sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Caminho das Índias



Por um tempo estou querendo escrever sobre a novela das oito da Globo. Adoro novelas, todo mundo já sabe, mas, o que muitos estranham é o meu marido gostar também. São os machistas de plantão. Para estes, devo avisar que não continuem a ler porque não vão entender bulhufas. Então minhas amigas e amigos sinceros, vamos em frente.
Quando chego em casa cedo, vejo até os programas de notícias. Esta semana houve um dia como estes. Cheguei cedo, jantei e fiquei esparramada na frente da TV, que agora em Recife é digital. Que imagem! Daí a pouco, começou o Jornal Nacional. Este programa quase todo homem vê. E por inércia, depois dele, todos embarcam no caminho para as índias. Quando chega o outro dia, no trabalho, dizem que dormiram logo após o boa noite de Fátima Bernardes. Mentira. Neste dia uma das matérias me chamou atenção e foi quem me fez escrever.
O Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus foi denunciado por tantos crimes que eu pensei logo: este cara só pode ser irmão ou mesmo pai da Ivone, ou pelo menos ela o assessorou por muito tempo. Na novela das oito, a Ivone matou e ressuscitou uma pessoa. O Edir Macedo é acusado de matar os fiéis de fome e não cumprir as promessas para ressuscitá-los. Hare Baba!!! Esta foi, não uma boa, mas minha inspiração para escrever sobre a Índia, novela, Bom Conselho, castas, religião, etc. numa confusão pior do que o trânsito naquelas cidades indianas.
Quando eu era menina, lá em Bom Conselho, uma das minhas diversões preferidas era ir comprar pão no “comércio”. Na maioria das vezes eu comprava lá em Chico Cardoso, que era muito mais perto da minha casa. Vez por outra minha mãe dizia:

- Lucinha, vá comprar o pão hoje no “comércio”, o de Chico tá muito “buchento”.

O “comércio” a que minha mãe se referia era o centro da cidade, ali pela Praça Pedro II, incluindo uma padaria que ficava de frente ao Coreto, que não me lembro agora de quem era na época. E para mim, que gostava de andar, uma que ficava na Praça Lívio Machado, a Padaria Cordeiro. Para mim hoje, aquilo tudo era o “mercado” das cidades indianas. Tanto eu como minha “mamadi” adorávamos arrastar nosso “sari” no “mercado”. Só não podemos nos comparar a Indhira e a Shanti, mulher e filha de Opash, porque não éramos da casta dos “comerciantes", éramos “sudras”.
Para dar uma chance àqueles que não assistem a Caminho das Índias, resumirei alguns conceitos da cultura indiana nela mostrados, de uma forma um pouco caricata e, muitas vezes simplória, mas, isto já faz parte do gênero literário: novela, desde o Sheik de Agadir.
A cultura indiana tem como um dos seus pilares a religião Hindu, ou Hinduísmo. Segundo esta religião, a humanidade nasceu a partir do deus Brahma, mas, não de forma homogênea. Ao contrário de Adão e Eva que tiveram filhos com iguais direitos e deveres, a humanidade hindu já nasceu segregada socialmente. Alguns vieram da boca de Brahma e formaram a casta dos Sacerdotes, professores e intelectuais, formando eles a casta mais alta. Em segundo lugar vem a casta dos Xátrias, que eram governantes e guerreiros e certamente os políticos, sendo provenientes dos braços daquele deus. Devo salientar que a expressão “meter a mão” no dinheiro público, não provém de Brahma. Em terceiro lugar, nesta divina discriminação, vêem os Vaishias ou comerciantes provenientes das pernas de Brahma e ressalvo, dizer que eles só correm atrás do lucro, ou pernas prá que te quero também não é culpa do referido deus. E em quarto lugar na cauda das castas estavam os Sudras que, ainda bem, vieram dos pés de Brahma, e são agricultores, prestadores de serviços, e penso eu, funcionários públicos e aposentados do INSS.
Esta estratificação social influenciou e influencia ainda toda a cultura indiana. Sua comparação com aquela existente no Brasil e especificamente em Bom Conselho daria um bom estudo sociológico. No entanto, nem a novela mostra, com exatidão o funcionamento do sistema nem nós queremos fazer sociologia com o que estamos escrevendo. Mas, não podemos deixar de verificar certas comparações com o rigor e com o humor que deve ter uma crônica do Blog da CIT.
Esquecemos de dizer que ainda temos um componente interessante desta estratificação que são os “Dalits”, “Párias” ou “intocáveis”, que é a parte da humanidade hindu que não pertence a casta nenhuma. Eles não vieram do deus Brahma. Dizem que vieram da poeira dos pés dele, ou são aqueles que perderam suas castas por mau comportamento. Dizem que aqui no Brasil, no momento, o Senado é todo “intocável”. Hare Baguandi!!!
Quando íamos juntas, eu e minha “mamadi” “arrastar” os "saris" no “comércio” eu ficava mais livre para observar ou melhor, olhar, porque naquela idade ninguém observa, a vida como ela era. Passava pela frente da Escola Pratt, pelo cartório de seu Gabriel Tavares, onde ficava observando Di Tavares batendo a máquina e, já naquela época, tinha pinta de pertencer à casta dos Sacerdotes. Subindo a rua, sempre me deparava com um brâmane, só podia ser desta casta. Vestido de branco, todo engomado, tez alvo-avermelhada, cabelos bem penteados, lá estava seu Antônio Umbelino. Tinha uma loja mas era um brâmane em postura. Se usasse barba eu diria que era a cara do Shankar. Nunca soube se ele se tornou um "Saniase" ou renunciante, que é aquele que abandona sua casta de livre e espontânea vontade, para se dedicar à vida transcendental. Outro brâmane que eu via era o José Cupertino, em sua casa perto da loja de seu Gabriel (da casta dos Sacerdotes), ele fazia valer sua casta.
Um fato importante na estratificação por castas na Índia é a sua hereditariedade. Ou seja, filho de brâmane, “bramaninho” é, filho de sudra, “sudrinho” é e assim por diante. Então eu era uma “sudrinha”. A partir de meados do século XX, com a independência do país o sistema de casta foi extinto, oficialmente, no entanto ele continua entranhado dentro da cultura indiana. No nosso sistema, não divino, podíamos mudar de casta. Mas, não era fácil. O melhor caminho para mudar de casta naquela época, em direção às superiores, era a educação e, penso, ainda hoje é. Hoje não me considero uma brâmane, mais não sou mais uma “sudrinha”. E aqui devo fazer justiça a um dos grandes homens de Bom Conselho: Waldemar Gomes de Santana. Nele eu reverencio também a outros que lutaram pela educação em nosso município, mas ele foi o “cara” neste aspecto. Ghandi pertencia à casta dos Vaishias ou dos comerciantes, mas sua luta pela abolição do sistema de casta é reconhecida. Dentro das devidas proporções, seu Waldemar foi o nosso Ghandi. Quantos “sudrinhos” como eu, poderiam aspirar ou mesmo sonhar em mudar de casta sem o Ginásio São Geraldo? Nunca o encontrei pelo "comércio" mas hoje me lembro dele.
Óbvio que a casta mais encontrada no "comércio" era a dos comerciantes. Além de outros, lembro de seu Marçal, tinha um ar de brâmane mas era um grande comerciante. Seu Vitinho e o pai, seu Vino, da padaria mais distante da minha casa, e ia lá sempre, por isso mesmo, para andar mais, gastar e mostrar meu modesto "sari" ao mundo.
Indo pelo outro lado encontrava seu Zé Correntão com aquele ar suave e aquele sorriso bem representativo da casta. Seria certamente nosso Opash. O Zé Milton, se as nossas castas fossem hereditárias, seria um comerciante, porém, a educação nos roubou um Raj, embora a beleza de Lourdinha (digo isto com uma ponta de inveja), sua esposa, possa ser comparada àquela de Maya. Isto, passando antes pela loja do brâmane Tenorinho, e também pela de Apolinário (ou Eutico Tenório? Oh, velhos neurônios...), cuja aparência era de faquir à beira do Ganges. Baguan Keliê!!!
Muitas vezes encontrei alguns membros dos Xátrias que eram os governantes e guerreiros representados na classe dos nossos praças e soldados, além do prefeito que, quando isto ocorreu era o Dr. Raul. Ele, para mim não se mostrava muito a vontade nesta casta e parecia mais um brâmane. No entanto, Maraba, Seu Enéias, Seu Zé Pedro, Severino soldado (que foi meu colega no Ginásio) e outros, de mais alta patente, eu via quase toda vez. Nunca soube como classificar o Coronel Zé Abílio, penso que ele era um xátria também. Ou talvez, um xátria metido a brâmane.
Da casta dos sacerdotes era difícil de encontrar no comércio. Nunca encontrei Padre Alfredo por lá. Mas sabia que ele não parecia com o Pandit. Não ligava muito prá dinheiro e respeitava todas as castas inclusive os Dalits, representados na época por aqueles que esmolavam de casa em casa na sexta-feira. É o que me lembro de mais degradante de nosso sistema de casta. Graças a Deus, atualmente, alguns deixaram de ser Dalits devido a universalização da aposentadoria e alguns são até bons comerciantes e mesmo sacerdotes. Atchá!!!
Minha má inspiração para este artigo foi a notícia do indiciamento do Bispo Edir Macedo. Para não ser injusta, hoje vi no jornal que tudo que a TV Globo mostrou era mentira e fruto da concorrência com a TV Record, pertencente ou ligada a Igreja Universal do Reino de Deus. Há controvérsias. Pode não ser verdade mas, se for, a Ivone não agiu sozinha, teve a ajuda do Radesh de Chiva, ao assessorar o Bispo. Hare Baba Bangalô três vezes!!!
Quem leu até aqui este artigo, tenho certeza vê Caminho da Índias, quem o entendeu vê com atenção, e quem dele gostou pensa, como eu, que novela, igual ao Blog da CIT, também é cultura. Continuem nos prestigiando com sua leitura. Shukriyaa!!!

Lucinha Peixoto – lucinhapeixoto@citltda.com

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