domingo, 31 de maio de 2009

SABORES E SABERES



Todos nós temos lembranças, estamos sempre nos recordando de algo que nos aconteceu. Viver no passado é uma tendência natural da mente. Para isto, ela nos faz ruminar todos os eventos que vivenciamos, sejam eles bons ou maus. Se foram bons, ficamos presos àquela lembrança lamentando o que perdemos. Se maus, nos mantemos estagnados por medo de que aqueles eventos se repitam novamente. O passado não possui qualquer poder para nos impedir de vivenciar a plenitude de nosso ser agora, apenas o rancor em relação ao passado pode fazer isso. Viver é uma dádiva, éter algo de bom para recordar da vida vivida, ah, isso é uma glória! Quem de nós não tem, por vezes, a portinha do passado que se abre inesperadamente e sem planejamento? Quem nunca se viu diante de uma situação atual que automaticamente foi remetido para um lugar ou uma situação longínqua do seu passado?
Aconteceu comigo!
Em uma tarde deste Outono, onde tudo nos convida para momentos de relaxamento e descontração, fui convidado para um chá. No local me deparei com imensa mesa de frios, doces e bolos do tipo que só de olhar já engorda. Sentei-me com o meu grupo próxima a uma destas mesas e embalado por um som suave de um órgão cujo tecladista não media distância no tempo, passeava dos anos sessenta, aos anos setenta e aos oitenta, eram melodias que não só despertavam sentimentos, como recordações dos sentimentos. E nestas recordações eu consegui mergulhar em um tempo em minha infância e deixei solta a minha mente, e ela me levou a uma passagem que agora divido com você que me lê neste momento.
Lá pelos anos sessenta e a vida transcorria sem maiores mudanças, cidadezinha pequena, pacata em seu caminhar, tal qual o caminhar de uma tartaruga preguiçosa . E em meio a esta vidinha estava eu vivendo a minha infância por direito. A casa da minha avó paterna era colada a minha, o que me dava à liberdade de está mais na casa dela do que na minha. A minha avó já idosa, mãe de uma penca de filhos, todos já casados e donos de suas vidas. Mas uma das suas filhas, a mais nova, não quis casar, não sei se por opção ou por falta de pretendente mesmo. Assim, solteirona, resolveu assumir cuidar da minha avó. Esta minha tia de nome Dulcinéa, que curiosamente eu nunca a chamei de tia, não sei se pela liberdade, ou por achar que ela poderia ser a minha irmã mais velha, não sei, mas carinhosamente eu a chamava de Dulce. Pois bem, Dulce era uma quituteira de mão cheia, e não sei onde ela aprendeu, se foi alguma herança genética dos seus antepassados portugueses, sei que a Dulce era como denominamos hoje um verdadeiro “gourmet”.Como por necessidade ou por ocupação Dulce tinha aos sábados –dia da feira na minha cidade - um quiosque (na linguagem popular: uma tolda) onde servia os seus quitutes, acompanhados de um café forte, feito na hora. Todo o sábado estava ela, ao lado esquerdo da igreja matriz a servir assuas iguarias ao pessoal que vinha da zona rural para feira. Era um trabalho árduo, mas ao ganhar a aprovação as suas iguarias, um sorriso imenso vinha estampado no seu rosto. Neste universo estava eu inserido!
As Sexta feiras a Dulce começava os preparativos para o dia seguinte. Acordar cedo, cortar lenha, preparar a massa. Eram tarefas rotineiras neste dia. Um sinal que a quituteira estava em ação era notado pelas portas da frente da sua casa. Permaneciam fechadas. Não recebia ninguém quando estava nestas atividades. Nem mesmo eu, seu sobrinho favorito, tinha permissão de adentrar ao seu reino sem ser convidado. Todos respeitavam este código, que mesmo sem ser dito, era respeitado. Amanhã inteira da Sexta feira era essa a função da quituteira. Ao voltar da minha escola, e depois do almoço, aí era hora de verificar se o sinal estava livre para que eu pudesse ir para a casa da minha avó. Sim, existia um código para que eu me aproximasse da casa: A janela teria que está aberta. Vendo isso eu poderia invadir o território da quituteira. Assim era a nossa comunicação. Adentrando o território, a festa pra mim estava completa. Todos os docinhos e bolos que não passassem pelo controle de qualidade da Dulce eram guardados em uma vasilha e eram o meu presente. Interessante que cada docinho que ela me dava vinha sempre com um comentário do tipo: “Este eu fiz com a massa mais úmida,ou este não levou leite na receita”. Era uma sabedoria que ela me passava, mas eu, criança, não sabia o que fazer com aquela sabedoria, simplesmente ouvia e claro, comia as guloseimas. Foi assim por muitas Sextas feiras do meu tempo. Até que cresci, Dulce mudou de casa, eu mudei de cidade, mas as lembranças de todos aqueles quitutes permaneceram guardadas na minha memória.
Muito tempo depois tive oportunidade de começar a estudar o lado metafísico dos alimentos e só aí pude entender o que a Dulce queria que eu aprendesse com os seus comentários: Aprender a conhecer o verdadeiro sentido do comer. Acho que ela inconscientemente plantou uma semente que só foi germinar muito tempo depois. Pois eu pude entender que existe uma sabedoria intrínseca nos alimentos, um campo energético que os permeiam, desde a sua preparação até a sua degustação. Daí a importância de não só sabermos o que estamos comendo, mas sabermos também como foi a sua preparação. Se a pessoa que o preparou estava bem, não só fisicamente, mas emocionalmente, estas vibrações passam para os alimentos. Não precisa ser um “expert” nesta área para conhecer a vibração dos alimentos. Faça uma experiência na próxima vez que for degustar qualquer alimento (aqui é excluído os industrializados); olhe para o que você está comendo, aos poucos, experimente... Mastigue bem...Tenha cuidado com as misturas que você faz no seu prato... Os “self service” da vida estão cada vez mais abundantes, nada contra! Mas, este tipo de serviço faz com que comamos com os olhos e misturamos tanto que não sabemos distinguir o sabor de quê. Existem alimentos que quando misturados perdem o seu sabor original e conseqüentemente o seu valor nutritivo. A Medicina Tradicional Chinesa tem uma área dedicada a este estudo dos alimentos chamada ‘dietética dos alimentos”,onde os alimentos estão associados aos cinco grandes movimentos do Universo: Fogo, Terra, Água, Metal, Madeira. A primeira vista é complexo,mas depois que entendemos estes movimentos,o ato de comer não só torna-se mais prazeroso, como também torna-se um ato de sabedoria. Pois o ato de comer faz parte dos mecanismos instintivos do homem, podemos pensar. Contudo, depois de Freud, sabemos que nada é tão simples assim. O nosso desejo dá um jeito de aparecer e tocar cada uma das nossas mais corriqueiras atividades. Ao escolhermos um prato,ao pensarmos nos ingredientes,nos temperos,ao preparamos uma comida levamos ao outro o nosso amor,o nosso cuidado,o nosso desejo de agradá-lo. O ato de estar à mesa transforma-se num momento de encontro e trocas, de compartilhar desejos e de sonhar os sonhos que iremos realizar. Aquilo que aprendemos a comer e a apreciar,no âmbito familiar,quando éramos crianças,será carregado como bagagem para a nossa vida adulta e,de alguma forma ressurgirá na maneira como vamos alimentar nossos filhos futuramente, seja com o alimento físico,emocional ou espiritual. Porém, “aquele sabor de infância”não fica esquecido e vai ressurgir carregado de lembranças sempre que o adulto se deparar com um... determinado cheiro de canela, de limão,a visão de um bolo de chocolate “como os de antigamente”,qualquer coisa enfim, que tenha sido mais fixada na memória em função de outros estímulos. Independentemente de nossas preferências, sejamos crianças ou adultos, uma série de emoções estão atuando quando comemos, fazendo com que nossa digestão,nosso modo de assimilar os alimentos sejam influenciados por isso,mesmo quando não nos damos conta. Mas todos comemos. Com culpa, compulsivamente,com preguiça,com pressa, por depressão,por necessidade de nos nutrir, com prazer ou sem prazer, com alegria por estarmos juntos ou aborrecidos,por termos que Compartilhar, para enganar a tristeza ou preencher o tempo, prestando atenção aos sabores ou simplesmente engolindo, enfim se quisermos sobreviver, um dos requisitos é nos alimentarmos, seja qual for nosso estado de espírito. No entanto, o ato de comer tem um significado muito mais profundo, no sentido de “preencher vazios” emocionais, de dar colo a nós mesmos. Como vamos nos alimentar, o que vamos comer, nos insere num determinado contexto e explica um pouco a nossa história. Isto tudo tem um motivo para estes escritos que você agora lê. Pense nisso!!!

Gildo Póvoas

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