terça-feira, 2 de junho de 2009

"Feitas nas Coxas"



Estava eu posta em sossego no dia do apagão da Internet aqui na CIT. Diante daquele quadro de desolação, ouvi alguém “ruminar” alguma coisa sobre a carta do padre que Zetinho publicou em sua coluna no site de Bom Conselho e que foi desancada pelo José Fernandes. Ouvi isto sem reconhecer a voz, devido ao burburinho:

- Aquela carta foi “feita nas coxas”!

Agora estou pensando sobre o que aquela voz quis dizer com isto. O assunto bispo x médicos já foi virado e revirado aqui e alhures e não queremos voltar a ele agora, mas, chamou-me atenção a expressão: “feita nas coxas”. Claro que a ideia foi intuitivamente entendida como sendo algo não muito bem elaborado, mal feito, feito sem atenção, enfim, “feita nas coxas”. Mas de onde diabos vem esta expressão? Lembro que recebi um e-mail falando de uma lenda da época dos escravos que faziam telhas nas coxas. No mundo moderno, quando sua mente ou memória “nega fogo” é muito simples reacendê-la, basta ir ao Google, ou a outros mecanismo de busca na Internet. Naquele momento faltava a internet, este pão nosso de cada dia, eu estava no mato sem cachorro. A nossa conexão estava mais "caída" do que o prestígio do bispo, ou seja : "caidassa".
Fui na pesquisa eletrônica, como diz um de meus filhos: “googlei”. Pasmem, apareceram 125.000 entradas para “feito nas coxas”. Vocês não precisam fazer a loucura que eu fiz, ofereço-lhes abaixo um resumo do que encontrei.
A primeira versão é aquela que remete à época da escravidão no Brasil, onde os escravos, doentes ou impedidos de alguma forma de realizarem trabalhos pesados, eram destinados a realizar uma tarefa, teoricamente, mais fácil. Eram os responsáveis por moldar em suas coxas o barro que seria utilizado na produção de telhas. O problema é que cada escravo tinha as coxas de tamanhos e formatos diferentes e, por isso, as telhas eram desiguais. Quando o telhado era montado, ficava torto e com a aparência de que tinha sido malfeito. Daí o surgimento da expressão. Quando alguém faz algo sem muito zelo ou sem qualidade, costuma-se dizer logo que aquilo foi “feito nas coxas”.
Noutra versão, a origem é o relacionamento sexual incompleto. Nos namoros em frente dos portões ou ambientes vigiados pelos pais, antigamente, o casal, para preservar a honra da moça, por estar apressado, ou mesmo pelas posições incômodas, não consumava o ato sexual de forma completa. O uso das coxas femininas era um fator essencial nestas horas na condição de escudo protetor. Daí nasceu a expressão “feito nas coxas” significando às pressas, mal feito. Eu acrescento, tão mal feito que, meses após, uma gravidez indesejada era a consequência, na maioria da vezes.
Ainda outra, também plausível, é aquela que remete aos tempos antigos, quando, pela ausência de ambiente adequado para o trabalho, os desenhistas, engenheiros, arquitetos, colocavam os papéis sobre as pernas para projetar, sendo as coxas usadas como mesas e sem o necessário apoio, os projetos dali saídos não geravam boas obras, por serem “feitos nas coxas”. Dizem que a Transamazônica, o Titanic e o Fome Zero foram projetados assim.
Muitas versões existem, todas elas com seu grau de veracidade, para explicação de “feito nas coxas”. Ora, por que então não darmos a nossa versão, aquela que nos parece verdadeira? Afinal de contas ela nos remete aos primórdios da educação da mulher, ou mesmo ao tempo no qual ela começou a usar saia. Refreiem suas mentes diante do ímpeto de pensarem em estupros, atos sexuais furtivos ou quejandos. Vejam que falei em educação antes, e de educação feminina. Vamos aos fatos.
Alguns sabem, outros não, que estudei no Ginásio São Geraldo. Espero que a CIT encontre uma foto de uma farda feminina, da minha época, deste glorioso estabelecimento de ensino, para ilustrar esta matéria. Eu não tenho nenhuma foto, nem nunca encontrei com minhas colegas. Mas a descrevo aqui de forma simplificada. Camisa branca de manga comprida (curta para determinadas ocasiões), gravata e saia pregueada de cor cáqui, com suspensórios e frisos de fitilhos grenás na barra da saia e nos suspensórios indicando a série em que a aluna estava. O detalhe importante aqui, era a saia ser aberta de lado, e fechada com colchetes de pressão.
Algumas de minhas colegas não eram muito estudiosas. Eu era, mas, não me eximirei de culpa alguma no final deste texto. Afinal de contas nunca podemos atirar a primeira pedra, sempre existe um pecadilho a expiar. Quando chegava a época das provas era aquela correria medonha, e não era para estudar e sim para copiar nas pernas grande parte das matérias. Era a preparação para a “fila” ou “cola”. Com as saias curtas, o que era escrito nas pernas, para este fim, tinha que ser nas coxas e na hora das provas eram lidas através da abertura lateral. Literalmente as provas eram “feitas nas coxas”. Daí a origem desta expressão.
É óbvio, que a expressão não tem origem em Bom Conselho e muito menos no Ginásio São Geraldo, o fato particular foi exposto apenas como uma comprovação de nossa versão. Sua origem deve-se remeter aos primórdios da educação feminina e se disseminou depois do surgimento da caneta esferográfica. Nem todas as profissionais femininas são "feitas nas coxas", mas algumas são, e para ser justa, profissionais masculinos também, embora estes usassem as mãos para anotar as “filas”, ou seja, são “feitos nas mãos”. Acabei de criar outra expressão, para não me taxarem de machista.
A propósito, lembro de uma acidente de percurso na prática deste procedimento. Todas pensávamos ser muito melhor praticá-lo quando o professor era um homem. As colegas mais useiras e vezeiras da “fila” explicavam que, em sua maioria, os homem tiravam os olhos quando nos viam mexer nas saias, com medo de serem criticados por condutas voyeuristas, e alguns as tinham de fato. As professoras olhavam, encaravam e muitas vezes esqueciam seus tempos de estudante, tomavam a prova. Certo dia, numa prova de seu Waldemar, de história, uma das nossas colegas abusou na mexida no vestuário ao ponto do professor notar e descobrir a artimanha. Não é adequado aqui pensar no nome da minha colega envolvida no episódio, e também não vem ao caso. Mas, seu Waldemar, com a cara de poucos amigos falou:

- Fulana!!! Levante, vá até o banheiro, lave suas pernas e volte para fazer a prova. Você não tem vergonha não!?

Silêncio de cemitério à noite. Se houvesse uma brisa soprando só faltaria uma musiquinha de suspense para a cena ser digna de filme de terror. Minha colega, sabendo da culpa por debaixo da saia, saiu, demorou uns minutos e voltou, continuando a fazer a prova. Se lavou, ninguém sabe ninguém viu. Porém só eu sei que nós todas daríamos um milhão para saber se havia sabão suficiente, se outras fossem descobertas. Evitou-se neste dia, pelo menos uma prova a menos “feita nas coxas”.
Ao reler o que escrevi acima cheguei à conclusão que, como escritora, eu fui “feita nas coxas”, apesar das aulas de Dr. Cirilo, Prof. Arlindo, Prof. Benedito e outros a quem devo minhas homenagens pelo seus esforços. Se deixaram publicar e você leu até aqui, me desculpe, a avaliação também foi “feita nas coxas”.

Lucinha Peixoto

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