sábado, 6 de junho de 2009

Acordo ortográfico (2)

"Ser cronista é viver em voz alta."
Manoel Bandeira, poeta.




O eminente jornalista Juracy Andrade chamou essa reforminha de reforma cacográfica. Eu prefiro chamá-la de reforma comercial, por envolver questões econômico-financeiras. Por ser mais acordão do que reforma. Acordinho ou acordão, ele é cheio de exceções e pendências. Tem de tudo pra desunir. E nada para unir. Pode-se dizer: vai do nada a lugar nenhum.

Dizem os sábios brasileiros que o produziram, que o novo Volp (Vocabulário ortográfico da língua portuguesa) vai tirar todas as dúvidas. O novo Volp saiu, mas as dúvidas vão continuar do mesmo jeitinho. Porque poucos têm acesso ao Volp. E os que a ele têm acesso, vão continuar com as mesmas dúvidas, que são muitas. Tantas quantas eram antes da minirreforma. E um desses sábios, o professor Evanildo Bechara, já disse que é provável haver necessidade de nova edição do Volp no fim de 2012. Assim sendo, nesses quatro anos, haverá a reforma da reforma.

Se saiu uma edição agora para tentar esclarecer o que está muito turvo nesse acordo comercial, e tem de fazer outra tiragem ao término do tempo em que o infeliz acordo está sendo testado, então será a reforma do acordo político e financeiro. Pergunta-se: ao fim dos quatro anos o acordinho já não deveria passar a valer de vera? Se vai fazer-se revisão nisso tudo, implica reeditar todo o acervo das bibliotecas escolares: dicionários, manuais, gramáticas etc. Também nós, consumidores outros, seremos chamados a comprar. Porque temos de estar atualizados. E haja ganho para os editores e demais comerciantes livreiros.

No dia 25.2.2009, assisti a uma entrevista da profª Rosa Maria da Silva Pinto, na Rádio CBN, em defesa dessa reforma. Segundo o radialista Aldo Vilela, Rosa Maria é professora de Lingüística, na Fafire. Mas ela foi muito simplista na sua análise e pecou pelo otimismo intempestivo, afora alguns tropeços.

Rosa demonstrou pouco conhecimento da matéria, o que é estranho. E se é professora de Lingüística, em cursos de graduação, motiva mais estranheza. Porque são os lingüistas quem mais condenam os gramáticos. E esse acordinho foi feito pelos gramáticos.

Eis algumas das contradições da professora Rosa: disse que minissaia não precisa mais de hífen e terá o S dobrado. Ora, minissaia, minissérie, minifralda, miniinstituição, miniespaço etc., nunca precisaram de hífen. Agora, pelo acordo que aí está, esses comparativos mini- e maxi- vão ter hífen, nas palavras iniciadas pela vogal i: mini-instituição, maxi-inflação por exemplo. Antes era miniinstituição e maxiinflação, assim como antiibérico, antiinflacionário, antiinflamatório, que a partir de agora vão ganhar direito ao hífen: anti-ibérico, anti-inflacionário, anti-inflamatório. Aí a prova de que esse acordo veio só pra confundir o que já era confuso (pra falar só do emprego do hífen!)

Se Rosa houvesse usado os antepositivos ANTE- ou ANTI-, como exemplo, poderia ter sido menos incoerente.

E mais disse Rosa Maria: que o trema quase já não era usado! Esse bordão vem sendo repetido pelos defensores da minirreforma. Mas eu desconheço essa prática alegada, quer na imprensa, quer na literatura em geral. Em livros, jornais, relatórios, teses, revistas, dissertações e em outros documentos da espécie, nunca vi o trema ser omitido quando necessário. Se alguém não o usasse, seria por ignorância e desconhecimento. Notem, por outro lado (aqui peço licença ao finado Carlos Lacerda!), que outra professora, referida abaixo, disse que não havia regras para o emprego do hífen.

Aos fatos: há cerca de três semanas, ouvi parte de uma entrevista com uma professora do Departamento de Letras da UFPE. Não houve tempo pra saber o nome dela. Mas ela falou bobagem também. Disse que antes não havia regras para o uso do hífen. E que agora há. Que história é essa de que não havia regras para o emprego do hífen? As pessoas é que não sabiam usar o hífen. E vão continuar sem saber. Porque, com esse acordo, a hifenização tornou-se infernização. Embaralhou tudo. O que era deixou de ser. O que não era passou a ser. Trocaram seis por meia dúzia e mais alguns complicadores.

Ante tamanha complicação, está explicado por que Rosa Maria saiu-se mal com o exemplo da minissaia. Aqui, lembro-me da canção popular, cantada por Elba Ramalho. A minissaia de Rosa é como a minissaia de Bastiana: "Tua saia Bastiana, termina muito cedo / tua blusa Bastiana, começa muito tarde." O que não deixa de ser alvissareiro. Pois "facilita, pra correr na capoeira / e facilita, pra dançar na gafieira / e facilita, pra mandar pra lavadeira / pra passar no ribeirão / e pra subir no caminhão. - Assim é a minissaia de Rosa Maria.

E é o Volp quem vai resolver tudo? Como? Já falei da grande maioria do povo que nunca ouviu falar no Volp. Muitos e muitos dos que escrevem, também não conhecem o Volp, ou mesmo, dele nunca ouviram falar. Pra começo de conversa, ele custa em torno de R$120,00. E quantos professores, com esses abundantes salários vão querer desembolsar essa quantia para adquiri-lo? E os outros livros mais necessários?

Sugiro que Rosa Maria, juntamente com a professora da UFPE, façam uma enquete no meio acadêmico. Incluam professores e alunos de graduação em Letras, Pedagogia e outros cursos afins. E constatem quantos dos pesquisados conhecem o Volp e quem o tem em casa! E quantos se dispõem a comprá-lo.

Esse bla-bla-blá de unificação é história fiada. Sabemos que o castellano, que é o idioma oficial da Espanha, passou por uma única reforma durante toda a sua existência. Não obstante, dentro da Espanha haver mais três idiomas co-oficiais: o gallego, falado na Região da Galicia. O catalán, empregado em toda a Cataluña, cuja capital é Barcelona, segunda mais importante cidade da Espanha. O catalán também é falado nas Ilhas Baleares. E por fim, o bascuense ou euskera, falado na Região basca, incluindo Navarra.

Nem por isso um livro editado em Barcelona, na Galícia ou em Valladolid deixa de ser lido em Madrid, Lisboa ou São Paulo. Além da Espanha, fala-se espanhol em toda a América do Sul, com exceção do Brasil. Ainda, na América Central, Caribe e no México (América do Norte.)

Mas nós somos campeões em reformas gramaticais. Lembram-se de quando escrevíamos amàvelmente, com esse acento grave, só porque o adjetivo amável tem acento? O acento grave era só pra lembrar que amável tem acento agudo. Não é engraçada essa brincadeira dos gramáticos. Depois fizeram uma reforma para tirar o acento de amàvelmente, amigàvelmente e outras quinquilharias.

Livros de autores de língua espanhola, traduzidos ou não, são lidos no Brasil, em Portugal e em outros países de diferentes idiomas. Sejam de autores latino-americanos, como Gabriel García Márquez, sejam de espanhóis, como Federico García Lorca, Miguel de Cervantes, ou do argentino Jorge Luís Borges e muitos outros.

Na minúscula Bélgica, o idioma oficial é o francês. Mas, no Norte da Bélgica o idioma é neerlandês, com as variações do flamengo. E, na Universidade de Louvain, quase todos, se não todos os cursos de mestrado e doutorado são ministrados em inglês. Conquanto exista na Bélgica, correntes separatistas, para preservar suas culturas.

No Canadá, o inglês e o francês são línguas oficiais admitidas em todas as esferas de governo, a partir de 1969. Ambas são usadas no parlamento livremente. Esse processo tornou o Canadá, nação bilíngüe e multicultural. As províncias canadenses são livres para escolher seu idioma.

Se tantos países mundo afora, convivem com mais de um idioma em seus pequenos territórios, por que essa ilusão de que se vai unificar a escrita em oito países de língua portuguesa? Só o Brasil tem 8.500.000Km2, com diferentes falas e sotaques! E os demais países? Ainda mais quando se trata de briga de esconde-esconde: Portugal quer uma coisa, Brasil quer outra. E os países africanos que falam o português, ficam no meio do tiroteio. É muita pretensão!

Vale ressaltar que na América latina e Caribe, existem algumas variações no falar, com relação ao castellano da Espanha. Mas são mínimas. Em Madrid se diz: Me voy a coger un táxi. Em Buenos Ayres, coger un táxi é chulo. Vira galhofa para o estrangeiro que o disser. Em Buenos Aires, se toma un táxi, un autobus, un microbus etc. Coger, na Argentina, equivale ao nosso chulo comer. Para os argentinos, é difícil comer um ônibus. Pra nós, também.

Rosa Maria disse, também, que só algumas palavras vão manter o hífen. Então, segue esta amostra, para que se julgue se são algumas: má-fé, boa-fé, bom-dia, boa-tarde, boa-noite, xeque-mate, tira-teima, bate-boca, amor-perfeito, beija-flor, decreto-lei, médico-cirurgião, guarda-noturno, alto-falante, segunda-feira, sexta-feira, finca-pé, conta-gotas, sul-coreano, norte-riograndense, pão-duro, marrom-glacê, econômico-financeiro, verde-oliva, azul-marinho, ex-reitor; vice-diretor, ibero-americano, ex-detento, médico-hospitalar, anglo-americano, austro-húngaro, pró-juventude, luso-brasileiro, euro-asiático, sino-japonês, bla-bla-blá, diretor-presidente, toque-toque, tique-taque, lenga-lenga, bem-vindo, pré-nupcial, pré-menstrual, pró-reitor, pós-operatório, tenente-coronel, recém-chegado, recém-nascido, sem-vergonha, sem-terra, latino-americano, milho-verde, batata-doce etc. etc. É uma amostra bem pequenina. E vêm alguns outros, logo adiante.

Aqui, uma perguntinha para os meus quatro ou cinco leitores: por que paraquedas perdeu o hífen, e para-choque, para-raios, para-lamas o mantiveram? Estes, só perderam o direito ao acento diferencial. Nesse tópico, o texto do acordo é por demais confuso e fala em perder a noção de composição. - Quem foi que perdeu a noção de composição? Fui eu, foi o pára-quedas ou foram os velhinhos da ABL. Pois esses sábios da ABL também enrolaram e nada responderam. Falaram em subjetividade e outras loas. E nisso ficou. E o que é que é subjetivo nessa história? Porque, se pára-quedas é subjetivo, pára-lama também o é. (Ainda tenho quase quatro anos para acentuar pára-quedas.)

Esse acordo é cria dos acadêmicos da ABL e dos seus assemelhados de Portugal. No texto do acordo, afirma-se que o prefixo co não se liga por hífen a palavra nenhuma. Nem mesmo às palavras iniciadas pela vogal o e h (uma das regras do acordo). Exemplo: cooficial, coerdeiro. Mas a página da ABL na internet, passados cinco meses do início da vigência dessa reforma atrapalhada, ainda está desatualizada. Lá está escrito: Co-edições ABL. E há este outro emprego esdrúxulo: 17h30min (!) Para que esse min? Daqui a pouco estão escrevendo horas com os intragáveis dois pontinhos: hora de videocassete, dos gringos. - O bom exemplo deve partir de casa. Mas, casa de ferreiro, espeto de pau.

Outro acadêmico da ABL, o senhor Arnaldo Niskier, diz, em artigo, que "o acordo simplifica". Simplifica o quê? Não disse. E critica o escritor português, Vasco Graça Moura, que é inteiramente contra o acordo. Niskier fala com desdém, quando se refere ao pensamento de Graça Moura, por este se mostrar preocupado com o destino dos professores. E por dizer, entre outras coisas, "que o gasto com livros e manuais escolares, pode provocar uma crise negra, que deitaria ao lixo muitos milhões de euros."

Por que desdenhar, se isso é pura verdade? O fato é que o mestre Niskier, em seu artigo, prefere falar nos sucessos do mercado editorial e nos lucros de empresas livreiras. Assim, Niskier está confirmando a minha tese de que o acordo é tipicamente comercial. Se fosse para simplificar, teria abolido o hífen, como fez com o trema. Ao contrário, fez o samba do hífen doido, para endoidar os pobres mortais.

A ilustríssima professora de língua portuguesa, Dad Squarisi, costuma dizer que o hífen é castigo de Deus. E que se perguntarmos ao Criador, sobre as manhas do hífen, talvez nem ele saiba responder. E o professor Napoleão Mendes de Almeida sustenta que há abuso no excessivo emprego desse minúsculo traço: o hífen.

Outra: pé de moleque, expressão ligada por preposição, não tem hífen. Mas cana-de-açúcar, porco-da-índia, canário-da-terra, ipê-do-cerrado, João-de-barro, e tantos outros termos ligados por preposições e conjunções mantêm o hífen. Isso está nas exceções. O Volp é só vocabulário ortográfico. E não vai explicar toda essa salada à base de óleo de rícino, que descambou nesse acordo. Portanto, não é o Volp que vai resolver. Temos de queimar as pestanas nos novos manuais e nas novas gramáticas.

E como saber quem é e quem não é? Aí é que a vaca tosse e a porca torce o rabo. Vai ao Volp, você também. Toda vez que for escrever uma palavra que crie dúvida, procure o Volp. Vai fazer um concurso, seja lá qual for, leve o Volp debaixo do braço. Porque, para todos os casos, há uma regra. Não é só encher uma bisaca de hífen, e sair distribuindo adoidadamente, não. É regra demais e TPM demais pra esse povão todo.//.

José Fernandes Costa - Recife - jfc1937@yahoo.com.br

Nenhum comentário: