terça-feira, 12 de maio de 2009

Violência Urbana



São muitas as estórias da nossa infância. E muito variadas também, quando se tem a minha idade, dobrando o cabo da Boa Esperança a 60 milhas por hora. Aqueles que hoje são crianças, certamente, terão menos variedades, pelo menos no seu aspecto social, quando estiverem passando pelo cabo, com a mesma velocidade. No entanto, terão suas
estórias: um dia comprei um celular em que tinha um jogo em que havia uma briga e assumíamos o papel de um dos contendores e ganhávamos se déssemos mais socos no nosso adversário. Quanta violência. E no nosso tempo? A violência era menor? Em termos. Julguem por este “causo”.
Na rua da Cadeia, na ponta da rua, onde nasci, havia uma área grande, em frente à casa de minha avó, onde as crianças, e eu no meio, se reuniam à noite para todo tipo de brincadeiras. Não havia televisão, computador e seus jogos, celular e seus recursos, rádios (muito poucos), vídeo-games e associados, nem outras parafernálias da vida moderna. Nós crianças tínhamos de nos esforçar para brincar. Que estranho: brincar exigia esforço, imaginação, criatividade, conhecimento, sociabilidade e mesmo engenhosidade.
Certo dia, “cumpade” Geraldo (era compadre de São João, compadrio feito ali na fogueira, pulando e dizendo as palavras, das quais só me lembro assim: Santo Antônio dormiu, São Pedro acordou, vamos ser compadres que São João mandou. Mas isto já seria outro causo e outra brincadeira) chegou por lá. Entre a meninada estava Olívio que era pobre e orgulhoso. Penso que esta combinação se aplicava também a mim e a quase todas aquelas crianças mas, fiquemos no Olívio. Era brigão e quando falava os outros burrinhos murchavam as orelhinhas. Um pouco mais velho e forte. Não levava desaforo prá casa. “Cumpade” Geraldo me chamou num canto e disse:
- “Cumpade” Jameson (eu tinha um apelido que não gostava e até hoje não gosto e não digo se não vai pegar de novo, Jameson ele não saberia nem pronunciar) tu topas fazer uma brincadeira com o Rui (era filho e seu Miguel Gordo e irmão de Rubens)? O Olívio topa. O Rui tá muito chato hoje.
- Qual vai ser?
- A do pau de bosta.
- Não, “cumpade”, esta não. Vocês se divertem e eu que corro o risco de apanhar. Chama o Badida.
- Badida é que vai fazer o cocô, ele me disse que tá com vontade, foi aí que pensei na brincadeira.
- E o Tonho?
- Ele é forte e talvez Olívio não topasse a briga com ele, daria prá desconfiar.
- O que é que eu teria de fazer?
- Provocar a briga! Tu não conheces a brincadeira não?
- Tá bom, mas se ele se arretar depois, você me defende.
- Deixe comigo!
E, chamando Badida, entraram pelo beco da casa de seu Agripino em direção ao curral. Eu fiquei com as outras crianças brincando de garrafão. Será que hoje alguém lembra de como era a brincadeira de garrafão? Não resisto vou contar. Atenção crianças de hoje, de todas as idades: Desenhávamos um garrafão no chão, que era, na realidade, um retângulo com uma pequena passagem onde ficava a boca do garrafão. O objetivo era atravessar a linha e ficar dentro dele, porque se ficássemos fora teríamos que ficar pulando com um pé só. Um outro menino, que não me lembro inicialmente como era escolhido, não podia pular a linha, só podia entrar no garrafão pela boca e seu objetivo era tocar em alguma das outras crianças. Se isto acontecesse, esta criança assumiria seu lugar. Era uma correria danada. Hoje, talvez, pareça banal diante do avanço das escolinhas dirigidas para atividades físicas infantis mas, esta, além de servir para isto, era muito divertida.
Saiamos do garrafão e voltemos à outra brincadeira, já vendo o “cumpade” Geraldo chegar com Badida e um pau, em forma de vara/tabica, na mão.
- Olha o pau aí, agora é tua vez.
Fiz meu papel, provocando o Olívio, que também conhecia a brincadeira. Formou-se a roda. Briga era na roda e era diversão para todos. Quanta violência. Será? Um olhava para o outro com a cara de brabo e de mau. Quando a luta era à vera havia sempre um gaiato que fazia uma linha no chão e dizia: aqui é a mãe! Quando um dos contendores pisava na mãe, ou cuspia nela, a briga começava. Xingar mãe ainda era uma das grandes ofensas da humanidade e pisar ou cuspir nela era indesculpável. Neste caso não teve mãe, a briga era à brinca. Diz Olívio:
- Tu só tás com essa coragem toda porque tás com este pau na mão. Sem ele tu não és de nada.
Eu, fazendo cara de valente e brigão, o que não era:
- Se tu pensas assim então: Toma, segura aqui esta pau...Disse eu entregando o pau a Rui de Miguel Gordo. Quando ele pegou no pau eu o puxei em minha direção, fazendo-o deslizar por sua mão. Coitado do Rui. Vi a bosta sair entre seus dedos, sua cara de espanto e raiva, um mau cheiro insuportável da bosta de Badida na ponta do pau e o grito da meninada cruel, pela maldade perpetrada. O Rui não chorou como faziam algumas crianças. Partiu prá me pegar. Veio a turma do deixa disso, e não sei como hoje estou aqui contando esta estória. Será que hoje ainda brincam do pau de bosta?

Jameson Pinheiro - (jamesonpinheiro@citltda.com)

Nenhum comentário: