domingo, 21 de junho de 2009

CARTAS DE AMOR



A arte de viver hoje consiste em conseguir espremer nas horas do dia o maior número possível de coisas muito excitantes e oportunidades que não podemos perder de jeito nenhum. Um fenômeno ocasionado pela tecnologia de comunicação. No mundo de hoje há 1,57 bilhão de pessoas que usam a Internet e 3,3 bilhão de pessoas com celulares. São disparados todos os meses uma média de 2,4 trilhões de mensagens de texto. A informação circula de forma rápida, curta e precisa, desprovida de questionamentos. Num planeta assim, tão rapidinho, como se faz para parar e ficar pensando na vida?
A vida passa mais depressa em uma cidade como São Paulo e Rio ou em um mosteiro no Tibet?
O tempo jorra em todos os lugares e nós envelhecemos seja no Tibet ou em São Paulo e Rio. O que muda é a experiência da passagem deste tempo, é a organização, pois um vive o tempo cíclico que se repete dia após dia, ano após ano, e o outro vive o tempo linear, que marcha, move em direção ao que chamamos de futuro, dominante nas grandes cidades, e que expressa essa idéia de modernidade, progresso. Às vezes dá aflição viver esta modernidade e por vezes busca-se um refúgio naquele tempo já vivido - o passado. Daí a vantagem de já ter vivido um determinado tempo (sem se rotular de velho). Podemos comparar o que já foi vivido e vivenciado com o que estamos vivendo, ou a viver.
Ser jovem, hoje, tem as suas vantagens, mas ter sido jovem nas décadas de sessenta ou setenta, me desculpe os jovens de hoje, era bem melhor. As pessoas que vivenciaram estas décadas são mais cheias (não fisicamente)!, Mais pessoais, se relacionam melhor sem a impessoalidade que se vê hoje. Escreviam mais, tinham uma linguagem mais elaborada. Mas os tempos avançaram e com ele muita coisa foi abolida. Criou-se o advento da Internet, nada contra, mas muita coisa boa se perdeu. Entre a leva de coisas que ficou obsoleta, estão as cartas. Estão virando uma raridade. Não se encontra mais nas papelarias da vida, aquele envelope branco com as bordas de listinhas amarelas e verdes que caracterizavam as cartas. Quem ainda os tiver guarde, pois é raridade. Até os correios tiveram que acompanhar a modernidade. Antes, ir aos correios postar uma carta, um telegrama, era como um ritual: começava pelos selos que eram comprados, pela cola que ficava em um balcão para que o cliente colasse seus próprios selos. Hoje, os correios fazem quase tudo: uma hora é banco, outra hora é agente da Fazenda emitindo CPF, enfim, modernizou e vai perdendo a característica para o qual foi criado. Nem lembro do tempo que fui a uma agência dos correios, e você?.
Como era bom receber uma carta!
Dia desses me dei conta que ultimamente só venho recebendo dos correios:propagandas,contas de telefone, da Light, A Gazeta, esporadicamente, mas cartas, não mais.
Agora tudo é via e-mail. É rápido, prático, mas que dá saudade da velha carta, ah,isso dá!
E as cartas de amor?!
Ah, essas eram o máximo!
Melosas, lugar comum, frases batidas, mas escritas pela pessoa amada era melhor que um “best-sellers”. Quem nunca se deliciou com frases como: “ Você é o Sol da minha vida,ou você é a estrela do meu céu solitário...” Eram trocas apaixonadas, e a ansiedade preenchia os dias de espera pela resposta da amada. Tinham algumas cartas que eram perfumadas, quando abríamos, aquele perfume acionava o nosso sistema límbico e trazia a nossa mente a imagem da pessoa amada. Quantas saudades das cartas de amor!!!
Todas estas cartas eram escritas com canetas-tinteiro, pena fina, não existia caneta esferográfica. Tudo era refinado e de uma sutileza sem par. Hoje, na era do e-mail, achamos carta de amor ridícula, mas quem nunca escreveu uma carta de amor???
E como diz o poeta: “Só as pessoas ridículas é quem nunca escreveram cartas de amor.
Aproveito o espaço para transcrever um poema de Fernando Pessoa com o Heterônimo de Álvaro de Campos:

TODAS AS CARTAS DE AMOR

Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor se há amor,
Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são ridículas.

Mas que saudades, das cartas, das de amor então.....

Gildo Póvoasgildopovoas@hotmail.com

Nenhum comentário: