domingo, 19 de julho de 2009

A Eliúde e suas andanças

Li as duas crônicas da Eliúde. Li e gostei de ambas. Desde que ela escreveu uma nota no Mural da CIT, eu sugeri que continuasse escrevendo. Porque ela leva jeito. E disse também que lesse, sempre que possível. E ela mesma confirmou isso na segunda crônica. Prefiro chamar de crônicas, em vez de artigos, por se tratar de uma sucessão de fatos narrados. Artigo ou crônica, o certo é que a Eliúde agora é ponto com (.com), isto é, ganhou um "imeio". Por mim, ela teria ganho dois ou mais, em vez de um e meio.

Mas deixo aqui logo a ressalva sobre uma afirmação dela: eu não faço parte dessa "muita gente" que gostava do Pau Grande. Nem gosto de nenhum pau. Por falar nisso, notei que a Eliúde, em sua infância e juventude, esteve sempre envolvida com paus. Ora era o Pau Grande, ora o pau-de-arara. Em outras horas, eram os paus das árvores que a rodeavam. E ainda havia um banco de madeira, bem lisinho de tanto as pessoas esfregarem os traseiros nele. Devia ser um banco tosco, de pau duro mesmo. Não me custa crer que, nas brincadeiras de menina sapeca, a Eliúde tenha tentado subir num pau-de-sebo, bem lisinho, em dias de festas populares. Lembro à Eliúde que o rodo da casa de farinha também é atrelado a um pau grande que vai e vem.

De casa de farinha, eu entendo um pouco. Sempre que ia ver o meu avô paterno, João Fernandes da Costa, no Sítio São José - Palmeira dos Índios - visitava a casa de farinha que ficava ao lado da casa-sede. E o meio avô João, também plantava a mandioca sítio afora. À noite, na casa dele, juntava gente pra ver seu João ler poesias e contar histórias. As poesias eram, de fato, muitos livrinhos de cordel, coisa de que sempre gostei e ainda gosto. Esse meu avô era o maior festejador das noites do São João, naquelas redondezas. Era, ainda, caçador e pescador incorrigível. Donde se depreende que mentia pra caramba. Mas, se mentia, fazia com muita graça, porque o povo ria pra se lascar. Essa é uma das diferenças entre o meu avô e o pai da Eliúde.

A outra diferença é que ele fez treze meninos na primeira mulher. Nem sei se, no meio de tanta gente, havia mais mulheres do que homens. Era uma misturada da macaca, que eu nem podia decorar os nomes de tantos tios e tias. Em cada casa que eu chagava, tinha mais primos e primas do que formigas em formigueiros. Por conta desse exagero, na segunda mulher o velho não fez mais nenhum menino. Já casou com 73 anos de idade, o que faz supor que o passarinho já estava depauperado. Ou mesmo o velho João Fernandes já estava de pau pelado, como se diz nas rodas de safadezas.

Quando a Eliúde falou da "espinhela caída", lembrei-me da minha avó materna, Aurora Ferro. Aquela velhinha era a melhor avó do mundo. Também pariu adoidamente. He-he povo danado pra saber fazer menino. Não havia TV, CD, DVD, nem a Banda da Calcinha Preta. A única banda que aquela gente conhecia era banda de tijolo. Calcinha preta, então, nem pensar! Era calçolão, quase sempre branco, que ia da cintura à metade de cada coxa. E haja menino saindo por todos os buracos. Não havia calçolas que impedissem a brincadeira.

Mas, voltando à vaca fria: se a Eliúde viesse morar em Paulista, Região Metropolitana de Recife, possivelmente escolheria viver em Pau Amarelo, por ser praia. Pois essa menina é pau pra toda obra. Tanto que deu com os costados em Guarulhos e São Paulo. E hoje está na CIT, escrevendo para o mundo. Quem sabe, nas suas andanças pelo Sudeste, ela sentiu saudades do Pau Grande! E, por isso, voltou. Porque a Eliúde mesmo atesta que era feliz no Pau Grande, mas só veio sentir tamanha felicidade, agora, depois de alguns anos pelas costas.

Se vocês acham muito eu dizer que ela escreve para o mundo, a mim não parece. Pois o Luiz Clério já a intimou para mandar suas histórias do Pau Grande e outras, para serem publicadas n'A Gazeta. E, de salto em saldo, ela chega lá. Comovida com a repercussão do Pau Grande, ela aceitou o convite do Luiz Clério e lhe agradeceu. Proclamou-se uma ex-flagelada que ama o Pau Grande. E disse que conta com os incentivos dos seus leitores. E eu, tanto vou ler tudo que ela escrever, como sempre vou estimulá-la, no bom sentido, claro. Até porque não existe mau sentido nessa história. Com tanto entusiasmo que vemos e sentimos nela, nem sabemos se ela deixou o Pau Grande pra valer. Ou se, vez por outra, vai lá procurar o banquinho de madeira para nele dar uns cochilos vendo estrelas, aliás, vendo as abelhas. Notem que ela mesmo confessou que "está trepada naquele caminhão era melhor do que trepar no pé de manga no Paulo Grande"

E diz ela que "Cleómenes, o safado" (sic), deu um livro pra ela ler. Coisa de ateu, acrescenta. Creio que essa crença de que é coisa de ateu é porque o livro cuida do evolucionismo. Pela teoria do autor, os indivíduos são apenas depósitos para a sobrevivência dos genes. Essas coisas que os "religiosos" não querem admitir, nem que vejam um boi voando sobre as torres das igrejas. Mas entendemos por que os "religiosos não querem nem ouvir falar nessas teorias dos genes. Pois é por causa dos genes egoístas e sem-vergonha, que nós também somos egoístas e sem-vergonha.

Por outro lado (novamente com a licença do finado Carlos Lacerda), se o Cleómenes é safado, não sei. Mas já sabia que ele é ateu. E não vejo mal em ser ateu. Cada qual deve saber o que lhe convém. Como costuma dizer uma senhora que não pode ver um microfone parado, que ela vai lá e se atraca com ele: nessa vida cheia de "tubulações" (sic), a gente nem sabe mais se ser ateu é pecado cabeludo. Digo pecado cabeludo, porque existem também os pecados depilados. Aliás, ainda segundo o filósofo dom Dedé, o vingativo, há pecados para todos os gostos. E os pecados depilados estão mais sujeitos à excomunhão, porque são cheios de vaidades em cada cantinho. Confesso que comecei a tergiversar. Em tempo: essa história de pecados cabeludos e depilados nos cantinhos, eu não ouvi de dom Dedé, não. Foi coisa que me contaram. Portador não merece pancadas. Mesmo assim, não me confesso a dom Dedé.

Com tantas e tantas tergiversadas, peço desculpas à Eliúde, ao tempo em que a parabenizo. Parabéns que saem do coração. E recomendo que ela, com ou sem Pau Grande, vá em frente por essa trilha, porque, história pra contar, não vai faltar. E se faltar ela inventa. E se souber inventar boas histórias, cai no campo da ficção, dos romances etc. Aí o que vai haver de editoras atrás dela, não está no gibi. É isso./.

José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br - Recife

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