segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Vidas Molhadas



Recebi vários e-mails e elogios de todos depois de escrever alguma coisa sobre minha vida que nem pensei tivesse tanta importância. Uma delas me deixou alegre demais. A Maria Caliel a escritora com pétalas de rosas como diz Lucinha, e é verdade, disse num deles que eu tinha lembrado a ela os escritos de Graciliano Ramos, entre outros que vou ler se Deus quiser. Ora, nas minhas poucas letras Graciliano foi o que li
logo que aprendi a ler e tomar gosto pela leitura. Mas o mesmo e-mail me causou uma coisa estranha que já vinha sentindo um pouco desde quando me começaram a incentivar a escrever. Fiquei travada, como dizem dos computadores. Tudo se passou como alguma coisa que dizia: Deixa de ser besta, Eliúde! Tu, igual a Graciliano, é ruim... hein! Cai na real! E eu ali, travada. Escrevo não escrevo?
Jameson meu colega e amigo aqui na CIT, que também passou aperto em São Paulo mas não quer escrever sobre isto, vinha passando e eu contei um pouco minha situação e ele disse:
- Quer um conselho, Eliúde? Leia o Graciliano de novo. O que tu tens é medo do sucesso instantâneo, mas se você não escrever, bau, bau, acabou...e se escrever pode não acabar, e aí você, mesmo sem querer sucesso, pode mostrar alguma coisa boa para o mundo como fez o Graciliano.
Porreta este Jameson. Li o Graciliano e destravei. Estou aqui sentada escrevendo ou tentando pelo menos fazer isto.
Antes de começar o que tenho prá contar hoje devo dizer que a leitura de Vidas Secas de novo, depois de escrever sobre minha saída do Pau Grande, foi uma coisa espetacular. Não lembrava dos nomes Fabiano, Sinha Vitória, do filho mais novo e do filho mais velho mas, pode ser que em nossa saída, meu pai tenha dito a Eraldo meu irmão, que era o filho mais velho, a mesma coisa que disse Fabiano para o filho mais velho dele:
- Anda, condenado do diabo...
Estas letras de hoje se sairem boas vão ser em homenagem a Baleia. A cachorrinha que me fez chorar outra vez. Se saírem ruins vão prá seu Tomás da bolandeira que lia muito mais não incentivava os outros a ler.
Quando subimos no pau de arara tudo era novo para mim. Até os bancos eram feitos de uma tábua arranhenta, diferente daquele pau lisinho do banco do nosso alpendre no Pau Grande. Não havia lugar para todo mundo, principalmente para os meninos que iam nos colos de suas mães ou irmãs mais velhas. Não sei se hoje, aquela região é machista do mesmo jeito que era antes. Só hoje posso comparar, naquela época nem ligava prá isto. No pau de arara não vi nenhum homem com menino no braço, ou dando mamadeira. Não chegaria a tanto de querer que eles dessem de mamar pois eles não tem este privilégio, mas custava pegar uma criança no braço? Hoje mudou um pouco nós já temos até emprego de secretária e eles leem o que escrevemos, vamos em frente....
Crianças eram várias, inclusive eu. Mas, com a minha idade, penso que tinha uns 9 ou 10 anos nunca sei ao certo, não fazia mais minhas necessidades na roupa. Os pequeninos sim, estes faziam onde desse vontade e nunca vi algo mais fedorento. Eram verdadeiras bombas de napalm ou gás paralisante deixando a todos incapacitados para as atividades normais. A grande alegria era quando víamos passar rente às madeiras da coberta do caminhão, um pacote de papel, normalmente de jornal, carregando toda aquela melequeira que se espatifava fora da estrada. Ao longo da viagem fui me habituando e os pacotes dos meus irmãos eu tinha o prazer de jogar, dizendo:
-Lá vai bomba!!!
Naqueles dias pensei que cocô de menino nunca mais. Ledo engano. Em São Paulo, não tive filhos mas tive um monte de sobrinhos, e haja cocô, até com colorido diferente, quando começaram a comer comida da cidade. Quando voltei para o nordeste, e não foi por excesso de cocô de criança, vim de ônibus. Aí foi que vi quanto é bom andar num pau de arara. No ônibus não havia brecha para as bombas infantis se dissiparem. Eram bombas com ar condicionado. Não sei como sobrevivi, foi Deus mesmo!
Se disse que não havia muito lugar para crianças, imaginem, para cachorro. E conosco, não me lembro como, se era proibido ou permitido, viajaram dois cachorros. Um cachorro e uma cadela. Ia dizer cachorra mas agora “cachorra” é uma jovem que vai para o bailes “funk” dançar com as “preparadas”.
Eram de Seu Sebastião, que viajava com a mulher e uma filha, já moça. Segundo as conversas de minha mãe com outra mulher, ela tinha se perdido com o namorado e o pai tomou desgosto e estava levando ela prá São Paulo. Não entendia o que era perdida e ainda hoje não entendo, perdida porque? Pensava na época, será que não encontraram o namorado também? Hoje sei, que ele podia ter fugido ou estar morto. Depois fiquei até amiga dela durante a viagem, mas isto é outra história.
O fato é que Seu Sebastião trazia Rex e Carura, os cachorros, por quem ele demonstrava mais afeição do que pela filha dando de vez em quando um pedacinho de carne seca prá eles e nunca vi ele dar prá filha. A esposa passava com farinha mesmo. Esta discriminação positiva pelos animais não me fez desgostar deles durante a viagem. Eles eram tão magros quanto dóceis e me divertia muito com eles. Eram pequenos, o Rex parecia ser mistura com Pequinês e Carura já era vira-lata puríssima, tinha o pelo bem curtinho.
Durante a viagem, não só foi a menina que conversava com meu irmão Eraldo que entrou no cio, Carura também entrou. Igual ao que acontecia com Eraldo atrás da menina, Rex só vivia atrás da Carura, naquela época, não sabia porque, do mesmo jeito que os pais gritavam com Eraldo, também gritavam com o Rex:
- Sai daí safado! Sai daí!
E tacavam uma esteira as vezes uma casca de fruta no Rex, quando ele chegava para sentir o corpo, para ele, cheiroso de Carura. Ela nem se importava, ficava era feliz igual a “namorada” do Eraldo. Quando vi meu pai e o pai da menina ralhar com Eraldo pensava que era pelo mesmo motivo que eles ralhavam com o Rex, e era.
Isto ajudava a passar a viagem de uma forma menos sofrida pelos adultos, eu mesma só me divertia. Nem prestava atenção para a mudança da paisagem de um chão molhado das matas de Bom Conselho para o agreste marrom de certas terras que passamos e finalmente para as terras marron e molhadas de São Paulo, até entrarmos no cinza do calçamento quando chegamos.
Antes disso, me lembro de Seu Sebastião contando sobre Rex e Carura. Dizia ele:

- Rex e Carura já tiveram filhotes. Formaram uma família, junto com os filhos Bob e Dorli. Mas, como vocês sabem família de cachorro dura pouco. Tivemos, quando abriram os “olhinhos” de dar eles para duas famílias, uma era vizinha nossa outra vivia num sítio, perto do Papacacinha. Ficamos com os velhos, são o meu xodó, e não podia deixar eles, pedi pro motorista ele trouxe.

Continuou, nem se dando conta de que família de pobre, igual a cachorro, também se desfaz com facilidade até hoje. O que estava acontecendo com a gente? Meu pai, a duras penas, e choros, conseguiu trazer sua mulher e filhos na aventura em busca da terra prometida, mas deixou seus pais e irmãos lá em Bom Conselho. Nunca mais voltou para vê-los. Da mesma forma que Rex e Carura nunca mais veriam seus filhos. No caso deles, mesmo que voltassem. Continua Seu Sebastião:

- Bob, não puxou a nenhum dos dois, era maior do que eles. Parecia raciado. Parece até que o Rex era chifrudo, a Carura andou passando a perna nele, quem sabe com o cachorro de cumpadre Chico. Sei não... posso estar pecando. Foi o primeiro a morrer. Morte besta, mas comum naquela época em Bom Conselho. Os cachorros gostavam de ir para o açougue sentindo o cheiro da carne. A Prefeitura dizem prá evitar cachorro doido mandava dar “bola” a eles. Era um veneno misturado com carne, e quando eles comiam a carne morriam. Vi Bob passar numa carroça cheia de cachorro morto, para ser jogado no lixo. Dorli, morreu ao comer veneno no sítio, que era para matar formigas.

Vida de cachorro. Ao reler Vidas Secas, me lembrei da morte de Bob e Dorli. Fui às lágrimas pela segunda vez, lendo a cena da morte de Baleia, talvez, prima distante deles, enquanto o grande escritor a descrevia na hora de sua morte:

“Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.”

Eu ficava imaginando o que Bob pensaria na hora da morte. Certamente, não há preás na área urbana, portanto, nem com isso ele podia sonhar. Mas, poderia sonhar com uma
televisão de cachorro enorme, assando aqueles frangos enormes e gordinhos com uma tabuleta dizendo: Estes são para Bob e sua família. Talvez, atualmente, ainda existam cachorros na cidade que morrem sonhando com isto. Só cachorros?
Sei que Carura e Rex chegaram ao seu destino. Como nós, sem saber o que os esperavam. E, se cachorro tem esperança, eles eram iguais a meu pai, seu rosto estampava isto, esperança. Chovia em Guarulhos quando descemos do caminhão, fazia frio também, as roupas molhadas incomodavam mais. Seu Sebastião, como sempre protegia Carura e Rex. Nunca mais tive notícias deles, ou daquelas vidas molhadas.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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(*) Imagens da Internet.

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