segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Dialogando Francamente - 1



Com a autorização do Conselho Editorial da CIT, que é composto por pessoas de várias religiões e crenças, inclusive eu, que não tenho nenhuma, faço o intróito deste artigo, para dizer que, apesar de meu argumento de defesa para sua publicação, que alegava ser o conteúdo do diálogo abaixo, de utilidade pública, não ter sido completamente aceito, eu agradeço a todos que o discutiram, crentes, não crentes e titubeantes. Penso que o diálogo, mesmo não sendo dirigido para Bom Conselho, uma das alegações na reunião para vetá-lo, ele não foge da cidade pois esse é um tema nela recorrente em seu cotidiano e no que se escreve sobre ela. Haja vista o debate travado pela nossa colega, bom-conselhense da gema, Lucinha Peixoto, tempos atrás, sobre o que fazer com um Bispo “excomungador” e sobre a prática do exorcismo utilitário.
O diálogo entre eu (bom-conselhense só de coração) com o bom-conselhense Roberto Lira teve origem num fato triste: a morte de Marlos Urquiza. E achamos que ele é uma homenagem a este “papacaceiro”, que tinha, e queremos que continue a ter o mais afetuoso “abraço nordestino”. Este diálogo é uma continuação da leitura de suas obras, que não terminam onde sua mão parou de escrever, mas continuam... e continuam...
Como dizem os francesistas, en passant, enquanto travava-se esta discussão sobre nosso diálogo, o Conselho aprovou um artigo de Alexandre Tenório onde ele diz que “devemos deixar de lado artigos sobre política, e religião e também artigos raivosos, [e que] devemos publicar artigos gostoso de ler,...”. Se não fosse ateu eu daria graças a Deus por terem aceito publicar o artigo do Alexandre que fala de religião (Santa Isabel) de política (Brasil Foods) e é um pouco raivoso quando diz que “nossa vida já é tão dura para estamos perdendo tempo com conversa mole que cause discussão e que na realidade não levam a nada.” Espero que o diálogo de número 1, não seja só conversa mole mas que leve à uma discussão proveitosa, e além disto seja gostoso, por que não?

Cleómenes Oliveira

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Caro Roberto,

Obrigado por ler o meu texto e comentá-lo. Eu só conhecia o Marlos pelos seus escritos e por ouvir falar dele aqui na CIT. Li seus comentários, talvez tenha alguns para fazer sobre eles, é assim que os homens crescem, dialogando. Se encontrar um comentário que acrescente o farei depois. Por enquanto, o Diretor Presidente está aqui me aporrinhando (desculpe se você for muito formal e não gostar destes termos mundanos) para publicar o seu comentário, como um complemento (sem nenhuma conotação de valor, mas sim como um procedimento que adotamos quando os textos estão vinculados) ao meu texto. Como penso que o seu escrito interessa a todos, estou autorizando a publicação do seu e-mail a mim dirigido. Se pequei, tenho certeza nenhum de nós ficará com medo de ser castigado por Deus. Sinto que estamos próximos. Um abraço e meus agradecimentos mais uma vez.

Cleómenes Oliveira

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Prezado Cleómenes Oliveira, bom dia!!!!

Esta semana, assisti na TV uma entrevista do Jornalista Silio Boccanera com o biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, conhecido como “o maior ateu do mundo”, pimba, lembrei de você!!!! Nessa entrevista o Dawkins respondeu perguntas sobre suas obras literárias, em especial “Deus, um delírio”. Apesar de não ligar muito para se Deus existe ou não, mesmo assim fiquei curioso e fui procurar umas resenhas sobre essa publicação. Achei que o conteúdo do livro seria muito interessante, mas quando percebi que tinha que encarar 528 páginas desisti da ideia de ler tamanho tratado. Como não sou um ateu convicto como você pensei vou ler alguma coisa mais “ligth” (não fala pro José Fernandes que eu grafei a palavra “leve” como “ligth”, se não ele vai me dar o maior sermão pelo estrangeirismo), então reli dois “textozinhos” do Krishnamurti. Nessa re-leitura pensei: porque não enviar esses “textozinhos” para o Cleómenes se divertir. Tenho certeza que ele não vai achar que estou fazendo proselitismo. Então decidi, VOU MANDAR. Pensei, novamente, e a minha responsabilidade de estar encaminhando alguma coisa pecaminosa, como fica? Escutei uma voz que disse: “não liga não, tenho certeza que ele não ficará com medo de ser castigado por Deus”. Mesmo assim, para garantir minha isenção, estou enviando os textos como anexos do e-mail (olha o estrangeirismo de novo Roberto), então, ele só os lerá se quiser. A bola agora é tua, segura Taffarel (desculpe se você for muito formal e não gostar de gracejos – também já ouvi isso antes).

Um grande abraço.
Roberto José T. Lira
Links para os textos de Krishnamurti:

http://dl.getdropbox.com/u/890669/religiao/ACrencaEmDeus.pdf
http://dl.getdropbox.com/u/890669/religiao/ExisteOuNaoExisteDeus.pdf



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Caro Roberto, bom dia!!!

O tempo que passo para responder este seu e-mail foi o que levei para ler os textos do Krishnamurti (confesso copiei e colei para não errar o nome). Muito tempo atrás li alguma coisa dele, quando ainda tinha dúvidas a respeito da existência de Deus. A Bíblia e alguns livros ocidentais eu já tinha passado por eles. O problema com os indianos, não sei se posso dizer gurus indianos, ou é a tradução de suas obras ou é mesmo o seu linguajar enrolado. Dar a impressão que eles querem nos vencer pelo cansaço. Ou talvez não tenha sabido escolher suas obras pela falta de orientação, agora tenho a sua e li os dois textos.
Pelo que entendi deles, nesta leitura rápida “o maior ateu do mundo” não é o Richard Dawkins, é Krishnamurti. E você tem a grandeza, sendo um pesquisador nesta área, de entender que não o estou xingando. Muito pelo contrário.
Este nosso “papo”, depois que Marlos partiu, me fez interessar em ler outra vez o Richard Dawkins, que não é o meu único “guru”, mas é um deles. Não vi esta entrevista, nossos jornalistas aqui só entrevistam bispos com medo de serem excomungados, mas gostaria de tê-la visto. Comecei minha revisão pelo seu “O Gene Egoísta”. Quase que ia dizendo: Se você quiser se tornar ateu, comece por este. Refreei-me pois lembrei do Krishnamurti, que diz, como o Zeca Pagodinho (desculpe-me), “deixe a vida te levar”. Mas este é o começo. Sem dúvida passarei para o mais moderno “Deus, um delírio”, que já apela um pouco pela fama que teve o primeiro, mas penso ser verdade o que ele promete no prefácio: “Se este livro funcionar da maneira como pretendo, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando terminarem”. E, penso eu para quem está em dúvida é preciso ser “macho” para continuar acreditando em Deus e principalmente numa religião, depois disto. Vou ver se encontro este livro na Internet e tentar, junto ao nosso Conselho Editorial da CIT, formado por religiosos de todos os matizes, inclusive carolas, para colocá-lo no Blog. Quem sabe se você se aventura nas 528 páginas, vale à pena.
Uma coisa interessante deste livro é sua argumentação contra educação religiosa para crianças. Ele diz que a denominação “criança católica”, “criança evangélica”, “criança judia” dar a mesma impressão dos termos “criança comunista”, “criança liberal”, “criança conservadora” e, já pensou, “criança petista”? E, não sei você, eu fui uma “criança católica”, por muito tempo. Fui até coroinha. Fico pensando quanta energia despendi para me livrar do conteúdo e do rótulo. Mas, havia um político em nossa cidade que dizia: “O feio não e nascer pobre, o feio é morrer pobre”. Sem julgar os valores morais ou imorais contidos nesta sentença apenas usada aqui para dizer: “O feio não é nascer católico, o feio é morrer católico”. E muitos morrem pobres e também morrem católicos. Não recomendaria o livro para crianças, a não ser a partir do 12 anos, mas, os pais deveriam ler antes.
Caro Roberto, agora vou deixar a vida me levar, enquanto o Diretor Presidente não descobre estes e-mail e tenta publicá-los, e se o conselho aprovar cumprirei o meu dever cívico em autorizar a publicação. Vou ver também como disponibilizo os textos do Krishnamurti. Já disse antes, que o seu conterrâneo o Diácono Edjasme Tavares, termina suas mensagens com as palavras: “Com a graça de Deus”. Se soubesse que não seria processado por plágio reverso eu terminaria as minhas com:
Sem a graça de Deus, um abraço

Cleómenes Oliveira.

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Prezado Cleómenes, bom meio-dia!!!!

Após enviar o e-mail para você, fui fazer minha obrigação matinal, correr atrás de uma bolinha amarela, treinar tênis. E assim que cheguei do treino, fui ver se você me tinha “recebido bem”. Como parece que sim, vou sacar novamente, segundo “serviço”!!!!!!!
Quanto às palestras do Krishnamurti (ele não se dispunha escrever, o que foi editado dele, geralmente, são palestras que ele realizou mundo afora) eu também consinto com você, a comunicação como ele muitas vezes se torna pouco compreensível, é como você diz: “um linguajar enrolado”. Eu levei muito tempo para assimilar alguns dos seus ensinamentos (Não fala pro Krishnaji que eu disse “ensinamentos”, ela não gosta. Agora, chamá-lo de guru ele te atira no fundo do poço ou no rio Ganges com uma pedra no pescoço). Quanto a ele ser ateu isso eu não tenho certeza, mas, com certeza ele acha a maior estupidez os pais, ou os adultos, inculcarem crenças nas crianças. Ele entende que o condicionamento promovido por crenças religiosas ou de outras ideologias embota a mente do ser humano. E é lógico que uma criança com a mente em formação, fica muito mais difícil, quando adulta, se livrar desse condicionamento. Eu também nasci católico, não graças a Deus, mas, graças aos meus pais e, não sei graças a quem, não tive o azar de ser coroinha, como você. Não sei se tinha um “gene egoísta”, com certeza tinha um “gene transgressor”. Livrei-me rapidinho, do meu jeito, e graças a muitos, dessas ilusões. Com certeza não vou morrer católico, nem mesmo cristão.
Quanto à entrevista com o Richard Dawkins, eu a assisti em um programa da TV Globo News, ele tem sido reprisado. Não sei se ainda vão reprisar. Achei um filme-zinho do youtube com a entrevista. http://www.youtube.com/watch?v=0hxUQhRArtY Não tive tempo de ver se esta completa .

Com a nossa graça, um grande abraço.

Roberto José T. Lira

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Prezado Cleómenes, bom começo de noite!!!!!

Se é que és da noite. Eu não sou, durmo com as penosas, mas antes de ir para o meu poleiro, resolvi baixar no (ar)Recife, como aqueles que baixavam no Porto de Galinhas, na calada da noite !!!!
Por falar em baixar, baixei da internet os dois livros que comentamos do Dawkins: “O Gene Egoísta” e “Deus, um delírio”. Dando uma olhada no índice deste último, para ver se me animava a ler, me deparei com o subtítulo: “A pobreza do agnosticismo”. OPA, LA VEM FERRO!!!!! Como nunca tinha visto qualquer referencia depreciativa sobre o conceito do agnosticismo (no primeiro e-mail que te mandei, mencionei que às vezes pensava em me rotular de Agnóstico, como definido por Thomas Henry Huxley), então, decidi ver o que o homem falava dos que se dizem agnóstico. A primeira coisa que me chamou a atenção foi à classificação dos agnósticos em dois tipos: Agnóstico Temporário na Prática (ATP) e Agnóstico Permanente por Princípio (APP); entendi que os dois são como os tucanos da era FHC, ficam em-cima-do-muro (se fosse mulher a essa altura já estaria com TPM). Em seguida ele propõe a “ideia do espectro de probabilidades”, aí amenizou um pouco a pressão. Fiquei pensando, se me encaixava em algum dos sete marcos. Pensei, pensei e cheguei à conclusão que estou como os tucanos das antigas, em cima do muro. Ou seja, por enquanto, sou candidato ao marco 3 e também ao marco 4 (3:- Maior – probabilidade – que 50%, mas não muito alta. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao teísmo. "Tenho muitas incertezas, mas estou inclinado a acreditar em Deus."; 4: Exatamente 50% – de probabilidade –. Agnóstico completamente imparcial. "A existência e a inexistência de Deus têm probabilidades exatamente iguais."). Desse modo, penso estar me rotulando de ATP ou é, simplesmente, agnóstico “em-cima-do-muro”. Sei lá, acho mais fácil me rotular de infiel, descrente, ou simplesmente que não acredito em JC.
No tênis, geralmente venço os meus parceiros pelo cansaço e agora parece que estou aprendendo a enrolar o linguajar, como os gurus indianos, para vencer pelo cansaço quem estiver me lendo. Antes que isso se consolide vou me preparar para dormir e, amanhã cedinho, deixar a preguiça mental de lado para iniciar a leitura da obra de Dawkins. Vou começar pelo “O Gene Egoísta” como você sugeriu, mas, principalmente porque só tem 121 páginas. Talvez depois dessa leitura eu saia de cima do muro, ou pelo menos possa ficar em cima de um muro mais baixo. Nunca tive medo de mudar de cidade, de emprego, de namorada, de esporte ou de compreensões sobre a vida. Só não mudei, ainda, de esposa e com uma “estabilidade” de quase quarenta anos essa mudança me parece agora difícil. Quanto aos novos conceitos que a leitura vai me oportunizar não sei se vou incorporá-los, mas, com certeza, vou me inteirar das novas ideias despido de qualquer preconceito.

Saudações “genesicamente egoístas”.

Roberto José T. Lira

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Caro Roberto, Bom dia!!!

Fiquei alegre por você ter baixado os livros do R. Dawkins. Estou começando a reler o “Gene Egoísta”. Podemos trocar figurinhas a respeito. Só não sei em que ritmo de tempo poderei ler. Mas isto não é importante, o Universo levou centenas de bilhões de anos para chegar até aqui e se estamos falando sobre Deus, temos que entrar no tempo dele, pois como Raul Seixas, parece que eu nasci há 10.000 anos atrás e não há nada neste mundo que eu não queira saber demais, e parece que você também é assim. Vamos em frente, quem sabe eu reencontre Deus e você o perca? Marchemos ao inesperado, enquanto isto vivamos.
Naquela classificação sobre agnosticismo penso está no 6 – Probabilidade muito baixa, mas que não chega à zero. “Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável levo minha vida na pressuposição que ele não está lá.” Seguindo aquele link do YouTube que você me enviou, vi a entrevista e aproveitei para ver outros vídeos com R. Dawkins. Num deles, ele se classifica com a nota 6,9, na escala de 1 a 7, e justifica que um cientista nunca deve descartar totalmente uma hipótese. Penso que o meu 6, é por não ser um cientista e por ter sido uma “criança católica”, não quero que meus parentes e amigos, ao morrer, pensem que eu fui direto para o inferno, sem direito a “sursis”. Quanto a isto, em outro vídeo ele diz que quando estiver morrendo vai exigir um gravador para não inventarem, como inventaram para o Charles Darwin, que ele se arrependeu no leito de morte. O 6 me garante que não chegarei a tanto, talvez uma “webcam” resolva.
Abraços

Cleómenes Oliveira.
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Cleómenes Oliveira - cleomenesoliveira@citltda.com
Roberto Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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