segunda-feira, 15 de junho de 2009

MEMÓRIAS DE UM CASAMENTO MATUTO


Morar em cidade grande tem as suas vantagens e desvantagens. Nesta época do ano, Junho, então, tem muita desvantagem, principalmente para quem viveu muita festa junina em uma terra chamada Bom Conselho.
Dá um “banzo” danado quando vejo reportagens sobre estas festas. Assim para driblar as emoções de saudades, andei procurando nos meus escritos algo alusivo a esta época, e encontrei este texto que agora divido com você que me lê.

As festas juninas na minha cidade sempre foram animadas e rodeadas de crendices e superstições. Era a moça solteira que queria saber se iria casar, era outro que queria saber se ainda estaria vivo no próximo ano. Enfim, eram inúmeras simpatias que se fazia neste período e tudo dentro de uma ingenuidade que não se tem mais hoje. Ainda lembro de uma das minhas irmãs, indo à casa da vizinha fincar uma faca na bananeira, que segundo a crendice, para que no dia seguinte quando retirasse a faca vinha escrito a inicial do nome da pessoa com quem possivelmente iria se casar. Interessante é que nunca perguntei se isso realmente aconteceu, pois todas casaram!
Os moradores da rua em que eu morava, a Barão do Rio Branco, eram muitos animados e tinha uma moradora, D. Tiliú, devota de Santo Antonio, que era quem dava início aos festejos. Logo no início do mês de Junho, começava, em sua casa a novena para o santo que tinha o seu ápice no dia 13 de Junho. Lembro que em uma ocasião desta festa armaram barracas de quitutes, bingo, e até uma banda de pífanos que era comandada por um senhor -não lembro o nome - que fazia limpeza de fossas sanitárias. Daí pra frente vinham os outros santos festeiros: São João e São Pedro que eram festejados com muito forró, fogueiras,, fogos e muita,mas muita comida,desde a canjica, passando pela pamonha, pé de moleque e quentão para os mais afoitos. Foi em um intervalo pré-festas que nós, crianças, da Barão do Rio Branco, resolvemos fazer um casamento matuto, e os personagens eram: eu, no papel do padre, Joza (filha do sr. Pingué), Gesseraldo no papel do noivo, e os outros: Fátima Ribeiro, Luci Rocha, Aparecida, Luizinho e mais outros que não recordo, faziam o cortejo.
A nossa primeira providência era achar um lugar para realizarmos a cerimônia e este lugar foi uma garagem que pertencia ao Sr. Francisco (Chico) Correntão, nesta garagem funcionava uma escola, cuja professora era sua neta, Selma. Pois bem, o “seu Chico” , como nós o chamávamos, deu a permissão e assim começamos a ornamentação com bandeirinhas e laços, e isso tudo improvisado, pois não tínhamos um centavo para nada, só à vontade de realizar. E mais uma etapa estava pronta. Aí, surgiu um impasse; e a música? Como fazer? Ninguém da turma tinha nenhuma espécie de som em casa (coisa rara, na época, já era ter um rádio, imagine um som)?!. Mas não desanimamos!. Foi quando eu soube que tinha uma família de sanfoneiros que moravam na Rua 6 de Abril, e aí fui eu a busca da música para a nossa festa. Mas, me deparei com um grande problema: o sanfoneiro cobrava. Só na cabeça de uma criança podia passar a idéia de que eles iriam de graça. Fiquei estarrecido diante do preço que pediram, não lembro quanto, mas devo ter ficado lívido, branco e ao mesmo tempo triste, pois a nossa festa não iria ter música. Mas, mesmo com a possibilidade de não poder contratá-los, pois já não era só o sanfoneiro, tinha o da “zabumba”, e o do pandeiro, eram três irmãos, eu fiquei olhando para o sanfoneiro com os olhos cheios de lágrimas e ele, com uma sensibilidade que só os músicos tem, perguntou- me o que estava acontecendo,e em poucas palavras, eu com a franqueza de uma criança de 12anos, expliquei o propósito da nossa brincadeira: Um casamento matuto!. O sanfoneiro me olhou, coçou o queixo, colocou a mão na cabeça, e não preciso dizer aqui da minha apreensão diante destes gestos. Mas, eis que o milagre aconteceu! O sanfoneiro colocou a mão no meu ombro e falou: Nós vamos tocar na sua festa, de graça, mas você tem que providenciar uma “pinga” (cachaça), pra nós. Prontamente dei o meu sim e combinamos o local e hora. Saí aos pulos para contar a novidade aos amigos, quando no meio do caminho a ficha da realidade caiu: Nós não temos dinheiro para a “pinga”!. Saí bolando um plano para conseguir o tal dinheiro. Fizemos uma “listinha” com os participantes e o que foi arrecadado dava para uma garrafa de “pinga”.
Chegou o grande dia. Como estávamos de férias escolares, o dia todo foi de preparativos. O quartel general era na casa da minha prima Dora, e prontamente no horário acordado, os músicos chegaram, e a estas alturas, já há muito estávamos prontos. O padre já incorporado, o noivo, a noiva e os convidados a postos. O cortejo formou-se: o padre à frente, depois os noivos, os acompanhantes e atrás os músicos. Saindo da casa da Dora, descemos a rua até a altura da casa do Senhor “Né dos cocos”, subimos pelo lado esquerdo da rua e a esta altura a comitiva atrás do cortejo tinha duplicado de curiosos, crianças, adultos e cachorros nos acompanhando para o local da festa (uma garagem na antiga Travessa dos Guararapes). No local foi oficializado o casamento, e eu lembro de uma figura ilustre que estava entre os adultos: o tenente Boanerges, que ria a valer com o discurso do padre. Depois do casamento foi o arrasta pés. Aí teve um problema: a garrafa de “pinga” só deu para a entrada da festa, pois o trio bebia bem. Quando fui chamado pelo sanfoneiro que disse: queremos mais “pinga”. Minhas orelhas arderam. Mais que rapidamente me veio à idéia de comprar “fiado” na bodega que funcionava vizinha a minha casa, e assim efetuei a compra. Por ser filho do sr .Pedro, o crédito foi fácil e assim realizamos a nossa festa junina para júbilo de todos nós.
As conseqüências vieram depois: Fiquei três semanas de castigo e sem o dinheiro que todo o sábado o meu pai me dava para comprar guloseimas na feira. Esta foi à punição encontrada por meu pai por ter feito a tal compra “fiado” e sem ter erário para o ônus. Essa punição ficou tão marcada em minha vida que até hoje não ouso comprar nada a crédito. Mas que a brincadeira valeu, ah, isso valeu!!!.

Gildo Póvoas – gildopovoas@hotmail.com

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