segunda-feira, 18 de maio de 2009

União Futebol Clube



Quem se lembra do União Futebol Clube? Fora de Bom Conselho, quem lembrar não é o mesmo clube de que falo. Dentro de Bom Conselho, alguns poucos. Mas, com certeza mesmo, talvez só eu. Sempre fui muito ligado ao Futebol e isto não é novidade para alguns que lêem o que escrevo de minhas lembranças. Meu sonho juvenil foi ser um grande jogador de futebol e, a partir de 1958, ano em que o Brasil conquistou o primeiro campeonato mundial, o sonho aumentou, rumo à Seleção Brasileira.
Meu ídolo daquela seleção era o Garrincha. Começou sendo Gilmar, pois só me deixavam, inicialmente, jogar de goleiro e, por um bom tempo ainda era, até que Zezinho de Anália me convenceu a escolher outra posição, com o argumento que era ainda pequeno para jogar na barra do campo de verdade, lá onde hoje é o Centro Social Urbano, nosso sonho. Fui ser ponta direita e adotei Garrincha como patrono. Zé Praxedes era Mazzola. Zé Carlos era Zagalo, até saber que Zagalo era ponta esquerda e poderia ser canhoto, o que ele não era. Foi ser Vavá. Talvez se eu soubesse que Garrincha tinha as pernas tortas teria escolhido ser Didi. Carlinhos Mouco e Geraldo não me lembro quem escolheram. Pelé, naquela época ainda ninguém falava.
Neste bendito ano de 58, com 10 anos de idade, acordei para os sonhos esportivos. Na nossa Rua da Cadeia, não foi só eu, muitos acordaram para o futebol. Afinal, o Brasil todo era só festa. Haviam lançado o Fusca, Jorge Amado publicava Gabriela Cravo e Canela, a Bossa Nova engatinhava, além de sermos campeões do mundo de futebol. Não sabia de nada disso, hoje basta ir nos sites de busca. O que sabia era da influência de ganhar a Taça Jules Rimet (sim, aquela que roubaram algum tempo depois e derreteram), em minha rua e em minha vida.
É preciso dizer que não só foi na nossa rua. Da Rua do Caborge surgiu o Ateniense Futebol Clube, capitaneado por Saulo e Esdras e movidos pelos dois melhores jogadores daquela safra: Everaldo e Chico, filhos de Boanerges. Na Praça da Bandeira também surgiu um no qual jogava Obadias, mas não lembro do nome e nem de outros que possam ter surgido neste ano. Lembro bem que o Ateniense tinha o melhor padrão. Explico. Padrão era um jogo de camisas de um time do futebol. Este foi adquirido pela iniciativa de seus jogadores em ir pedi-lo a um candidato a Deputado Federal, num daqueles comitês de campanha que tanto influenciaram nossas vidas de criança e adolescentes. Quando nós, da Rua da Cadeia e adjacências nos movimentamos para adquirir o nosso, o comitê não tinha mais nenhuma. Se tivéssemos direita a voto, todos nós votaríamos no concorrente do tal Deputado.
Consequência disto foi ter que arranjar um terno de camisas as nossas custas. Óbvio que a qualidade das camisas não podia ser a mesma da do Ateniense. Cada um comprou uma camisa de meia branca e nos reunimos na casa de Carlinhos Mouco, de frente da Cadeia. Era um misto de alegria e tristeza. Alegria por termos as camisas e tristeza por elas seram tão feinhas. Branco era uma cor muito feia para o nosso time cheio de craques como Garrincha, Mazzola, Gilmar, Vavá e outros. Com esta tristeza começa uma solução. Dona Irene, mãe de Carlinhos, se sensibilizou com nossa situação de desolação esportiva e disse:
- Eu posso bordar o nome do time na camisa e ela vai ficar muito bonita. De que cor vocês querem?
Se fosse noite veríamos um clarão, partindo dos nossos olhos arregalados pelo nosso cérebro em ebulição, que iluminaria o terraço onde estávamos. Começamos a discutir a cor das letras e chegamos ao azul. Dona Irene com as mãos mágicas, levou pouco tempo para bordar as dez camisas dos titulares, em que eu me incluía. U.F.C. de União Futebol Clube. Diante de tal alegria, para que procurar outras drogas. Já estávamos drogados e com saúde.
O que lembro depois não é tão alegre: o jogo contra o Ateniense lá no campo de futebol, nosso estádio na época. Não tínhamos técnico, tínhamos alguns líderes no time. O problema é que era mais de um. Um dizia: marca o Everaldo, outro dizia: marca o Chico, outra ainda dizia: marca o Vilfredo, enquanto isto Saulo marcava os gols. Perdemos feio, porém não me lembro o placar. Sei apenas que não foi maior, a diferença de gols, porque eu sofri dois pênaltis e um jogador recém chegado bateu e converteu, era o Galego de Cabeça Branca, o Cicinho. Ele se tornou o batedor oficial do time. Não tinha paradinha mas chutava com o bico do pé, descalço, como estávamos todos nós. Isto mesmo, jogávamos descalços e por isso ainda não éramos a Pátria de Chuteiras, e sim: O União Futebol Clube.

Jameson Pinheiro

Nenhum comentário: