sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Lei Moral


No aprendizado para ensaísta informal, redigi um texto sobre o tema “O Mestre e o Aprendiz”. Nele, manifestei que no caminho para o autoconhecimento e a busca da Verdade é necessário ser simples, e nessa caminhada munir-se de um mínimo de apetrechos, entre estes “A Lei Moral de que fala Collins”. Após reler o referido texto, senti a necessidade de explicitar alguns pontos sobre a Lei Moral. Francis Collins é autor do livro “A Linguagem de Deus”, e nessa obra vem à baila a questão da Lei Moral. A argumentação que Collins apresenta sobre essa lei reflete o pensamento do apologista cristão C. S. Lewis. Mais recentemente, em uma palestra sobre ciência e crença, Collins apresentou sinteticamente a seguinte argumentação sobre essa lei:

Depois da evolução ter preparado uma “casa” suficientemente avançada (o cérebro humano), Deus atribuiu à humanidade o conhecimento do que é bom e mau (a lei moral), o livre arbítrio, e uma alma imortal”.

Nós, os humanos, usamos o nosso livre arbítrio para quebrar a lei moral, o que causa o nosso distanciamento para com Deus. Para os Cristãos, Jesus é a solução para esse distanciamento”.

Richard Dawkins autor do livro “Deus, um Delírio” e, talvez, o principal polemista de Collins, ataca a fé filosoficamente, historicamente bem como cientificamente. Dawkins se contrapõe aos conceitos de Collins sobre essa lei com a seguinte argumentação:

“... a ‘Lei Moral’ não estaria baseada numa doutrina religiosa, ela seria uma conseqüência das pressões evolucionárias do impulso de perpetuação da espécie humana, isto é, dos genes egoístas do indivíduo.”
Apesar de Collins e Dawkins estarem na atualidade sob os holofotes da mídia polemizando sobre ciência e religião, e nessa discussão se inclui a Lei Moral, não são eles os precursores das teorias sobre a mesma. Desde a antiguidade teólogos e filósofos especulam sobre essa lei. Para os teólogos, a Lei Moral nasce da revelação que Deus entrega aos fundadores de religiões, em diferentes épocas e lugares. Enquanto que, para os filósofos a Lei Moral envolve a ética ou filosofia moral. No Ocidente, essa especulação filosófica inicia-se com Sócrates e tem seu ápice nas teorias apresentadas por Immanuel Kant, no início da era moderna.

Para Kant a Lei Moral é a expressão do conteúdo incondicionado do Dever Moral e um Imperativo que não depende de condições (se..., acaso..., desde que...). Ela é baseada na idéia de que os seres humanos são racionais e independentes, e toda ação deve ser tomada com um senso de responsabilidade ditado pela razão. Segundo Kant, a Lei Moral não está submetida ao determinismo natural nem aos interesses egoístas ou desejos arbitrários. Para ele, o ser humano só se realiza plenamente se for autônomo, ou seja, submetendo suas decisões à sua Razão.

Posto isso, qual é o meu entendimento sobre a Lei Moral de que trata Collins, Dawkins, Kant e tantos outros?

Penso ser a Lei Moral imanente ao ser humano. Ela é uma manifestação da Verdade, de Deus, ou do que quer chamemos essa Realidade, na vontade humana. Entendo que essa manifestação só é possível numa mente não condicionada por “memes/pensamentos” das religiões e/ou das ideologias. Na mente humana, o espaço incondicionado disponível para que essa lei se manifeste é inversamente proporcional a quantidade desses “memes/pensamentos” abrigados nela.

Entendo que a Lei Moral tem sua maior expressão quando à razão não está submetida ao egoísmo humano. Quando agimos por dever e não por interesse. Agir por dever é reverenciar a autoridade moral da virtude. A ação virtuosa não espera nenhuma recompensa aqui na terra, nem nenhum lugar privilegiado em algum céu, ela é um bem em si e por si. Quando a ação é fruto do pensar correto e não do pensamento, a Lei Moral se manifesta.

Kant fundamenta sua moral recomendando ao ser humano: “Age sempre de maneira a que a máxima da tua ação se possa tornar numa lei universal, válida para todos os seres racionais.” Essa sentença de Kant consubstancia minhas reflexões sobre Lei Moral. Ou seja, penso que nos nossos relacionamentos devemos ter uma conduta tal que seja admitida por todos os seres humanos. Nada caracteriza melhor essa conduta do que a conhecida máxima popular: “Não fazer aos outros aquilo que não queremos que os outros nos faça”. Esse é para mim, o preceito norteador da razão em relação à Lei Moral.

Roberto Lira – rjtlira@yahoo.com.br

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