quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dialogando Francamente - 2

Caro dialogador Cleómenes Oliveira, bom dia!!!

A esperança de continuidade dos nossos diálogos esta confirmada. VAMOS DIALOGAR!!!. Posso escapar de ir direto para o inferno, sem direito a “sursis”, mas dessa troca de figurinhas vai ser impossível me escafeder.
Terminei ontem à noite uma leitura, superficial, do livro “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins, UFA!!! É preciso ser papacaceiro, macho, para agüentar ler esse livro até o fim. Brincadeirinha. Valeu à pena suportar a leitura dos capítulos iniciais (pra quem não é biólogo, nem pretende estudar biologia, esses capítulos são um pé no s...) e chegar ao décimo primeiro e último capítulo: “Memes: Os Novos Replicadores”. MARAVILHA!!! Maravilha o conteúdo desse capítulo.
Outro dia, manifestei no site de BC a dificuldade de compreensão quando não se tem domínio de uma linguagem técnica ou mesmo particular empregada numa comunicação. Por isso, o sacrifício da leitura dos primeiros capítulos, para uma familiarização com a linguagem utilizada pelo autor (um biólogo), julgo ser necessário. Com certeza, essa familiarização nos leva a uma melhor compreensão dos conceitos apresentados nesse último e importante capítulo.
No último e-mail que te enviei, mencionei que ia reler, mais refletidamente, “O Gene Egoísta” paralelamente com a releitura do livro “A Teia da Vida” de Fritjof Capra, para começarmos a trocar figurinhas. A idéia inicial era essa, mas após a leitura do capítulo sobre os “Memes” mudei de idéia. Vamos começar a trocar nossas figurinhas JÁ. Se tivesse jogando tênis diria: vamos trocar umas bolas JÁ.
Antes de apresentar minhas primeiras figurinhas, quero te lembrar que você manifestou outro dia, quando falávamos sobre a existência de Deus, que sentia que estávamos próximos. Agora sou eu que digo: o conceito de “Memes” é quem vai nos aproximar nesse momento.
Vamos à brincadeira do BAFO (bater figurinhas)!!! Vamos lá, agora é na “vera”. Vou colocar minhas “figurinhas”.
Ontem, fui dormir refletindo sobre o quanto o conceito de “Memes” (replicadores), de Richard Dawkins, é semelhante ao conceito de “Pensamentos” (entidades autônomas), da concepção logosófica de González Pecotche. Veja alguns trechos que retratam os conceitos desses dois pensadores:

“... Precisamos de um nome para o novo replicador, um substantivo que transmita a idéia de uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação. "Mimeme" provém de uma raiz grega adequada, mas quero um monossílabo que soe um pouco como "gene". Espero que meus amigos helenistas me perdoem se eu abreviar mimeme para meme. Se servir como consolo, pode-se, alternativamente, pensar que a palavra está relacionada à "memória", ou à palavra francesa ‘meme’.”
“Exemplos de memes são melodias, idéias, "slogans", modas do vestuário, maneiras de fazer potes ou de construir arcos. Da mesma forma como os genes se propagam no "fundo" pulando de corpo para corpo através dos espermatozóides ou dos óvulos, da mesma maneira os memes propagam-se no "fundo" de memes pulando de cérebro para cérebro por meio de um processo que pode ser chamado, no sentido amplo, de imitação. Se um cientista ouve ou lê uma idéia boa ele a transmite a seus colegas e alunos. Ele a menciona em seus artigos e conferências. Se a idéia pegar, pode-se dizer que ela se propaga a si própria, espalhando-se de cérebro a cérebro. Como meu colega N. K. Humphrey claramente resumiu uma versão inicial deste capítulo:”. . . Os memes devem ser considerados como estruturas vivas não apenas metafórica, mas tecnicamente. Quando você planta um meme fértil em minha mente, você literalmente parasita meu cérebro, transformando-o num veículo para a propagação do meme, exatamente como um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira. “E isto não é apenas uma maneira de falar – o meme, por exemplo, para “crença numa vida após a morte” é, de fato, realizado fisicamente, milhões de vezes, como uma estrutura nos sistemas nervosos dos homens, individualmente, por todo o mundo.”
(O Gene Egoísta, pg. 112 Richard Dawkins)

Em nossa concepção, os pensamentos são entidades autônomas que se procriam e adquirem vida ativa na mente humana, de onde podem passar depois a outras mentes sem a menor dificulda­de. Daí que muitas pessoas, sem se incomodar em pensar, aparecem emitindo não poucas opiniões. Trata-se de um fato curioso. Não exercitam a faculdade de pensar, porém favorecidas por certa facilidade memórica, recolhem do ambiente todo pensamento que as impressiona e o fazem seu, mostrando-se posteriormente como se dominassem tal ou qual questão. Esta apropriação do alheio ainda se admite quando se faz uso de pensamentos que provém de mentes nas quais foram incubados sem ordem e sem depender de nenhuma subordinação ética, isto é, pensamentos sem transcendência alguma. ...” (Mecanismos da Vida Consciente, Pg.82 Carlos Bernardo González Pecotche).

Apesar de filósofos e sábios haverem exercido, tanto na antiguidade como nas idades moderna e contemporânea, a faculdade de pensar, nenhum deles atribuiu jamais vida própria aos pensamentos, nem declarou que pudessem reproduzir-se nem ter atividades dependentes e independentes da vontade do homem”.
“Afirma serem entidades psicológicas que se geram na mente humana, onde se desenvolvem e ainda alcançam vida própria. ...”.
“Os pensamentos, apesar de sua imaterialidade, são tão visíveis e tangíveis como se fossem de nature­za corpórea, porque, se é possível ver com os olhos e palpar com as mãos físicas um ser ou objeto desta última manifestação, os pensamentos podem ser vis­tos com os olhos da inteligência e palpados com as mãos do entendimento, capazes de comprovar plenamente sua realidade subjetiva
”. (Logosofia Ciência e Método, Pg.51/2 Carlos Bernardo González Pecotche).


O Trecho do Dawkins e os trechos da Obra Logosófica, na minha compreensão, revelam claramente, que os dois pensadores estão falando da mesma “coisa”: MEME É PENSAMENTO (é como diz o Krishnamurti: a palavra não é a “coisa"), eu não tenho dúvida dessa semelhança.
Ao selecionar trechos de ensinamentos logosóficos para relacionar “memes” com “pensamentos”, em nossa troca de figurinhas, o fiz por entender que os conceitos apresentados por González Pecotche são mais compreensíveis, para os nossos propósitos, do que os de outras fontes. Além disso, retratam adequadamente o meu conceito sobre essas “entidades autônomas/replicadores”. Também, foi nessa fonte onde mais me detive para estudá-las.
Agora, como lidar com os “memes/pensamentos” alojados no meu cérebro, que constituem o meu “Eu”, atualmente, recorro aos ensinamentos do Krishnamurti. Reconheço que esses ensinamentos, muitas vezes, não são fáceis de compreender. E mais difícil, ainda, é aplicá-los à própria vida, mesmo assim, vou aprendendo a tirar o sumo dessa “fruta”. E faço isso por entender que, na atualidade, é a melhor árvore frutífera que podemos dispor para esse fim. Penso que os ensinamentos abaixo, não são tão difíceis de compreendermos:

Nos seres humanos fomos ‘programados’ biologicamente, intelectualmente, emocionalmente, psicologicamente, durante milhares de anos e repetimos reiteradamente o padrão desse programa...”.
“... o homem? Ele foi programado para ser católico, protestante, para ser italiano ou inglês, e assim por diante. Durante séculos ele foi programado – para acreditar, para ter fé, para seguir certos rituais, certos dogmas; programado para ser nacionalista e ir à guerra. Desse modo, o seu cérebro tornou-se tal como um computador,...”
“... Paramos de aprender e devemos indagar se o cérebro humano, que foi programado durante tantos séculos, será capaz de aprender ainda e de se transformar de imediato numa dimensão totalmente diferente...”
(A Rede do Pensamento – J. Krishnamurti, Palestras em Saanen, 1981)

Krishnamurti quando indagado se um cérebro que permanece na ignorância auto-gerada, desgastado com o conflito resultante dessa ignorância, pode ser revitalizado ele sugere que: através do discernimento, o cérebro pode sofrer mudanças e atuar de modo organizado, provocando assim a cura do dano que lhe foi infligido durante muitos anos de mau funcionamento e que esse discernimento tem origem numa energia que transcende o pensamento, o tempo e a matéria. Desse modo, o que atua é a organização do Universo como um todo, do ser como um todo, tanto no seu aspecto físico como no seu aspecto mental. E que tampouco isso diz respeito apenas à raça humana.
Bem, mas as figurinhas da coleção do Krishnamurti ficam para outro “bafo”, vamos voltar a brincar com as figurinhas dos “Memes/Pensamentos”.
VIXE!!! Meu “gene jogador”, ou é “meme jogador”? está me seqüestrando para ir brincar com bolinhas amarelas com uns parceiros lá no Praia Clube.
Fui!!! Agora é a sua vez de jogar. BAFO!!! Um abração.

Roberto José T. de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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Caro Roberto,

Não pude responder a alguns dos seus e-mails. Estava vendo agora na lista. Não há coisa pior do que e-mail acumulado e que merece resposta. Peguei esta aqui para responder um pouco a todos. Quanto ao texto que você mandou corrigido foi usado para a publicação final. Nosso diálogo já está no ar. Pelo menos a Lucinha me disse que tinha programado pare ele sair as 6:00, espero que ela não tenha colocado da noite. Ela também respondeu no mural ao seu comentário, li ontem. Lucinha é a "carola" mais legal que conheço. É uma prova de que pode-se ser religioso e ainda ser um ser humano que causaria inveja a qualquer "máquina de sobrevivência". Infelizmente nem todos são assim.
Você começou "pesado" o segundo diálogo. Eu não reli nem o terceiro capítulo do Gene Egoísta ainda. Ainda não posso fazer considerações mais profundas sobre o que você escreveu, isto supondo que eu aguente águas profundas como você. Mas, lembro do conceito de "Memes". Eu também não sou biólogo, já estive mais para astrólogo, e por isso também tive dificuldades no início. Mas vale a pena até chegar a este conceito. Já vi alguns críticos do Dawkins dizerem que é a única coisa que se salva do livro. É um exagero, penso eu.
Você já deve ter percebido que escrevi isto tudo porque ainda não tive o tempo necessário para digerir o seu e-mail unindo Pecotche, Krishnamurti e Dawkins. Mas a idéia é interessante. Se der certo, tenho certeza três pessoas rirão muito: eu, você e Marlos. Mas vamos no tempo da evolução Universal no segundo diálogo. Um abraço.

Cleómenes Oliveira - cleomenesoliveira@citltda.com
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Veja: Dialogando Francamente - 1

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