domingo, 23 de agosto de 2009

A Saga de Um Bicicleteiro e o Causo "A Bicicreta" de Geraldinho de Goiás



Inspirado num causo, contado por Geraldinho de Goiás, é que resolvi escrever essa prosa. Após alguns meses que eu tinha aderido ao ciclismo de montanha, um amigo me deu uma cópia do CD com causos contados pelo Geraldinho de Goiás (procurei o original pra comprar, mas nunca achei). Nesse CD, entre outros, ele conta o causo “A Bicicreta”. Este causo, várias vezes, me fez sentir muita dor, mas, era dor no abdome de tanto rir. Se alguém gosta de sentir dor no abdome, e já viveu alguma aventura numa bicicleta, com certeza vai se interessar em escutar esse causo e, espero, tenha muita dor no abdome. Para isto, não é necessário ler o que segue logo abaixo, relativo à saga do bicicleteiro. Pode ir direto para o link disponibilizado no final do texto, que vai dar risada do mesmo jeito.

A Saga de um Bicicleteiro:

Outro dia, faz uns cinco anos , numa visita que fiz a uma filha que mora em São Paulo, ganhei de presente dela uma bicicleta. Era uma bicicleta que ela tinha dado de presente de Natal ao marido, fazia uns dois anos. Ele, no dia que recebeu o presente, montou na “magrela”, deu uma voltinha dentro da garagem do prédio e pendurou-a na parede, e ali ela permaneceu. Na referida visita, minha filha disse: – “Pai, o Nagamine não usa essa bicicleta, faz dois anos que ela está pendurada na garagem. Leva ela para Uberlândia, lá a “coitadinha” tem mais chance de dar umas voltinhas.” Trouxe a “coitadinha” pra ela poder dar umas voltinhas aqui em “Berlândia” (como dizem os mineiros). Mas, a “coitadinha da magrela” passou mais dois anos esquecida em um canto no meu “apê”.
Tenho outro genro, que mora em “Berlândia”, o Thiago, que é fanático por mountain bike. Todo sábado e domingo ele saia com os amigos para pedalar pelas trilhas da região. Um dia, pensando em melhorar minha condição física, visando uma melhoria no meu jogo de tênis, falei pro Thiago: Thiago, quando você for pedalar com uma turma mais “fracotinha” me avisa que eu vou com você. Quero dá umas pedaladas para melhor a minha resistência física. Ele falou: – “Seu Roberto, domingo nós vamos na cachoeira de Sucuripa. Fica perto e o senhor vai dar conta de nos acompanhar, numa boa.” Lá fui eu. O percurso era um estradão, sem muita subida. Fui apreciando a paisagem e a turma de vez em quando dava uma maneirada me esperando. Aguentei beleza.
No domingo seguinte, incentivado pelo genrinho, lá fui eu de novo. Dessa vez a trilha era conhecida por “Trilha da Serrinha”. Depois de pedalarmos uns 20 km chegamos na tal da “Serrinha”; aí a coisa ficou preta. Pra mim, não tinha nada de serrinha; era uma subida de uns 3 km e empinada pra dedeu. Logo no inicio da subida eu já tinha descido da “magrela” e começado a empurrá-la. Passou um casal por mim, olhou de lado e disse: – Eu acho melhor o senhor montar e pedalar, porque falta muito pra chegarmos lá em cima. Como eu não tinha nenhum santo para me acudir, o primeiro pensamento que me acudiu foi ligar pra filha “namorida” do Tiago e pedir pra ela me resgatar. Sacudi a cabeça, para espantar esse pensamento, cerrei os dentes e falei pra mim mesmo: só vão me resgatar no diabo dessa serrinha se eu desmaiar. Continuei devagarzinho, respirando fundo. Nos trechos onde a inclinação era mais suave, montava e dava umas pedaladas. Enfim, consegui chegar ao final da tal “Serrinha”. A turma estava toda me esperando, deviam estar sentado na sobra de uma árvore há um tempão. Achei que eles iam tirar um sarro da minha cara. Que nada, me deram a maior força. Tenho certeza que o que eles queriam era me fisgar para fazer parte da turma.
Durante a semana, recordando das conversas que escutei durante o percurso, cheguei a seguinte conclusão: meu desempenho nas trilhas só poderia melhorar com uma bicicleta mais leve, com uma geometria que favorecesse nas subidas, etc. Aquelas conversas de bicicleteiro metido a besta. Não pestanejei, chamei o genrinho pra me orientar na escolha, fui numa loja e comprei uma bicicleta “decente”. Aproveitei a empolgação e comprei, também, sapatilha, pedal com “clip” e outros penduricalhos. A loja abocanhou quase o salário de um mês, mas divididinho em 6 parcelas, falei: que seja. Passei a acompanhar a turma do Thiago, todo domingo. Um tempo depois todo sábado e todo domingo. Se ele não fosse eu ia assim mesmo encontrar a turma A essa altura, meu interesse pelo jogo de tênis, que era o motivo para ter ido dar as primeiras pedaladas, já tinha ido pras cucuias.
Depois de uns seis meses, já era um “veinho” bom de pedal nas subidas, assim diziam os mais novos, mas era covarde nas descidas. De novo, escutando aquelas conversas dos “bikers” (biker é o nome chique para bicicleteiro metido a besta) conclui que para acompanhar a turma nas descidas precisava de uma bike full suspension (suspensão na frente e atrás), com freio a disco e o escambao. Pimba, o vírus dos bicicleteiros tinha me contaminado. Resolvi montar uma mountain bike com tudo que tinha direito: suspensão top na frente, suspensão com “brain” atrás. É, ela tinha um dispositivo inteligente na suspensão traseira para ler o terreno, já pensou, freio a disco e o escambao. Me endividei até a alma. Tinha sido muito mais barato ter comprado um carrinho popular, mas fazer o quê? A essa altura, já estava possuído pelos “virus” dos bicicleteiros. Estava mesmo fissurado pela “tar bicicreta”.
Depois de algumas trilhas com a bike dos sonhos, comecei a ficar afoito nas descidas. As danadas das suspensões “engoliam” tudo que era buraco, pedra, pau, o que tivesse na frente e quando precisava diminuir a toada, o danadinho do freio a disco não me deixava na mão. Se bem que, de vez em quando tomava uns “capotes”, caía num “mata burro”, batia com cabeça numa árvore em arvore (ainda bem que eu usava capacete, não era igual ao do Felipe massa, mas evitava o pior) e outras cacetadas mais. De vez em quando chegava em casa todo esfolado, mancando. Aí a patroa e as filhas só não me chamavam de santo (ainda bem), mas maluco, irresponsável e palavrões assemelhados, ouvia tudo. Nesses momentos, o Thiago se escafedia com medo que a tropa de choque lá de casa (a mulherada) o culpassem por ter me desencaminhado do tênis.
Além da turma do Thiago, me enturmei com outros bicicleteiros. Num feriadão, com essa nova turma fui pra Serra da Canastra – Sonho de consumo de qualquer trilheiro: biker, motoqueiro, jipeiro, cavaleiro, andarilho e outros bichos mais. Chegamos à noite, no dia seguinte cedinho, com o grupo todo reunido no pátio da Pousada da Vanda, o organizador da viagem falou: Vocês que estão acostumados nas trilhas de Uberlândia esqueçam aquilo lá, esqueçam Serrinha, Serrão, Trilha das Pedras e outras mais. Aqui é CANASTRA. CANASTRA, AQUI O BICHO PEGA..
Outro dia eu conto o resto dessa Saga do Bicicleteiro. Agora tenham um boa dor no abdome a custa do Geraldinho de Goiás. É só clicar no link do site abaixo. Agora fui ... jogar tênis.

http://recantodasletras.uol.com.br/audios/humor/12642

Roberto José T. Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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