quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Escola



Desde que recebi um documento, meu registro civil, me tornei gente. Abriram-se as portas da esperança. Não me lembro o ano exato mas o Silvio Santos, nossa diversão domingueira, tinha um programa com nome parecido onde ele dizia: “Vamos abrir as portas da esperança!!!”. Mas isso foi depois. Com os documentos na mão, não só eu mas também meus pais e meus irmãos tinham a esperança renovada. Descobri, sem muito custo, que esperança só enche barriga no futuro. Meu pai demorou um pouco a arranjar emprego e na casa do cumpadre Caetano a coisa “tava preta”. Não era má vontade mas seis bocas a mais abalaria qualquer finança e a do Caetano não era das maiores.
A filha de dele, a Lidinha estudava num escola bem perto de casa. Ela já lia alguma coisa, me mostrava umas revistas velhas e dizia com um ar de “sabidona”, Eliúde esta letra é um “A” tu não sabes nem o “A”? Sendo sincera eu respondia: não, não sei. E confesso àquela altura não sabia a diferença entre saber de um “A” ou não. Ainda estava em cima de uma mangueira qualquer no Pau Grande e nunca precisei de “A” e nem mesmo de “B”. Como hoje dizem: “A ficha ainda não tinha caído”. Mas não demorou muito ela caiu e na minha cabeça e parecia de chumbo porque doía muito. Meu pai sofria mais, tinha que trabalhar e prá onde se virava a pergunta era a mesma: Sabes o “A”? Ele respondia o mesmo que eu, mas com uma terrível responsabilidade de dar de comer aos filhos. Precisava tanto do “A”, mas nunca teve tempo de consegui-lo tendo que enfrentar a vida sem ele.
Enfim, meu pai se arranjou, não sei bem como e nos tirou da casa do “cumpadre”. Ficamos perto e ele disse: “filho meu tem que aprender a ler e escrever, chega de sofrimento e você Eliúde já tá na idade de ir prá escola”. Nem fechou a boca e minha mãe já estava na Escola de Lidinha para eu estudar. Não era um prédio grande e tinha várias salas e um terreiro quase igual ao secador de café lá no sítio onde um bando de meninos brincava. Mais velhos e mais novos do que eu. Ouvi um som de sino ou campainha e aquele monte de meninos correu para dentro das salas, e eu ali segurando na mão de minha mãe. Entramos numa sala e o seguinte diálogo se passou, com o desconto das condições de minha memória:
- Bom dia Dona Berenice, seu Caetano falou da senhora. E esta menina linda vai ser nossa aluna?
Eu já estava curada dos olhos e, sem modéstia, era uma menina bonita. O “era” é modéstia mesmo. Mas quando nos acham linda, mesmo criança, a gente fica alegre. Hoje eu corro logo atrás de quem disser isto, se for homem é claro...
- Pois é professora Clara, trouxe a Eliúde, os outros ainda são pequenos ou grandes, os pequenos não podem vir e os grandes também não, precisam trabalhar para ajudar. Por enquanto só esta.
Eu ali sentada na frente da Dona Clara, era a diretora. Falaria com ela um montão de vezes depois disto.
- Bem eu preciso do registro dela e de saber se ela já sabe alguma coisa.
- Não sabe nem do “A”. Lá em casa é tudo “burro xucro”.
- Então ela vai para a classe de Dona Aurinha, todos começam lá. Só não deixe ela faltar à escola, e breve ela estará sabendo até o “Z.
Sem saber muito o que estava se passando fomos embora e assim começa minha vida escolar que continua até hoje, na grande escola da vida mas, fiquemos no passado.
No primeiro dia de aula foi um horror. Não conhecia ninguém e nem encontrava a Lidinha. Uma moça veio até mim e disse: Qual é sua série? Não sabia. Como é seu nome? Eliúde, respondi. De que? Villela, respondi de novo. Ela olhou num papel e disse vá para aquela sala e espere a professora. Fui. Sentei numa cadeira com uma mesa grande em frente, onde já estavam alguns meninos e meninas. Todos mais jovens do que eu, com exceção de um menino que parecia ter a minha idade. Entrou uma senhora gorda e o que notei de diferente é que ela não tinha feito a barba, estava quase igual a de meu pai no Pau Grande, exagerando um pouco. Fiquei pensando que as mulheres de São Paulo tivessem barba e hoje sei que só tem aquelas provenientes de algumas regiões da Europa, e não explico aqui porque senão este texto fica muito cultural.
Para resumir, depois de apresentações e outras conversas me vi cobrindo umas letras que dona Aurinha disse serem as vogais e me dito seus nomes. Cobri o “a”, cobri o “e”, cobri o “i” e cobri tudo enfim. Cheguei em casa alegre e disse a minha mãe: “agora já sei o “a” e outras letras também”. Nem pensava que ao cobri o “a”, todos nós podemos um dia descobrir o mundo. Depois de cobrir as letras de Dona Aurinha, passei a imitá-las, copiando-as freneticamente e depois passei a ouvi-las e escrevê-las. Em pouco tempo eu já lia o nome no caderno daquele menino da minha idade, o Sérgio Lacombe, chamavam ele de Serginho. Li primeiro o caderno dele do que ele o meu, diferença de dedicação ou inteligência, nunca sabemos ao certo mas isto não importa, gostava dele mesmo assim. Ele de vez em quando olhava prá mim como o Eraldo olhava para aquela menina no pau-de-arara, naquela época não sabia nem o que era, hoje sei, é tudo safado. Cantarolo com Lucinha: “Você não vale nada mas eu gosto de você...”. Foi um grande amigo durante muito tempo e algumas coisas mais, só que estou na escola agora, vamos por parte.
Aprendi a ler a escrever, passei de turma e já me sentia gente, isto é, gente de lá, porque no fundo sempre fui mais gente no sítio, onde me sentia muito feliz sem “mas” nem meio “mas”. Não sei em que série me mandaram decorar e recitar uma poesia num festa de fim de ano, ainda hoje sei de cor. Foi tão importante e para mim hoje ainda é tão bela que a transcrevo prá vocês abaixo:

Minha terra tem mangueiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinha, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem mangueiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinha, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem mangueiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as mangueiras,
Onde canta o Sabiá.

Fui na internet e vi, esta poesia chama-se Canção do Exílio e seu autor é Gonçalves Dias. Na versão em que recitei não havia mangueiras, só palmeiras, e óbvio o “sozinha” era no masculino, hoje posso colocar uma versão mais pessoal. No Pau Grande também não havia Sabiá, pelo menos nunca vi, mas não encontrei um passarinho com rima decente, e preiá não canta e não é uma boa rima. Esta poesia me soa atual até hoje para mim. Muitas vezes sinto-me num exílio e mesmo se houvesse uma Lei de Anistia para os expulsos do Pau Grande, seria difícil voltar. Lá não temos mais mangueiras como nunca tivemos Sabiá. Nem sei mesmo se tem escola para as novas Eliúdes, Antônios e Eraldos que hoje lá habitam. Prefiro hoje o Exílio, e sonhar escrevendo sobre minha vida por aqui mas sempre me vendo sentada no banco lisinho no alpendre e vendo as abelhas fazer mel. A Escola ainda me deu esta chance.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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