quinta-feira, 16 de julho de 2009

Minha saída do Pau Grande



Quando escrevi meu primeiro artigo fiquei com medo. Apesar de toda a força que os amigos me deram e mesmo a repercussão que falaram dele, pensava ter terminado minhas ideias. O Zetinho dizia vá em frente, o Zé Fernandes disse leia muito. Fiquei também surpresa que muita gente gostava do Pau Grande. Alfredo Camboim, Beto Guerra e outros se divertiram nele, e eu pensando, feito boba de que quem só sonhava com ele era eu. Agradeço a todos o incentivo. Inclusive do Diretor Presidente que me deu um e-mail. Estou ficando estilosa, como se diz.
O problema não era de incentivo, era meu mesmo, não tinha mais ideias além das abelhas uruçus. Contei a Lucinha, ela disse: preocupa não, isto acontece quando menos espera você tem uma ideia boa. Li um bocado de coisa. Cleómenes, o safado, me deu um livro chamado “O Gene Egoísta”, dizendo que ele explicava o que somos, comecei e logo no início o autor diz que a gente é feito de uma coisa que tem em todo lugar e que somos igual a um caramujo, um veado, um macaco, um elefante, ele diz que é por causa do gene egoísta que fica brigando dentro da gente, e que o vencedor leva, e tenta dizer que pensamos por causa disto. Coisa de ateu mesmo. Não cheguei nem no segundo capítulo.
Comecei a ler o que está se publicando no Blog agora, só dar política, Lucinha diz que gosta também, eu pensei que ela só gostasse de religião. Ela disse que eu tinha que começar a gostar para melhorar o “pedigree” da raça feminina, dizendo, o que eu já sabia que em Bom Conselho agora tem uma prefeita e que está passando a perna em muito marmanjo. Li algumas coisas, mas é igual a religião e aos genes do livro, brigam o tempo todo.
Perguntei então por que saí do Pau Grande? Resolvi então contar porque sai de lá, daquela vida tão boa que contei antes, cercada de abelhas e pés de café. Naquela ocasião não contei algumas coisas. Éramos pobres, meu pai falava. Isto para mim significava alguma coisa apenas quando, já na sexta-feira acabava o feijão, comprado na feira de Bom Conselho no sábado anterior. A carne acabava no domingo mesmo e a farinha sempre chegava, pois meu pai plantava mandioca e fazia, ele mesmo nossa farinha. No Pau Grande tinha uma Casa de Farinha, esqueci de dizer antes. Lembro bem, era uma casa perto da nossa, de taipa, eu penso que todo mundo sabe o que é. De um lado tinha uma roda grande na qual passava uma corda por suas beiradas e formando um círculo achatado ia diminuindo o diâmetro e se ligando a uma rodinha muito pequenininha ligada ao caititu, não explicarei o que é porque já tem no dicionário, fui olhar, resumindo ele servia para ralar a mandioca, já descascada por mim e por por meus irmãos e também por minha mãe quando terminava de aprontar o almoço. Fico pensando agora o que foi a vida de minha mãe naquele sítio, enquanto meu pai cuidava do Pau Grande, ela varria a casa, lavava roupa, fazia a comida e tinha meninos. Um bocado deles, inclusive eu. Quando podia ir para Casa de Farinha era uma alegria, descascava mandioca, botava lenha no forno e ainda usava o rodo para mexer a farinha quando tava torrando. Nos tempos de hoje penso sempre nela quando toda semana tenho que ir no supermercado, para mim é uma alegria.
Vocês já devem estar pensando que comi muita farinha seca na sexta-feira. Advinharam mesmo. Para meu pai isto era triste mas era melhor do que na cidade, que ao invés da farinha, tinha que fazer o fiado na venda pra gente comer, como ele contava. Mas, não foi por isso que saímos do Pau Grande. Um dia chegou lá um compadre de meu pai, vinha de São Paulo. Bem vestido, bem falante, era pedreiro como meu pai, agora, porque quando foi prá São Paulo era ajudante de meu pai. Ele era padrinho de um irmão meu, o Eraldo, que depois falarei dele. Como se diz hoje, o cara terminava de almoçar o feijão com ovo que minha mãe fazia e dava um arrôto de caviar, que até hoje também só conheço do samba do Zeca Pagodinho. Contava todas as vantagens do mundo. Só quem ouvia aquelas estórias dele, poderia concluir, porque tantos foram parar na terra da garoa. Meu pai ficava de boca aberta ouvindo e sonhando. Eu não entendia bem, a não ser quando ele dizia que a filha dele, um pouco mais nova do que eu, tinha uma escola quase na frente de casa. Não pensem que ficava toda excitada querendo ir para escola, com aquela ânsia de aprender, não, eu queria mesmo era saber o que era uma escola. Aqui eu tinha as mangueiras e o cafezal, pra que mais?
Chegou um belo ou um feio dia e ouvi meu pai dizer a minha mãe:
- Berenice, já resolvi, vamos pra São Paulo.
- O que?
- Vamos prá São Paulo, tu não visse o que o compadre Caetano falou? Lá podemos trabalhar e sair desta vida, dar melhor condições a nossos filhos. O compadre disse que lá eu não esquento canto, sendo pedreiro, é emprego certo e podemos ficar na casa dele até nos acertarmos.
- Tu tás é doido homem! E os meninos, será que eles vão querer ir? Eles já são grandinhos, e eu ainda por cima tou atrasada há dois meses.
- Deixe os meninos por minha conta, eu sou o pai ou não sou? É pro bem deles, eles vão entender quando eu explicar tudo.

Ouvi o diálogo e fui correndo contar a Eraldo, que era mais velho que eu, e estava trepado num pé de manga rosa, agarrado com uma manga que só não parecia com uma jaca pela cor, mas no tamanho... Ele ouvi minha história e acreditou, tanto acreditou que, logo depois meu pai chamava todos os filhos para a reunião oficial, e cadê Eraldo? Eraldo sumiu. Meu pai contou a todos os seus planos, éramos meninos, e todos pequenos ainda para concordar ou discordar daquilo. Eu mesma, nem pensei que depois de alguns anos pelas costas andaria a tentar escrever estórias sobre como era feliz no Pau Grande, isto só vi depois. Naquele momento eu era indiferente. Mas o Eraldo não, só foram encontrar ele outra vez, dois dias depois, escondido na casa de um vizinho. Só foi forçado, não o vi amarrado mas se ele resistisse mais meu pai botava ele no saco.
Pra levar todo mundo do sítio, mais algumas coisas que dar vontade de dizer que “a mala era um saco e um cadeado era um nó”, como na música de Luis Gonzaga, mas realmente tínhamos umas duas ou três malas pequenas bem simples, que foram levadas por um jeep que as vezes passava lá, vi meu pai pagando ao dono, lá em Bom Conselho.
Dormimos na casa de minha avó e no outro dia nos despedimos e o caminhão estava a nossa espera.
Era o que hoje chamamos Pau-de-Arara. Não preciso descrevê-lo porque era igual ao que Dona Lindu, mãe de Lula, foi. Agora todo mundo conhece. Se ela era como minha mãe Lula deve ter levado uns bons cascudos na viagem. Menino só quer brincar, não sente a bunda doer nem se importa com o tempo, para mim tendo o que comer e onde descomer, tudo tava bom. Os adultos é que complicam. Mas se hoje eu fosse presidente eu contaria uma estória da minha viagem que seria emocionante, pelos seus aspectos de miséria e sofrimento. Foi nada, me diverti a valer, está trepada naquele caminhão era melhor do que trepar no pé de manga no Pau Grande. Tudo era novidade, até a poeira era diferente daquelas que os cavalos faziam nas estradas do sítio. Meu irmão Eraldo ficou emburrado um tempo, até começar a conversar com uma menina que vinha também no Pau-de-Arara, eu não sabia porque, hoje sei, aquilo era um safado!
Depois de alguns dias e alguns perrengues, como o do pai da menina proibir dela ficar perto do Eraldo, e meu pai ir tirar satisfação com ele, e meu pai para supresa nossa, dar uns tabefes em Eraldo mas, com aquele ar de riso de macho conivente, chegamos a São Paulo. Nunca vi tanta casa junto, só em Bom Conselho, mas era muito, muito mais. Era de perder de vista. Depois eu soube que não era São Paulo, era Guarulhos. Minha vida mudou pelo avesso, mas isto eu conto depois, senão não terei assunto para outros artigos.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com
P.S. – Gostaram do meu e-mail? Agora sou ".com", contactem-me.

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