sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Mestre e o Aprendiz



Como aprendiz a ensaísta informal, vou procurar exprimir uma compreensão pessoal e íntima da realidade que observo e compreendo sobre o tema “O Mestre e o Aprendiz”, sem me basear em formalidades externas como documentos e provas de caráter científico, portanto, apenas um auto-exercício da razão.
Quando ocorre um aprendizado (mudança de comportamento ou aquisição de um saber) por certo há alguém ou algo que facilitou, que guiou essa aprendizagem. Comumente essa tarefa se inicia com nossos pais, segue com a ação dos educadores das instituições de ensino formais e/ou informais, é complementada pelos amigos conselheiros e em algumas situações por “guias espirituais”. Sem demérito ou falta de gratidão a esses Mestres que tanto contribuem para nossa formação, vou ater-me nesta ginástica do intelecto sobre o “Eu” como Mestre de Si Mesmo.
Ao observarmos o processo de aprendizagem das diversas condutas (motoras, intelectuais e morais) na espécie humana, podemos perceber que nem sempre os melhores resultados decorrem de ação pedagógica efetiva ou predominante de terceiros. Por exemplo: Para andar, uma aprendizagem psicomotora básica, a maioria das crianças começa a andar antes de aprender a fazê-lo com seus pais. Os pais, verdadeiros Mestres, observam os esforços dos filhos como desvelo e paciência, e por serem sábios, acompanham o processo sem muita interferência. Como conseqüência, além da criança aprender a andar muito bem, desenvolve a confiança no processo natural de aprendizado que existe dentro dela. Ela não precisa que alguém lhe segure pelos braços ou do apoio de um andador, necessita apenas ter interiorizado uma imagem visual de alguém andando para desencadear o processo. Quando os pais tentam acelerar esse processo, ocorre uma intervenção indevida, pois não é possível saber a hora que a criança está madura para realizar a transição do engatinhar para o caminhar. Na ocorrência de uma intervenção indevida, não só o processo da aprendizagem é retardado como, também, a saúde da coluna vertebral do futuro adulto é comprometida.
Em muitas oportunidades, como professor e/ou treinador na área da atividade física, pude observar em meus alunos e/ou atletas, que muitos processos de aprendizagem e/ou desempenho ocorriam de forma mais rápida e com melhor qualidade quando minha intervenção pedagógica era mais restrita. A apresentação de uma imagem visual do gesto a ser adquirido, complementada com uma explicação sucinta do resultado a ser obtido apresentava melhores resultados, do que quando os acudia com muitas informações e seguidas correções ou cobranças.
Não quero aqui, deixar a idéia que um preceptor seja dispensável no processo de aprendizagem. Um Mestre, conhecedor do comportamento ou saber a ser adquirido, experiente por já tê-lo vivido, tem um importante papel nesse processo, talvez, não do tamanho que ele geralmente se atribui. Na aquisição do saber comum, penso ser necessário que os preceptores abram espaço para que o aprendiz desenvolva seu processo natural de aprendizagem, acrescido da possibilidade do aprendiz aprender a aprender.
E quanto ao saber transcendente, o auto-conhecimento e a busca da Verdade, qual o papel do Mestre e qual o papel do Aprendiz? Isso para mim tem sido uma grande inquietude. Essa inquietude surge por observar uma tendência profundamente arraigada no ser humano de estar sempre a procura de um guia e o aceitar como autoridade espiritual (os messias, os sacerdote, os gurus, etc.). Fico pensado, de onde vem esse impulso para procurar quem nos guie e obrigarmo-nos a dependência e a veneração dessa autoridade? Será que ele se origina no temor e, por isso, desejarmos um refúgio seguro e seguirmos aqueles que se apresentam para nos guiar? Ou será que a tradição, a educação nos condicionou a padrões de obediência e dependência? Haverá uma saída para nos livrarmos essa dependência da autoridade exterior, para sermos verdadeiramente livres? Me parece que pela obediência, pela dependência não alcançaremos essa liberdade. A liberdade, o caminho para o auto-conhecimento e a busca da Verdade, me parece, só pode ser pela compreensão e pela ação do “Eu” como Mestre de Si Mesmo.
Cada indivíduo, nessa terra da “Mãe Gaia”, deve aprender a caminhar nessa vida e, também, para “outra vida” pelo processo natural de conhecer a si mesmo. Se ele for um caminhante que confia na Sabedoria da Natureza ele será muito simples, ele usará para essa caminhada apenas os apetrechos necessários, que para mim são: A Lei Moral de que fala Collins; o conhecimento e domínio dos “memes/pensamentos” de que fala Dawkins e outros estudiosos e a advertência contida na resposta que o Krishnamurti deu em uma entrevista em março de 1983, ao descobridor da vacina contra a pólio, Dr. Jonas Salk, a uma questão apresentada por este. Disse o Dr. Salk: "Ouvi o senhor dizer uma vez, que há pessoas capazes de ajudar as outras com suas qualidades excepcionais". Krishnamurti respondeu: "Ninguém pode guiar ninguém, nem dizer-lhe o que deve fazer, e nada disso faz sentido. Mas como o sol, algumas pessoas podem trazer luz e calor. E quem quiser ficar ao sol, que fique. Os que preferirem a sombra, que permaneçam nela".
Para mim, os ensinamentos de um Mestre de Sabedoria devem funcionar como espelho, onde nossa conduta é refletida. Quando conseguirmos enxergar nossa própria conduta nos nossos relacionamentos, que na realidade é a nossa própria vida, podemos dispensar o uso do espelho. Desse modo, o verdadeiro Mestre é aquele que não faz do Aprendiz um indivíduo dependente da sua Sabedoria.

Roberto José T. de Lira - rjtlira@yahoo.com.br
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(*) Imagens de Krishnamurti, usadas pela CIT, da Internet.

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