domingo, 17 de maio de 2009

A SADIGÃO



Algum tempo atrás escrevi sobre o possível impacto da empresa Perdigão em Bom Conselho. Naquela oportunidade referia-me ao papel do poder público municipal na questão ( http://www.citltda.com/2008/11/mulher-e-serpente.html ). Não há o que retirar daquele artigo mas, há a acrescentar agora, com o anúncio da fusão de duas empresas, sendo uma delas a Perdigão e a outra, outrora sua concorrente, a empresa Sadia, formando a SADIGÃO, como está sendo chamada informalmente (formalmente falam em Brasil Foods).
Não é nossa missão aqui discutir aspectos técnicos nem econômicos financeiros desta fusão em detalhes. Nosso objetivo aqui é fazer uma reflexão sobre os impactos desta fusão como o fizemos a respeito dos impactos da implantação da Perdigão em Bom Conselho.
Vimos, pelas nossas idas a esta cidade, quanto esta empresa estava influenciando todos os seus setores de atividades, desde os mais ligadas à economia àquelas ligados à cultura, ecologia, esportes, turismo, etc. Chegamos até a propor um nome ou um epíteto para a cidade, substituindo o de Cidade das Escolas, para Cidade do Chester, ou da Salsicha.
No entanto, no meio do caminho tinha uma crise. Os americanos deixaram de pagar suas casas e o mundo caiu sobre a cabeça de todos, atingindo com uma “marolinha”, que virou onda de mar bravio, alguns setores da economia do Brasil.
Aquela alegria incontida do bom-conselhense ao falar da Perdigão sumiu atrás de um simples sorriso tímido ao explicar o atraso nas obras. Por dentro ele sentia o mesmo que qualquer um outro que não quisesse externar o desabafo: “logo agora?”, ao meditar sobre os efeitos desta crise na sua cidade e nos sonhos de muitos que viram Bom Conselho, até que enfim, mostrar para as outras cidades que existia, além de Pedro de Lara. Agora tão perto e tão longe. Será que é castigo por termos tratado mal a mãe de Dantas Barreto como nos conta nosso historiador Jordalino Neto? Talvez. Alguém já propôs até o seu nome como patrono de uma Academia, e ele tem nome em todos os cantos da cidade, talvez para nos perdoar. Parece que não teve jeito.
Apesar dos atrasos, a fábrica vinha sendo construída e os papacaceiros, de fora e de dentro, suspiravam pelos cantos dizendo: antes tarde do que nunca. Não sabiam eles que outra consequência da crise poderia afetar mais suas vidas. A Sadia, uma fábrica de alimentos, principal concorrente da Perdigão, abriu uma unidade em Vitória de Sto. Antão, mesmo depois de ter tido um brutal prejuízo com a crise, pelas burradas que fez no mercado financeiro. Esta fábrica foi inaugurada com pompa e circunstância com a presença de altas autoridades do Estado, inclusive a do Governador, fazendo o seu papel, pois Pernambuco só ganharia com isto. Entretanto, nós bom-conselhenses de nascimento ou de coração, esperávamos o mesmo para a Perdigão, o que é um rima, mas não foi a solução. Até hoje não vi nenhuma inauguração. E pior, talvez jamais vejamos, pelo menos da Perdigão. Não mais existirá a Perdigão e sim a SADIGÃO.
Os bom-conselhenses que viviam pisando nos astros, distraídos, já não verão as estrelas salpicarem o chão de sua cidade. Pelo menos com tanta facilidade e certeza que se tinha quando uma só, a Perdigão, reinava. Quais serão as consequências desta fusão para nossa cidade? Difícil dizer. Antes tínhamos duas empresas concorrentes onde hoje temos uma só (algumas menores nem contam em comparação com Sadia e Perdigão), com todos os malefícios do monopólio, tanto nos preços como no emprego. Explico ou tento explicar de forma simples. Uma empresa pode produzir com custos menores do que duas porque tem gastos que não se pode dividir adequadamente, quando separadas. Exemplo, para produzir uma salsicha usa-se uma máquina igual e comprada pelo mesmo preço. Se a máquina for usada a plena capacidade o custo da salsicha será menor do que se produzir só a 50% da capacidade da máquina. Isto não é como "beiço de bode", certinho, pois outras matérias primas estão envolvidas, entretando, geralmente se produz mais barato. Isto implicará menores preços para concorrer no mercado externo, mas não garante preços menores internamente e muito menos para nossa cidade cuja dieta não é só de salsicha. Do lado do emprego é que se torna um problema. Normalmente, por motivos assemelhados ao raciocínio acima, uma fábrica emprega menos, tudo mais ficando constante (os economistas dizem “ceteris paribus”, mas normalmente são uns encantadores de serpente), do que duas produzindo o mesmo produto.
Neste caso, talvez Bom Conselho sofra um pouco com a fusão. No entanto, sofrerá muito menos do que se a SADIGÃO nem inauguarada fôr. Batamos na madeira! Penso apenas que as autoridades, e aqui incluo Governador, Prefeitos, Vereadores, representantes da sociedade civil e pessoas influentes politicamente não devem deixar correr frouxo uma atitude como esta das duas empresas, caso vingue realmente esta fusão. Esta crise deu plenos poderes aos governos para mexerem na economia. Não se pode ficar de braços cruzados com saudades da “marolinha”. Hoje, todos os economistas são mais keynesianos do que Keynes. Vamos “cuidar” da SADIGÃO, afinal de contas, dizem que será a 3ª maior empresa do Brasil. Que Dantas Barreto nos perdoe e Pedro de Lara nos proteja no que estar por vir.

Cleómenes Oliveira

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