quinta-feira, 11 de junho de 2009

ZÉ BEBINHO - Um Complemento



Caro Alexandre, o seu artigo sobre Zé Bebinho me comoveu. Eu sou mais velho do que você. Talvez fosse melhor dizer, você é mais jovem do que eu. Antes de sair de Bom Conselho o Zé ainda estava na sua fase de alcoolismo. Num texto que escrevi muito antes eu já falei nele (http://www.citltda.com/2008/11/reminiscncias-em-torno-do-entregador-de.html ), mostrando ou tentando mostrar quanto as pessoas podem ser cruéis ao tirar proveito da desgraça alheia, para o bem ou para o mal. Lembro, de alguns, ao o verem numa mercearia, com as mãos trêmulas e o organismo pedindo álcool, dizerem: “só dou se for um copo cheio”. Sem alternativa naquela vida miserável eu o vi tomar um copo inteiro de cachaça. Ao invés de cair, passava o tremor de suas mãos e ele partia para apanhar mais uma maleta de alguém para levar no ônibus de 5 horas. Outros talvez menos cruéis não queriam lhe dar bebida nenhuma. Naquela situação ficava em dúvida sobre quem era e quem não era cruel.
Fui embora da nossa terrinha, aprendi a beber, não tanto quanto o Zé, mas o suficiente para aguentar a vida na cidade grande e fria. Aonde chegamos com uma esperança grande como o mundo e a realidade vai tornando-a pequena, pequena e pequenina do tamanho de um limão. No caminho inverso, a droga de nosso tempo, o álcool, vai substituindo a esperança, com seus efeitos ficando grande, grande e enorme, como se aquele limão de esperança que nos restou servisse apenas para as inúmeras caipirinhas que tomamos.
Após sair, não tive mais notícias dele. Por isso, o seu artigo me surpreendeu e a todos com quem falei aqui na CIT, que vivem há muito em outras plagas. Primeiro, o nome: José Feijó Sampaio. Quem diria, para quem ouviu na década de 50, por muitas e muitas vezes o nome de Cid Feijó Sampaio, a quem eu vi, num comício entre as barracas de Neco e a de seu Belon, e ouvi falar por mais de 1 hora na sua campanha para governador, que ele era, se não um amigo, mas um camarada das madrugadas frias quando eu ia para o trabalho, seu primo, o Zé Bebinho?
A história do caixão da casa da caridade eu conhecia para todos que de lá saíam para se enterrar, mas o caso do Zé, me foi sonegado pelos historiadores de Bom Conselho, ou por minha ignorância de fontes adequadas. Alexandre, você está construindo nossa história, a história da nossa cidade. Ela é feita de pessoas simples como o Zé, o Adel, o Basto de Eulália, o Zé Bias, o Tonho de Dinda, o Pedro de Lara e outros. Os políticos, doutores, professores também a fazem mas, não nos fazem rir nem chorar, grande partes das vezes nos fazem raiva.
Na fase de doença do Zé, graças a Deus, quem estava bebendo era eu. Não gostaria de vê-lo como você o viu. E aqui fico me perguntando, e penso não só eu, sobre o antes e o depois do Zé em Bom Conselho. Como seria ele antes de chegar a nossa cidade? Que motivos o levaram para lá? Está fora do meu alcance fazer lucubrações sobre isto. Posso fazê-lo sobre o depois. Eu nunca ouvi, durante minha época de contacto com ele alguma queixa a respeito de sua honestidade e capacidade de trabalho, mesmo quando bebia. Nunca ouvi ninguém reclamar de ter perdido a hora do ônibus por sua causa, pois ele muitas vezes funcionava também como despertador, aproveitando para levar as malas para o ônibus. Será que nossa cidade ficou melhor ou pior depois do Zé? Em minha modesta opinião, ficou melhor. Pois, nem eu nem você estaríamos tendo o prazer de escrever estas crônicas se ele não tivesse passado por lá, e penso que o Padre Carício deve ter aplicado muito bem a fortuna que ele deixou em prol dos mais carentes. Além disto, hoje estou mais alegre ao ter certeza de que esta grande aventura que é o Blog da CIT, também contribui para a história da nossa terra.

Jameson Pinheiro - jamesonpinheiro@citltda.com

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