sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os Trancos e os Barrancos



Continuo escrevendo. Dentro da minha cabeça está tudo em desordem pois pensei agora em nossa chegada. Não na nossa chegada na chuva e na descida do caminhão mas naquela mais longa e demorada que vai entrando em nós de mansinho.
Ficamos na casa do “cumpadre” Caetano aquele mesmo que já falei sobre ele. Lá no sítio ele comia feijão com ovo e arrotava caviar. Aqui em São Paulo (quando falar São Paulo entendam Guarulhos, São Paulo parece dar mais importância à minha viagem) ele comia feijão com ovo também, não tão bom como o que minha mãe preparava mas o arroto era de feijão com ovo, e pelos outros sons e odores, os ovos pareciam que estavam podres. Meu pai estranhou a casa, os móveis, as redondezas tudo diferente das pabulagens do “cumpadre” mas agora era tarde, se pensasse em voltar choraria, pela impossibilidade.
Eu não sofri tanto, para mim era tudo novo, não sei porque tudo que é novo parece bonito, menos o Parque Dona Lindu, aqui no Recife, que uns colegas me chamaram para ver e quando olhei, pensei que era mais um depósito de combustível. Lá não, o novo era bonito. Ao invés de andar de queixo caído, andava olhando prá cima com a boca aberta olhando umas casas altas parecendo um favo de mel das abelhas uruçus do Pau Grande. Na minha infantilidade ainda me perguntava como colheriam tanto mel. Será que era deste mel que falavam quando diziam que o futuro estava em São Paulo?
Entretanto nem tudo que era novo era motivo para diversão. A casa para aonde fomos é claro que não era uma mansão. Mal dava para a família do “cumpadre” e éramos seis. Eu, minha mãe, Eraldo, uma irmã mais velha, a Ivete, e dois mais novos, ainda produzindo bombas de cocô. À noite, alguns foram para o chão e eu fui, talvez por ser criança para uma cama que tinha um colchão bem lisinho, quase igual ao banco do alpendre no sítio, mas bem macio. O problema era que era uma em cima da outra. Oxente, disse eu, igual as casas, tudo em cima da outra. Hoje sei que era um beliche, naquela época fiquei foi preocupada como subir e como não cair dali já que me deram a parte de cima. Embaixo ficou minha mãe com a segurança que tinha que eu não fazia mais xixi na cama.
A filha de Caetano era mais ou menos da minha idade. Meu pai, lembro bem tomou o cuidado de tirar o peste do Eraldo de perto dela. Será que ele achava que o filho era um tarado em potencial? Tenho um colega de trabalho que diz que um tarado é um homem normal pego em flagrante, talvez meu pai também pensasse assim, sei lá o que ele aprontou antes. Durante o período que passamos na casa, devo ser correta, o Eraldo nunca aprontou pra cima de Lidinha, como chamavam a menina, nunca soube o nome dela de verdade.
Esta questão de nomes nos causou problemas. Um dia fomos a uma casa onde, me lembro bem, havia uns livros do tamanho de uma porta de igreja e um monte de gente escrevendo. Hoje sei era um Cartório e sei o que se passou. Lá no Pau Grande todos tínhamos nome e todo mundo sabia quem era quem. Lá em São Paulo, duvidaram deles. Meu pai dizia que era Antonio Villela e o homem parecia dizer: prove! Idade de 52 anos: prove! Nasci em 1908: prove! Vendo esta semana na TV uma senhora toda elegante dizer que teve um encontro com uma ministra onde ela pediu para fazer umas coisas lá, e alguém dizia: prove! Lembrei daquela época. Na realidade, o único documento que meu pais tinha era o batistério, que a única coisa que provava é que ele era cristão e se chamava Antônio, e isto para aquele mundo era pouco. Sei que depois de idas e vindas e não me lembro dos procedimentos minha família ganhou nome e eu também, Eliúde Villela, esta que vos escreve, a seu dispor. Até minha mãe ficou Berenice Villela, e é assim que eu hoje sou uma Villela da gema, por parte de mãe e de pai.
Uma das coisas mais importantes que aconteceu em minha vida nesta época começou no seguinte diálogo entre meu pai e Caetano:

- Cumpadre Antônio o que é isto nos olhos de Eliúde?
- Cumpadre, faz muito tempo que ela tem isto. Parece não incomodar muito pelo menos ela não se queixa.
- Qualquer dia desses vamos levá-la a um posto de saúde para o doutor olhar isto.

Ouvi aquilo estupefata pois nunca tinha me dado conta que tinha algo nos olhos. Saber eu sabia que meus olhos ficavam o tempo todo cheios de remela e vermelhos. Meus cílios, que na época eram pestanas (como estou chique!) viviam sempre molhados e às vezes coçavam. Eu achava até bom coçar com o dedo mindinho, quando não tinha o que fazer. Será que era por isto que alguns meninos não chegavam muito perto. Não... Era muito pequena para esta interpretação de adulto. O importante para mim foi que a partir daí, meu pai resolveu me levar ao médico. Não é pra fazer chorar nem para disseminar pieguice que digo que até aquela época não sabia o que era um. Lembro de um homem de branco, com um uns fios no ouvido e que hoje eu diria que era parecido com um fone de ouvido de um aparelhinho MP3 e sei que é um estetoscópio. É o símbolo da Medicina, aquela serpente é apenas um estetoscópio estilizado. Me ouviu me apalpou e receitou. Disse que eu tinha muitos e muitos vermes, vermes a mancheias como dizia um livro que li muito tempo depois. Aquela barriga grande não era sinal de fartura mas de verminose. Mandou-me para outro médico que me mandou olhar uma luzinha e ver umas coisas numa parede, que não soube o que significavam, enquanto ele perguntava à minha mãe:


- Esta menina é alfabetizada?


Diante da resposta negativa, mostrou uns bichinhos, que também tive dificuldade de saber o que eram, até aquele momento nunca tinha visto um bicho com um pescoço tão grande nem um com uma tromba que parecia uma mangueira no Pau Grande. No final ele disse prá minha mãe:


- É blefarite!


Não pensem que eu entendi tão claramente assim naquela época. O som era parecido. Muito tempo depois, já indo normalmente, pela idade ao oculista contando a história e resmungando este nome, ele me disse o correto, complementando: é uma inflamação do bordo externo das pálpebras. Passou um colírio e uma pomada e hoje tenho dois olhos claros e bonitos. Hoje eles servem para paquerar sem constrangimento, naquela época, sem eles sadios não poderia arranjar o emprego de doméstica, meu primeiro emprego. Como estão perto a diversão e a sobrevivência pelos mesmos motivos. Blefarite nunca mais!!!
Tenho vontade de contar sobre a escola, já que disse acima que era analfabeta. Quando olhei prá cima do texto, penso que ele ficaria grande demais e aí ninguém lê. Conto outro dia com os trancos e barrancos da cidade grande.

Eliúde Villela – eliude.villela@citltda.com

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