quarta-feira, 1 de julho de 2009

Minha Vida no Pau Grande



O Pau Grande é um sítio que fica perto de Bom Conselho. Uma vez eu disse que nasci lá, é mentira, nasci na cidade e fui bem pequena prá lá, é como se tivesse nascido. Não me lembro de infância na cidade a não ser de ouvir contar. Só sei que meu pai trabalhava em padaria e num belo dia resolveu ser morador de um sítio, que se chamava Pau Grande. Lembro que ficava perto de outro chamado Rosilho, que me lembro ter ido lá várias vezes, e quando ia passava pelo sítio de Dona Maria Enéias, onde tinha uma casa grande com alpendre. Naquela época, todas tinham, inclusive a minha, mesmo sendo menor.
Neste alpendre havia um banco de madeira que era bem lisinho de tanto passarem as nádegas (ia usar outra palavra mas fico receiosa de chocar as pessoas que vão aprovar ou não o artigo para publicação, como se eles não tivessem bunda também) nele. De vez em quando eu deitava lá e dormia, antes de dormir eu ficava olhando para o alto e ficava vendo as abelhas entrarem e saírem dos cortiços, não cansavam nunca. Agora sei que iam pegar o pólen das flores prá fazer o mel, meu pai dizia que era mel de uruçu, fui ver no dicionário se se escrevia assim e é assim mesmo, é uma abelha social - Melipona scutellaris, - da subfamília dos meliponídeos, característica do Nordeste brasileiro, com cabeça e tórax fulvo vivo em contraste com o abdome preto com finas faixas brancas marginais e é considerada uma das mais belas espécies brasileiras. Eu já sabia, eram bonitas mesmo, todos os nomes feios acima ficam por conta do dicionário. Além do mel elas produziam uma cera que eu adorava, quando meu pai abria os cortiços, tirava o mel e me dava a cera, cheirosa que só. Dava pra fazer bonecos gente, cavalos, bois e outras coisas mais, não podia colocar perto do fogo derretia tudo. Quando venho trabalhar hoje de ônibus, lembro do entra e sai das abelhas nos cortiços mas é só ilusão, as abelhas que entram não faz mel nem as que saem vão pegar pólen das flores, algumas entram para assaltar e outras saem para ser assaltadas. Não pensem que estou me queixando, naquela época também tomei muitas ferroadas de abelhas.
O mel era bom e grosso, servia de remédio pra muitas coisas. Me explicavam que seu gosto vinha do tipo de flor existente perto dos cortiços, elas eram de café. Toda minha casa era cercada pelo cafezal. Fui criada cheirando café no pé, nunca mais, depois que saí de lá, senti um cheiro tão bom. O que mais gostava era na “apanha” do café, era uma festa, uma grande festa. Meu pai era autorizado pelo dono do sítio a contratar gente para a “apanha”, que era tirar os grãos já maduros do pé de café. Elas, na maioria mulheres, levavam as “rupembas”, peneiras grandes em que colhiam os grãos e colocavam noutros recipientes, que eram levados para um armazém. Isto era feito quase num dia só, não sei se pelo tamanho do cafezal ou se havia uma necessidade de tirar o café num mesmo dia. Só sei que os grãos ficavam lá estocados depois de um dia inteiro de cantorias incentivadas por alguns goles de aguardente distribuídos pelo meu pai para animar a festa e a produção. Depois, todos os dias, este café era colocado no sol, para secar em uma área quadrada, chamada de “secador”. Até os grãos ficarem bem secos e bem pretinhos. Depois não sei o que se fazia com eles.
Na minha idade adulta, depois de ter saído de lá, voltei algumas vezes. Da primeira vez tive um susto, haviam roubado uma grande parte da minha infância, não havia mais um pé de café prá contar a história, como se diz, lá no Pau Grande. Tudo era capim e seu complemento, o boi. Falei com uma criança de minha idade, naquela época que descrevo, fiquei chocada. Nem de café, nem de abelhas, nem de banco liso, e nem de alpendre ela sabia de nada. Não tem mais uruçu por aqui?, perguntei, ingênuamente. O que?!, foi a resposta de pronto.
Pior de tudo, não havia mais quase nenhuma árvore no sítio, as mangueiras, jaqueiras, cajueiros, nada, nada, nem catingueira, só jurema, que dizem serve pra fazer estacas de cerca. E pensar que ontem li no jornal alguém reclamando por terem cortado umas árvores para montar um circo num parque em Olinda. Imagine o que diriam se soubessem que cortaram todas as árvores de minha infância, e nem para um circo era. E dizem que agora tem uma tal de Batavo, que só come leite e todo mundo quer dar de mamar a Batavo, e aja árvore no chão e capim crescendo nele.
Jamais voltará a minha infância, com certeza, e mais certeza ainda que não voltarão as uruçus porque jamais terão flores de café, nem meus bonecos de cera, nem o delicioso mel. Mas nem tudo está perdido, encontrei um pé de mastruz e minha mãe dizia que esta planta, com leite, cura quase tudo, e era verdade, veja o que encontrei no dicionário: “erva de até 50 cm (Coronopus didymus), da família das crucíferas, vilosa e fétida, com folhas penatipartidas, flores frequentemente assépalas e síliquas bilobudas, nativa das Américas e cultivada por propriedades excitantes, peitorais, vermicidas e antiescorbúticas...”. Com esta descrição deve servir também para “espinhela caída” podendo ser uma solução para o desmatamento e aquecimento global.
Já estou me estendendo demais e ainda tenho tanta história para contar de minha vida no Pau Grande, mesmo agora que ele está mais pelado e que só dar leite. Em minhas lembranças, pelo menos ele, ainda é grande.

Eliúde Villelacit@citltda.com

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