sábado, 11 de julho de 2009

É necessário voltar - Complemento




Prezado Diretor Presidente: o seu comentário é neutro e é explicativo. Pra falar sobre ele, peço sua licença. Pegando um gancho na sua frase, Carlos Lacerda, que era macaco velho, entendia que até de Jesus Cristo se pode falar contra ou a favor. Mas eu não aprendi a falar contra Jesus Cristo. E era muito esperto o fundador da Tribuna da Imprensa. Teve seus encantos juvenis na militância comunista. Depois foi mudando. Em 1949, fundou a Tribuna da Imprensa. Daí, foi um curto passo para se filiar à UDN. Terminou de braços dados com os militares, que nos deram a redentora de 1º de abril. Foi aí, no meio dos milicos redentores, que ele perdeu o bonde da história.

Mas, deixando o finado Carlos Lacerda pra lá, vamos ao nosso tema. Você diz que não é político. Todos nós somos entes políticos, nos conceitos sociológicos. Não é necessário ser filiado a um partido político para sermos animais políticos. E é por isso que temos a obrigação de discutir política. O que eu não discuto é preferência por candidato. Quem enxerga um pouco, já escolhe seus candidatos, tão logo os nomes sejam lançados.

Por outro lado (aqui, volto ao finado Carlos Lacerda e peço sua licença). Porque ele não admitia que o foca usasse estas duas locuções: "por outro lado" e "por via de regra." Se isso ocorresse, ele virava bicho dentro da redação e dizia, alto e bom som, o que, para ele, significavam essas expressões. Então, por outro lado, mais sabido do que um empresário, só dois ou mais empresários juntos. E é natural que os empresários não falem sobre determinados planos das empresas. O segredo é a alma do negócio, já dizia o filósofo dom Dedé, ainda arcebispo de Olinda e Recife. Mesmo cansado e com os dias contados, ele ainda mantém um restinho de poder. Desculpem-me por tergiversar tanto, nessa hora tão solene, quando o sol esconde a sua claridade e a noite mostra as suas estrelas.

Mas, se nenhum dirigente da Perdigão disse o que iria ou não fazer, caberia aos observadores da cena, esperarem um pouco. Isto é, não serem apressadinhos, sejam eles eleitores ou não da prefeita Judith Valéria.

E você foi bastante sábio, ao dizer que não se deve acreditar de olhos fechados, em empresários. Igualmente é verdade que não se deve acreditar de olhos fechados em quem está no poder. Seja o poder público ou privado.

Aqui, permito-me transcrever esta sentença, atribuída a Montesquieu: “Um poder sem controle tende sempre a se tornar um poder sem medida. (...) É experiência eterna a de que todo homem que tem o poder, é levado a abusar dele. Caminha até que encontre limites. Para que não se possa abusar do poder é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder.”

Como o amigo pode sentir, eu não sou tão inocente a ponto de confiar tanto e tão facilmente nos que estão na posse de qualquer poder: Executivo, Judiciário, Legislativo, empresarial, imprensa etc. Notem que empresários e imprensa, que também é empresa, são os poderes mais poderosos do mundo capitalista.

De outra parte, eu não culpei a crise. Citei a crise. E disse que as empresas têm que avaliar as suas metas e os seus riscos. Isso em qualquer tempo. Muito mais ainda, em época de crise braba. E sempre que há fusão, cisão, transformação ou incorporação nas empresas, há grandes mudanças, que não são feitas pela Granero.

Também, o termo "em geral", que empreguei, só atinge um grupo de indivíduos. Esse em geral, não significa a totalidade. Se no Brasil, no México, na Suécia ou no Japão, os políticos em geral querem que os adversários fracassem, isso precisa de esclarecimento adicional.

Na Suécia, na Bélgica e no Japão, os políticos, em geral, têm vergonha. Quando o escândalo estoura, uns renunciam, outros desaparecem da cena política, e outros, ainda, se suicidam. Mas, em nuestra latinoamérica, quanto mais o escândalo cresce, mais o mandatário, no geral, fala grosso (sentido figurado.) Olha o "em geral" aqui de novo, gente.

E é natural que haja as disputas, quase sempre raivosas. Natural também que haja a alternância do poder. E que haja discordâncias. Assim como é de todo necessário que haja oposição. Não havendo oposição, ninguém fiscaliza ninguém. E é aí onde bem se encaixa a máxima de Charles de Montesquieu, acima citada.

Mas há sempre um detalhe no meio do caminho. E o detalhe que eu e muitos condenam é o jogo sujo. É aquela história de não continuar a obra que o adversário começou; e mesmo tentar destruir um bem que foi feito com o nosso dinheiro. Ou sair denegrindo a imagem do outro, gratuitamente. É aí onde mora o pecado, ou melhor, é aí onde estão a má fé, a maldade e o cinismo.

Quanto aos dois partidos mencionados pelo amigo do Felipe Alapenha, não se tratava de bipartidarismo. Poderia haver ali dez ou mais partidos. O exemplo do rapaz foi hipotético. Ele não estava querendo dizer que só havia dois partidos disputando eleições em Bom Conselho. Falava por suposição, como Jesus Cristo falava por parábolas.

Outra: não é só em Bom Conselho que se torna difícil saber o que é bem comum. Isso ocorre em Oropa, França e Bahia. E confundir o bem público com o privado é terrível mesmo. Com um agravante: muitos administradores misturam o dinheiro público com o deles, que é particular, e depois não sabem mais separar. Isso tem nome: furto, ladroagem. Mas esse tipo de desonestidade é chamado de improbidade administrativa, eufemistica e pomposamente. Quando muito, diz-se crime de responsabilidade. Contudo, pode-se chegar à tipificação mais adequada: crime de formação de quadrilha.

Sobre o fato de o povo decidir, com memória curta ou não, é uma verdade. E o que ele decide no voto, está decidido. Mas esse povo que não tem acesso à escola, à moradia, à assistência médica, enfim, aos direitos mínimos assegurados na Constituição, nem sempre decide bem. Porque, muitas vezes vota em troca de uma carroça de tijolos, de uma máquina de coser ou de um caixão de defunto. E aqui voltamos à nossa América Latina, de novo. Porque é isso que interessa aos políticos em geral, a que me referi da vez passada. A eles interessa que esse povo nunca tenha escola de qualidade, para poder ser iludido facilmente.

Mais outra: não vejo, nem de longe, por que a prefeita Judith Valéria teria de agradecer ao vereador Gilmar Aleixo - que também não o conheço. Não sou adivinho, mas a ninguém parece crível que os comentários de Aleixo tenham sido uma forma de humor. Como admitir que um vereador de oposição, vá a uma emissora de rádio fazer gracejos com a administração da prefeita, que, acredito, não lhe dá essa liberdade? Eu entendo oposição como coisa séria. Que tipo de humor é esse, respondendo a telefonemas de cobranças políticas, supostamente fictícios, falando do que teria feito ou não um adversário político e da possibilidade de votar o seu impedimento?

Se o vereador Aleixo leu alguma coisa sobre iniciativa popular, com 5% do eleitorado, em qualquer dos normativos por mim citados, ou em outra lei, ele nada entendeu do que leu. E isso é mau sinal pra quem foi eleito para representar o povo. Para a perda do mandato de um prefeito, o caminho não é por aí, vereador.

Por fim, louvo a inspiração poética do nobre Diretor Presidente. Demonstrando fino humor, ele saiu-se com este verso, cantado pelo velhote Roberto Carlos: "Pelos erros do meu português ruim..." E ainda me pede desculpas por usar as minhas palavras, ao fazer suas linhas cruzadas (isso sim, é humor bem-feito e bem-aceito.)

Não obstante as minhas ressalvas nessas mal-traçadas linhas, extraídas das minhas convicções, você não me deve nenhum pedido de desculpas, meu caro. Eu é que lhe devo agradecimentos, por reavivar o debate. E por haver feito um bom comentário aos nossos comentários (meu e do Felipe Alapenha, a quem também agradeci e agradeço.) É isso!

José Fernandes Costa - jfc1937@oi.com.br

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