segunda-feira, 29 de junho de 2009

Divagando pelo FORRÓBOM



Eu estive no FORRÓBOM. Aguentei metade dele, no bom sentido. Dez dias de festas, pelo que me lembro, eu só suportava entre Natal e Ano Novo, assim mesmo quando era jovem e ficava vagando entre a barraca de Neco e de Seu Belon, passando, às vezes, pela sorveteria de Juarez para chupar um picolé de côco quadrado, além de rodar pela Praça Pedro II.
Hoje a festa é longe, fui de carro e valeu a pena. Até dia 24 tive o prazer de ver e ouvir muitos forrós e forrozeiros. Hoje o forró tem que ser ouvido e também visto, como quase todos os rítmos, e devemos isto ao Michael Jackson, que Deus o tenha. Depois dele o corpo realmente faz parte das músicas. Não sei se ele teve alguma influência nos jovens de Bom Conselho mas, tenho certeza, deve ter algum “Maicon Jequison” nascido por lá.
Revi alguns amigos, entre outros, Luiz Clério, Álvaro Gomes, Dra. Tarcísia, Valfrido e fiz alguns de apresentação. No entanto, para dançar mesmo e rebolar como hoje se faz no forró, não posso dizer com quem, este é o lado negativo de ser Diretor Presidente, o homem sem nome. O tempo vai passando e custa conhecer as pessoas, mesmo as que beiram nossa idade. Os mais jovens nem sei de quem são filhos, com raríssimas exceções como o Felipe Alapenha que só reconheci porque havia fuçado antes no seu Orkut. Pena que ele torça pelo Náutico.
O que fiz mesmo de verdade e com prazer e as vezes com tristeza foi conversar com pessoas anônimas, do povo, simples e alegres. Em sua maioria, eles estavam alí usufruindo sua Bolsa Forró e gastando uma parte de seu Bolsa Família numa “misturada”, para esquecerem o dia que passou e não lembrarem que chegará o próximo. Sua alegria é contagiante e passageira para justificar o ditado popular de que “alegria de pobre dura pouco”.
Lembrei então do “pão e circo” romano, história muito conhecida por todos que tiveram o privilégio de fazer, pelo menos o ensino médio, que remete ao passado da Roma Imperial na qual os governantes ofereciam às massas excluídas diversões e alimentos para conter qualquer tentativa de revolta delas contra às elites. Da mesma forma que não é simples a análise e conclusão sobre se eles conseguiram o seu intento, também não é claro se podemos chamar a Bolsa Forró e o Bolsa Família, do “pão e circo” do FORRÓBOM.
Por muitos anos não tivemos em Bom Conselho um governo municipal que falasse em povo, mais do que fala o atual. Como também nunca na história deste país tivemos um governo que falasse nos excluídos e menos favorecidos do que o governo Federal atual. A observação ambém se aplica ao governo do Estado. Será que isto não passa de um “pão e circo” generalizado? Só a História dirá. Mas, que tal metermos o bedelho para influenciar a História? Vejamos um dos diálogos que tive durante a festa e que guardei de memória e, devo salientar, não convém confiar na memória de alguém cujas pernas não aguentaram o FORRÓBOM até o fim.

- Está se divertindo muito, amigo?
- Tá boa a festa. Esse Basto Peroba é dos bons.
- Veio sozinho?
- Não, vim com a mulher, ela tá dançando com meu filho.
- Quantos filhos o senhor tem?
- Tenho cinco. Duas mulheres e três homens. Já tenho dois netos que também moram comigo. Um marido de minha filha está em Caruaru, tentando a vida por lá e deixa os netos aqui. Vem assim, nas festas, desta vez não poude, está desempregado e não arranjou o dinheiro da passagem. Eu sou pedreiro, mas também tou parado, uma dor na mão e também parece que estou com hemodiálise ou com pedra nos rins, o doutor não tem certeza. Tou tentando o benefício.
- E seus filhos fazem o que?
- Um é ajudante de pedreiro, trabalhava comigo mas... o outro faz entrega no comércio, quando tem. Tava tentando um emprego nesta fábrica que vai abrir agora, mas parece que deu prá trás. As filhas, uma fica em casa cuidando dos filhos, e a outra solteira, trabalha na casa de Dona Socorro. Ganha quase nada, se não fosse esta ajuda que o governo tá dando, sei não... É pouca, mas como o senhor sabe “o pouco com Deus é muito” e a gente vai levando.
- Me desculpe, mas, quanto o senhor ganha?
- Lá em casa eu ganho o que o governo me dá, parece que é 170,00. Meus filhos ganham algum, mas não posso nem dizer, se não cortam da ajuda. Só dar prá passar porque eu não pago aluguel, consegui um terreninho aqui perto e fiz uma casinha. Quando melhorar um pouco vou ver se faço um puxadinho pra minha filha casada.
- O que o senhor recebe é do Bolsa Família?
- Eu já ouvi falar este nome lá na Prefeitura, parece que é isto mesmo. Eles disseram que é o Presidente Lula que dar pra gente. Oh homem bom! Votei nele junto com todos de minha família. Outros dizem que foi a Dona Judith e pode ter sido mesmo. Trabalhei pra o pai dela, é uma família de bem. Não tenho certeza se é ela que dar, só não voto em quem quer tirar nossa ajuda, esta tal de Bolsa “Famía”. Agora ela que pagou toda esta festa prá nós, só me lembro de coisa assim na época de “Seu Gerváz”.

Depois deste diálogo, ao invés de concordar com a aplicação da ideia de “pão e circo”, eu me lembrei de outra: a do “direito divino”. O “direito divino” dos reis foi uma doutrina política e religiosa surgida na Europa que pregava ser o rei escolhido pela vontade de Deus. Esta doutrina dizia que qualquer tentativa de depo-lo ou restringir seus poderes seria contrária à vontade de Deus. Para o rei, a sua autoridade régia era de "direito divino", pretendendo ter sido eleito pessoalmente por Deus para governar o seu povo. A sua realeza era absoluta, independente de qualquer poder ou autoridade da terra. O rei era assim uma espécie de capataz de Deus no seu reino, e só perante Deus teria que prestar contas do modo como exercera o seu poder. Esta doutrina teve muitos defensores e contrários, durante um bom período de tempo, e ainda hoje temos alguns monarcas escolhidos por Deus (Inglaterra e Espanha são os melhores exemplos).
O que deduzimos do diálogo acima é que o Bolsa Família poderá se tornar o substituto de Deus em nossa moderna democracia. Senão vejamos: Igual a Deus, o Bolsa Família, não tem opositores ou são muito poucos, como os recalcitrantes ateus. Igual a Deus, o Bolsa Família ajuda os pobres e excluídos. Igual a Deus, o Bolsa Família exerce uma influência enorme naqueles por ela beneficiados. Igual a Deus, o pouco com ela é muito. Igual a Deus, o Bolsa Família, muitas vezes tem seu nome usada em vão por alguns. E por ai vai...
Portanto, o Bolsa Família, com tantas semelhanças com Deus, aos olhos dos que a recebem, que pode ser vista como “direito divino” de permanecerem nos cargos, aqueles que eles acreditam que seja seu doador, que assim, através do seu uso como Bolsa Voto, pode alterar os resultados do sacrossanto direito e dever democrático, que o povo tem para eleger seus governantes. Chegamos a uma situação na qual esta ajuda às pessoas pobres não pode ser mais suspensa. Pensamos mesmo que não deve. Ninguém pode ser contrário a tirar as pessoas da miséria em que vivem. No entanto, ninguém pode ser a favor do uso desta ajuda para fins eleitorais ou eleitoreiros. Bolsa Família sim, Bolsa Voto não. Eu ainda prefiro o Bolsa Escola.
E o Forróbom!? Foi muito bom. Eu dancei e o povo dançou! Igual na época de “Seu Gerváz”. Viva Santo Antônio, São João e São Pedro!

Diretor Presidente – diretorpresidente@citltda.com
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(*) Fotos de Niedja Camboim no site de Bom Conselho e da Internet.

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