quando não tinha, brincávamos no escuro. Entretanto, o quente era sair à noite com uma possante laterna. Era um instrumento de primeira necessidade. Sua ausência significava uma brincadeira na frente de casa ou uma estória de “trancoso” na sala, junto de meninas que, pela minha idade na época, nem sempre eram apreciadas. Minha mãe contava, outras vezes era minha avó que contava as estórias. João e Maria já sabia de cor e salteado: água meu netinho azeite senhora vó. A lanterna era o passe para a liberdade da noite escura. Desde esta época descobri que a melhor lanterna é a do vizinho, aprendendo a me contentar com a minha de médio alcance. Dava conta do recado e não fazia feio quando saia garbosamente com ela para o cinema.
Óbvio que todos que viveram aquela época tem seus causos do escurinho da cidade para contar. Eu tenho os meus e, enquanto a internet não volta, contarei alguns.

O uso da lanterna me levava longe e, se não ia mais longe ainda era por falta de coragem. Meu lugar mais longe era o Cine Rex, pois a calçada da Igreja e Rua da Cadeia, onde ia nestas noites escuras eram bem pertinho de casa. Ao cinema ia todo sábado, isto era certo. Jamais perderia um capítulo de um série fosse ela de Zorro, Nyoka, Flash Gordon, Capitão Marvel ou Super-Homem. Uma vez passei uma semana discutindo com a molecada como o Capitão Marvel iria se salvar de uma lâmina de ferro que caia sobre ele no “perigo” da semana anterior. Fomos todos ao cinema, no próximo sábado com nossas teorias sobre o desfecho do episódio. Santa decepção, Batman, a lâmina quebrou porque o herói era o homem de aço. Neste dia a laterna de todos voltou mais baixa para casa, ninguém esperava tanta facilidade nem tanta burrice nossa por não descobrir.
O pior e mais angustiante episódio das noites escuras de Bom Conselho aconteceu no dia em que fui assistir a um filme chamado A Tarântula. Hoje eu diria, mal feito, preto e branco, roteiro chinfrim, efeitos especiais não especiais, etc. Era a narrativa de um cientista que produzia uma fórmula de crescimento e a aplicou numa aranha pequeninha. O efeito era o que se esperava. A aranha começou a crescer, crescer e crescer até se tornar um monstro que invadia cidades e casas matando adoidado. Não me lembro do fim do filme, me lembro do depois do filme, ao sair, com a minha lanterna guiando meus passos pela ladeira do corredor em direção ao centro. Aquele frenesi de lanternas, os passos das pessoas, o falatório dos comentários sobre o filme me levaram a ver tarântulas onde não devia. Parecia até que uma delas me perseguia e outra me olhava de cima da Princesa do Norte. Comecei a acelerar o passo até chegar, talvez, a uma tentativa de bater o recorde de 400 metros com barreira.
A barreira foi a porta de minha casa que ficava fechada mas, minha mãe deixava a chave debaixo de uma planta enquanto fechava com outra por dentro. Com o medo que estava, imaginem já umas trinta aranhas nos meus calcanhares, nem me lembrei do esquema da chave. Bati com força na porta, gritando e quase chorando, acordando todos em casa, e nesta noite fui dormir na cama dos meus pais, depois das explicações de praxe.
Vem a minha mente sequelada pela SAI um episódio ao sair do escurinho do cinema para o escurinho da cidade, onde um senhor de nossa sociedade estacionou seu jeep Willis (penso ser assim que se escrevia) perto do cinema. Ao sair, ele gritava, cadê o meu jeep que estava aqui, apontando para o local com sua possante lanterna e chamando a atenção de todos. Sua família o rodeava e aflita também procurava o automóvel a fim de voltar para casa naquela escuridão. Engraçado e estranho é que não pensei em momento algum que pudessem roubar um jeep. Velhos tempos belos dias. Depois de várias tentativas quanto a localizações diferentes, o jeep foi encontrado mais embaixo com um rapaz, um pouco chegado as águas ardentes, sentado no banco do motorista. O rapaz com a língua meio trôpega disse inocentemente: eu pensei que era o meu, e voltou a dormir calmamente. No outro dia, eu soube, as desculpas paternas vieram e não houve mortes por causa do escuro, ao contrário do filme que passava naquela noite, onde havia muitas mortes de inocentes: O Monstro da Lagoa Negra.

Diretor Presidente

Nenhum comentário: