quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Um tributo a Marlos - Sinais da Inexistência de Deus



Pretendo aqui escrever algo sobre Logosofia. A morte do Bom Conselhense Marlos Urquiza, sendo seguidor desta linha de pensamento e a minha condição de ateu, devem ter despertado a minha curiosidade e resolvi dizer o que penso a respeito da chamada “Ciência Logosófica”, criada pelo psicólogo e filósofo argentino Carlos Bernardo González Pecotche. De início relutei pela extensão da matéria porém, tendo lido os textos do Marlos e sempre achado seus pensamentos tão próximos dos meus ao ponto de já ter pensado em escrever sobre ele, resolvi enfrentar o encargo, com a humildade daqueles que não podem contar com a ajuda de Deus. No mínimo, isto será bom para ativar meus “genes” protetores, contra incursões fatais.
Falar sobre Logosofia como um todo não é fácil. O que li e percebi é que, como escola filosófica, ela pretende ser mais um conjunto de regras para que o homem viva melhor, baseando-se no ponto de que há uma Mente Universal ou Vontade Cósmica da qual a mente humana é um fragmento. Essa única subs­tância total — que também tem o nome de Deus — está em contínua evolução no mundo, pois Evolução, Movimento, Transformação, Adaptação são Leis Universais que regulam e regem tanto a vida humana como a cósmica. Alguns resumem a Logosofia como um apelo à reflexão do homem sobre si mesmo, mediante a qual a Divindade aflora à consciência de cada indivíduo. E assim, vê-se que é o próprio homem quem forja o seu destino e se redime de suas falhas. Para esta Escola, não esperemos que um Deus pessoal e transcendente nos venha em auxílio, conferindo-nos a graça sobrenatural; este dom não nos é necessário, pois o indivíduo mesmo pode se salvar, reformando a sua vida e encaminhando-se definitiva­mente pela senda da evolução consciente, que não admite des­cuidos reiterados e que reflete, em todos os atos, a positiva decisão de cumprir o supremo mandato do aperfeiçoamento.
Não temos tempo nem espaço para discutir com profundidade estes princípios filosóficos. No entanto, faremos algumas considerações, como uma espécie de tributo ao ilustre bom-conselhense Marlos Urquiza, e atendo-me aos seus escritos.
Certo tempo atrás quase que me aventurava, na minha condição de ateu assumido, em escrever sobre um seu artigo: “Sinais da existência de Deus”. Já havia programado um título: “Sinais da inexistência de Deus”, o que mantenho neste texto como subtítulo. No que escrevi, e aqui repito, eu usava as próprias palavras do exemplo dado por Marlos Urquiza, naquele artigo, para mostrar que no diálogo do professor com o aluno, Deus é associado a tudo que é bom na natureza, tudo que é belo, tudo que é puro, o que nem sempre acontece. Suponha um diálogo nos seguintes termos, que pode ser tão comum em qualquer escola do nosso país:

“- O que deseja perguntar meu jovem?- Professor como se pode ver Deus? Porque dizem que eu tenho só que ter fé.
- Veja como entendo a fé. Existem dois tipos de fé: a fé cega, a que se acredita em alguma coisa e não se procura mais saber se aquilo é verdadeiro e a outra fé é aquela que se acredita, mas se vai estudar, pesquisar e refletir se aquele algo é verdadeiro ou não.
- Olhe para esse homem, o que vê?
- Que ele está morto, com um tiro!
- E quem o matou? – pergunta o professor.
- Deve ter sido um bandido destes que vem aqui todo o dia...
- Nós estamos vendo este bandido?
- Claro que não professor...
- Os bandidos são o sinal das injustiças e maldades sociais e servem para mostrar como a natureza humana pode ser cruel. Deus nos deixou milhões de sinais de sua existência, por isso, a forma melhor de conhecer o Criador é através do conhecimento e da observação da natureza.
- E nós só podemos ver Deus através desses sinais que falou?
- Não. Podemos senti-lo através da sensibilidade.
- Como acontece?
- Talvez na sua idade você não tenha passado por experiências de assalto a mão armada, visto um leão matar uma gazela furando-lhe a jugular com os dentes. Mas quando sentimos dentro de todo nosso ser, dentro do coração um profundo asco pelo mal praticado ou que tenhamos feito para alguém, sentimos uma tristeza cheia de ódio, sentimos nosso corpo físico morrer, ficamos num estado de descontentamento, que somente quem sente sabe explicar. Esse descontentamento profundo que sentimos vem da parte Divina que faz parte de nós e é ela o único caminho que pode nos transmitir essas tristezas e sensações de mal-estar do seu mundo, em nossa vida física.
- Professor esses sinais estão certos?
- Uma guerra todo novo dia!
- A poluição que não nos permite mais ver o por do Sol.
- Uma chacina numa noite de Lua cheia.
- As estrelas cadentes.
- nossa lixeira no espaço: o Planeta Terra.
- Somente descobriu esses sinais da existência do Criador?
- Até o momento sim. Depois dessa outra aula eu virei. Saiu olhando para o feio jardim do pátio da escola, onde o corpo do homem jazia no chão.
No final das aulas chegou chorando muito demonstrando que fizera novas descobertas.
- Professor, eu vim de uma aula de Geografia e foi mostrado slides de várias coisas da natureza e tenho certeza que são também sinais do Criador:O mar subindo de nível pelo efeito estufa. Cachoeira da Foz do Iguaçu acabada pela seca, Montanha do Everest totalmente sem neve, Raios do sol provocando cada dia mais tumores malignos, Urubus, Baratas, peixes mortos pela poluição...
Somente? Pergunta o professor.
- Professor, que bom é descobrir as coisas pelo nosso esforço. Eu lhe agradeço por ter me incentivado a pensar, a observar a natureza e descobrir sinais da existência de Deus. É muito diferente a fé com conhecimento, da fé só pelo acreditar. Só tenho uma dúvida, se tudo isto acontece, para que existe Deus? Estes não seriam sinais da inexistência de Deus
?”

Ative-me o mais próximo possível do diálogo apresentado por Marlos Urquiza em seu texto porque o diálogo original tenta transmitir o cerne da ciência logosófica, que Deus é tudo que existe, mas não interfere em nada. O que as religiões nos trazem é uma versão de Deus com diversas rotulações, mostrando, dos seus diferentes pontos de vista, o que Deus pode fazer por nós. A Logosofia, apenas responde: Nada.
No entanto, o artigo que mais reflete o pensamento de Marlos é, a nosso ver, o seu último: “Castigo de Quem?” (http://www.citltda.com/2009/06/castigo-de-quem.html) É um libelo contra todas as religiões que conhecemos. Quando ele pergunta:

Será que Um Criador de um UNIVERSO e de tudo que existe dentro dele, precisa de favores, de rezas e de orações para manter a Sua Criação?”

E continua, mostrando o que lhe era mais aguçado, sua sensibilidade para com o mundo:

Por que tantas catástrofes? Por que tanta fome? Por que tanta brutalidade entre os homens e mulheres? Por que trocaram à delicadeza, o amor, a gentileza, o afeto, o carinho, a afabilidade, a generosidade, a doçura de um sorriso de felicidade, o sorriso dos próprios filhos, a gratidão por está vivo e de poder fazer o bem? Por algo que foi criado para facilitar e incentivar o comércio e todos os tipos de negócios que possam existir, a fim de movimentar de um modo construtivo, benéfico pelo incentivo à criação de novos materiais, de substâncias, etc., etc... O chamado DINHEIRO, tão importante, como já disse: - foi ao longo dos tempos, como foram também às crenças – substituindo os valores humanos, as virtudes que Deus deixou para que o homem desenvolvesse através da sua inteligência. O dinheiro substituiu algo DIVINO que existe amordaçada, sufocada dentro desse ser que quer ser considerado REI DA CRIAÇÃO: A SENSIBILIDADE. Ela equilibra a frieza da razão, dando ao saber a oportunidade de se transformar em sentimento para ser usado quando necessário, com equilíbrio.”

Nele, esta sensibilidade da qual ele fala supera sua afabilidade para mostrar o que tão de pernicioso pode trazer, não só as coisas materiais como o dinheiro, mas também as crenças que levam o homem a acreditar que é impotente diante dos fatos e se prostra diante de Deus esperando por uma solução a partir dele, quando poderíamos muito bem resolver os problemas por nós próprios criados. Neste erro incorrem, umas mais outras menos, todas as religiões. Não há religião sem Deus e, para Marlos, e também para a Logosofia, pode haver um Deus sem religião. Deus era algo que o homem deveria descobrir através de sua sensibilidade e não através de suas crenças.

Para nós ateus, e, semelhante aos religiosos, existimos de vários tipos, o que Marlos pensava não estava muito longe da inexistência de Deus, se admitirmos, pelo menos para efeitos práticos, que quem não interfere, não existe. E ambos podemos passar sem ele e sermos bons cidadãos. Embora tenhamos argumentos mais sólidos para tratar do assunto, e defendermos nosso pensamento.
O que importa para mim, é o fato de os princípios logosóficos permitirem e incentivarem que houvesse homens como o Marlos Urquiza, com sua bondade e retidão de caráter, podendo servir de modelo para qualquer um. Dentro da visão dele, com sua morte, ele continua em Deus, dentro da minha, o mundo perde um homem de bem, que merece todos as nossas homenagens, embora penso que ele não preferisse um culto religioso. Que tal lermos e relermos seus artigos e meditarmos sobre eles?

Cleómenes Oliveira – cleomenesoliveira@citltda.com

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(*) Fotos do site de Bom Conselho, do álbum de Marlos Urquiza.

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