sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Diálogo com JK sobre as Religiões



RL: Amigo JK, estava aqui deitado em uma rede......refletindo sobre a vida, procurando reorganizar umas idéias, então, resolvi ativar nossa “rede de conversações”, por isso aqui estou.

No universo que se define como Religião são encontradas várias crenças e filosofias. As crenças contemplam a existência de um princípio superior e de seres sobrenaturais, que teriam o poder de determinar e/ou influenciar o destino dos seres humanos. Derivam dessas crenças Deus(es), semideuses, anjos, demônios, santos, etc., bem como um conjunto de rituais e códigos morais. As filosofias, por sua vez, dispensam as divindades e se voltam para o desenvolvimento de valores morais, códigos de conduta e sentido cooperativo nos relacionamentos.

Quando buscamos a etimologia da palavra Religião, encontramos que ela deriva dos vocábulos religio e religare (“religar”, “ligar com”, “ligar novamente”). Vários significados são sugeridos: poderia significar a tentativa humana de "religar-se" a suas origens, a seu(s) criador(es), a seu passado; ou, restabelecer a ligação perdida com o mundo que nos cerca ou com o nosso interior. Para o amigo JK, o que é religião?

JK: “Quer uma resposta de mim, ou prefere descobrir por si mesmo?

RL: Amigo compartilhador, como você sabe, nasci católico, participei de movimentos espíritas, fui membro da Sociedade Teosófica (Teosofia: corpo doutrinário que sintetiza Filosofia, Religião e Ciência), fui estudante da Fundação Logosófica por vários anos (Logosofia: doutrina ético-filosófica). Abandonei tudo isso. Mas, ainda, continuo buscando um sentido pra vida, assumi a tarefa de conhecer a mim mesmo e isso tenho feito ora solitáriamente, ora dialogando com os amigos que se dispõe a compatilhar compreensões e experiências. Por isso quero lhe ouvir, é hora de experimenar o seu “sapato”.

JK: “Para descobrir o que é verdadeira religião, você precisa afastar tudo o que estiver no caminho dessa descoberta. Se você tem muitas janelas coloridas ou sujas e quer ver a clara luz do Sol, precisa limpar ou abrir as janelas, ou sair de casa. Da mesma forma, para descobrir o que é verdadeira religião, você deve primeiro ver o que a verdadeira religião não é, e pôr isso de parte. Então poderá descobrir, porque, então, haverá percepção direta. Vejamos pois o que não é religião.
Fazer ‘puja’, cumprir rituais – isso é religião? Você repete muitas e muitas vezes um certo ritual, um certo ‘mantram’ em frente de um altar ou de um ídolo. Isso pode lhe dar uma sensação de prazer, uma sensação de satisfação; mas será isso religião? Vestir uma roupa sagrada, intitular-se hindu, budista ou cristão, aceitar determinadas tradições, dogmas, crenças – tem tudo isso algo a ver com religião? Obviamente não. Por conseguinte, a religião deve ser algo que só se poderá encontrar quando a mente tenha entendido e descartado isso tudo
”.

RL: A caminhada que acabei de referir me proporcionou ter descartado tudo isso, pode prosseguir.

JK: Religião, no verdadeiro sentido da palavra, não traz separação, não é? Mas, que acontece quando você é mulçumano e eu cristão, ou quando eu creio numa coisa e você nela não crê? Nossas crenças nos separam; portanto, nossas crenças nada têm a ver com religião. O fato de crermos ou não em Deus tem pouca significação; porque aquilo em que cremos ou em que deixamos de crer é determinado por nosso condicionamento, não é verdade? A sociedade em torno de nós, a cultura em que somos criados, imprime em nossas mentes certas crenças, certos medos e superstições a que chamamos religião; mas que nada têm a ver com religião. O fato de você crer de um modo e eu de outro depende, em grande parte, de onde tenhamos nascido, se nascemos na Inglaterra, na Índia, na Rússia ou na América. Assim sendo, crença não é religião, é apenas o resultado de um condicionamento.

RL: De fato, refletindo sobre essa sua manifestação não é necessário ir muito longe para concordar com ela. Mesmo assim, as Religiões continuam atraindo milhões de seres que buscam “algo” além da sobrevivência física, por quê?

JK: “Há, além disso, a busca da salvação pessoal. Quero estar seguro; quero atingir o ‘Nirvana” ou alcançar o céu; preciso encontrar um lugar junto de Jesus, junto de Buda ou à direita de algum deus particular. Sua crença não me dá satisfação profunda, conforto; por isso tenho minha própria crença. E será isso religião? Sem duvidam nossas mentes precisam estar livres de todas essas coisas para podermos descobrir o que é a verdadeira religião.

RL: Então, para o amigo, o que é a verdadeira religião?

JK: “E será a religião simplesmente uma questão de fazer o bem, de servir ou ajudar os outros” Ou será mais que isso? O que não quer dizer que não devamos ser gênerosos ou bons. Mas será só isso? Religião não será algo muito maior, muito mais puro, vasto, expansivo do que qualquer coisa concebida pela mente?
Assim, para descobrir o que seja a verdadeira religião, você precisa investigar profundamente todas essas coisas e libertar-se do medo. É como sair de uma casa escura para a claridade do Sol. Então você não perguntará o que é a verdadeira religião; você mesmo saberá. Haverá experiência direta daquilo que é verdadeiro
.”

RL: Obrigado amigo JK, vou fazer a minha parte: vou investigar tudo isso, reorganizar minhas idéias e caminhar SEM MEDO.

Roberto Lira - rjtlira@yahoo.com.br
-----------------------
OBS.: As manifestações de JK foram retiradas do livro “O Verdadeiro Objetivo da Vida”, editora Cultrix, pgs. 98 e 99.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O DIA EM QUE BOM CONSELHO PAROU - 7ª Parte - PROVAS (PERSONALIDADE E TENIS DE MESA)



Como vimos no ultimo artigo nossa cidade estava perdendo de 5x4, tinha começado a reagir, e tínhamos em Pedro de Lara nossa chance de empatar.

A nossa personalidade seria Pedro de Lara, que era conhecido nacionalmente fazendo um papel interessante como jurado do programa do Chacrinha, e já tinha trabalhado como jurado em Silvio Santos, e não se cansava de dizer para todo país que era natural de Bom Conselho de Papacaça, porém o nome de Chacrinha era mais forte que o de Pedro de Lara, isto ficou bem claro ao longo do programa, quando o jurado tinha alguma dúvida, decidia por Surubim, nós sabíamos que seria muito difícil ganharmos esta prova, e realmente aconteceu isto, Surubim ganhou e nós passamos a perder de 6x4.

Entre os anos 60 e 70 na casa de minha bisavó Rosa Feliciano, se juntava uma turma de moças e rapazes, para jogarem tênis de mesa. A casa de vovó Rosa pegava de um lado a outro da rua, ou seja, começava na rua 7 de setembro e terminava na Joaquim Nabuco, tinha um armazém grande, onde a rapaziada se reunia todas as tardes para jogar tênis de mesa e ali marcava o que fazer na noite, era o point de nossa cidade, freqüentava (Abel de dona Anália, Daniel Brasileiro, minha tia Ieda, Joanita Torres, Maria Cardoso, Florismário Vanderlei) etc., então devido a eles jogarem todos os dias eles ficaram craques no tênis de mesa, e foi escolhido Abel filho de dona Anália para ser o nosso representante nesta prova, infelizmente não ganhamos e terminamos a série perdendo de 7x4, a tristeza tomou conta da cidade que via fugir aos poucos a nossa chance de ganhar, Manuel fogueteiro estava inconsolável, pois se não ganhássemos ele não soltava os foguetes e se não soltasse os foguetes ele não ganhava dinheiro, e ele tinha investido muito dinheiro nos foguetes, pois a comemoração seria muito grande se nós ganhássemos e ele iria lavar a burra.

Alexandre Tenório Vieira - tenoriovieira@uol.com.br

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O QUE É SAUDADE?




Ultimamente, tenho lido aqui, alguns artigos sobre histórias do passado. Alguns de Ana Luna, Alexandre Tenório, Eliúde Villela, Jameson Pinheiro, Lucinha Peixoto, José Andando e outros.

Foram fatos que aconteceram na época da infância e juventude. São histórias que estão gravadas nas suas memórias e hoje recordam com saudade.

No pensar de Pablo Neruda: “Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida”.

Só sentimos saudade de um tempo em que as lembranças nos remetem a período de vida saudável, com muita paz, harmonia e amor. Muitas vezes no âmago da rotina de uma vida modesta, simples e de um dia-a-dia de convivência familiar e os mesmos amigos, não visualizamos a felicidade. Todavia, passado esse tempo, começamos a imaginar o quanto éramos felizes e não nos dávamos conta deste sentimento. E é nesta oportunidade que a saudade fala mais alto, nos remete a pensar como seria bom que o tempo voltasse e, assim, permitisse a renovação de todo aquele período.

O fato é que a saudade alimenta as almas dos poetas e, por isso, ela é sempre encontrada nos poemas de amor. Com isso, não vislumbramos a saudade como sinônimo de algo ruim e triste. Ter saudade é recordar de coisas boas e alegres que nos trazem um sentimento sempre presente de felicidade. Lembrar de algo que nos deixa cabisbaixo não é saudade, mas sim, pesadelo.

Na verdade, o que é saudade? É um vocábulo considerado por muitos, intraduzível. Inclusive, pesquisas promovidas por tradutores britânicos o apontam como a sétima palavra mais difícil de tradução.

O importante é que a saudade não nos deixe preso ao passado ao ponto de fazer emergir do nosso íntimo o medo do futuro, pois assim, estaríamos trucidando a beleza que é viver o presente.

Termino com a frase do paraibano Alcides Carneiro: “Recordar não é viver. Recordar é viver de lembranças e viver de lembranças é morrer de saudades.”
Ao meu leitor, um abraço.

Maria Caliel de Siqueira - mcaliel@hotmail.com

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dialogando sobre o Diálogo



Caro dialogador Oliveira, boa tarde!!!

Já estou em “Berlandia” e com vontade de começar a “jogar”. Vou sacar com slice e o objetivo é caracterizar o diálogo como uma fertilização mútua (in e-mail) para, como produtores e produtos de nós mesmos, irmos nos construindo. Ou como diz você: “nos levantando, puxando nossos próprios cabelos”. O saque é com slice por que antes da bola atingir o objetivo proposto ela vai fazer um pequeno desvio na sua trajetória, beleza?

O desvio se inicia comentando sua definição de ateu em seu último e-mail: “Ateu é aquele que não precisa de Deus”. Consinto com a essência e praticidade da sua definição. Se fosse eu que a tivesse proposto teria dito: ... não conta em vez de “... não precisa...” É a mesma coisa? Ou não? Sei lá. O importante é que consinto com a definição e com minha escalação no seu time. Desse modo, pode me considerar um ateu(zão), pode ser na posição de “volante”? Quanto ao resto do time que você escalou, não colocaria o meu amigo-irmão Marlos pra jogar. Não por que o bio dele já se foi, se assim fosse teria que barrar os outros dois (Krishnamurti e Fernando Pessoa) que os bios também já se foram, mas por perceber nos diálogos com o Marlos (e aqui já incluo o conceito de diálogo de Humberto Mariotti: “diálogo – reflexão conjunta e observação cooperativa da experiência”), que em alguns jogos, por exemplo, no jogo doença, ele se colocava vamos assim dizer: nas mãos de Deus. É claro que ele não tinha as expectativas da Lucinha e nem rezava por um lugarzinho no céu dela.

Nesse saque, caberia mais uma desviadazinha na trajetória antes da bola atingir o objetivo proposto. Seria sobre o que pensamos que somos, referido no último e-mail: se somos só bio ou algo mais que o comportamento dos genes. Mas esse assunto, refletir sobre o que somos, vamos deixar para outro jogo, beleza?

Agora é bola no objetivo. Em um e-mail que lhe enviei, há algum tempo, fiz uma proposta de estratégia para nossos diálogos: "que estes deveriam ser úteis para consolidar nossas compreensões e que estas pudessem ser incorporadas ao nosso viver diário", lembra? Pois bem, apesar de continuar sendo uma metamorfose ambulante, a idéia continua válida. Hoje, penso que até mais sólida, ou melhor, mais consciente. Por isso vou reforçar a importância deles e, mais que isso, justificá-la.

Em primeiro lugar vou destacar o diálogo à distância (por e-mail). Essa modalidade se por um lado perde o “olho no olho”, o afago, a troca de energia física, a mímica corporal ganha por outro ao evitar nosso automatismo concordo-discordo. Esse automatismo não nos deixa escutar o outro até o fim o que ele tem a dizer. Enquanto o outro ainda está a falar já entramos no processo de elaborar mentalmente nossas discordâncias ou precipitadas concordâncias. O automatismo concordo-discordo no diálogo a distância é minimizado, pois só vamos elaborar nossa manifestação após ter lido toda a comunicação. Eis minha justificava para fortalecer nossos diálogos à distância, meu automatismo concordo/discordo vai pro beleleu.

Em segundo lugar vou definir meu principal objetivo na ocasião dos nossos diálogos: produzir e compartilhar compreensões e experiências. Penso que a dinâmica dos diálogos, ou “rede de conversações”, favorece o nosso aprender e apreender no viver diário. Ou seja, nossos e-mails dialógicos nos faz refletir, reorganizar nossas idéias, (re)construir memes/pensamentos, enfim construirmos/sermos um novo ser e, paradoxalmente, mantermos nossa estrutura, nossa identidade. A interação nos diálogos é como no dizer de Maturana: “o pé esta sempre se ajustando ao sapato e vice-versa.”. Complemento: como indivíduos distintos, percebemos a realidade de modos diferentes e um pé ao experimentar o sapato do outro continua pé como o sapato não deixa de ser sapato, mas a estrutura de nenhum dos dois é a mesma, depois do diálogo. Desse modo, não posso, não quero e não devo ser um observador independente, mesmo como produtor e produto de mim mesmo, necessito do outro para me produzir. É como diz Humberto Mariotti:

Ninguém faz nada sozinho. Precisamos do outro desde que nascemos: é ele quem confirma a nossa existência e a recíproca é verdadeira. Logo, não há desenvolvimento humano sem desenvolvimento interpessoal. Não se vive sem ajuda – e toda ajuda vem de alguém.”

Compartilhador Oliveira, muito do esforço que faço para fortalecer o meme/pensamento de uma “rede de conversação” é apoiado num artigo do Humberto Mariotti intitulado: “DIÁLOGO: UM MÉTODO DE REFLEXÃO CONJUNTA E OBSERVAÇÃO COMPARTILHADA DA EXPERIÊNCIA.” O link para esse artigo é: http://www.geocities.com/pluriversu/dialogo.html

Penso com(o) Mariotti: é importante dar atenção tanto aos pontos de vista que discordamos quanto aos que concordamos. E isso não significa que devemos concordar/discordar, significa que o contato com a diversidade é indispensável para aprendizagem e abertura na nossa mente.

Por hoje chega de Mariotti/Krishinamurti/Maturana. Vou recomeçar meus treinos de tênis pra ver se no próximo torneio minha sobrevida é maior(zinha). Um abração, FUUUUUI!!!

Roberto Lira - rjtlira@yahoo.com.br

***************

Caro Roberto,

Estou voltando. No pequeno e-mail, que enviei anteriormente, alego um motivo de força menor para não lhe responder, nem explicitei este motivo, nem o porquê de ser de força menor. É muito simples. Eu me senti precisando de N. S. Aparecida para dar uma “vagabundadazinha”. Afinal de conta se não fosse o dia dela não teríamos o feriadão. Pois tenho certeza que, só pelas crianças ou pela a América, não haveria feriado nacional. O Brasil é um país oficialmente religioso, pois nossas elites ainda precisam do voto de Deus. Passadas as eleições, tornam-se ateus por 3 anos e se convertem no quarto (sem trocadilhos), outra vez.

Embora você diga que o Marlos não jogava no nosso time, e eu não o conhecia pessoalmente para dizer o contrário, penso que a ideia dele de estar nas mãos de Deus, quando doente, acontece com alguns dos melhores do nosso time. Apesar de sermos uma “máquina de sobrevivência” poderosa, temos nossos momentos de fraqueza. Um bom relato de uma experiência deste tipo veio do nosso “meia-armador” Dráuzio Varella no seu livro: “O Médico Doente.” Ele resistiu pela força de sua razão e conhecimentos da área médica. Se encontrar este livro por ai em pdf eu o colocarei em nossa biblioteca. No entanto, pelo que li do Marlos e soube de sua vida, em qualquer time ele seria titular.

O Diretor Presidente andou por Bom Conselho, sua terra por estes dias. Andou sondando algumas pessoas sobre nossos diálogos, etc. Caro amigo, estamos mais sujos do que pau de galinheiro. Eu mais ainda, que nem imortal e nem da cidade sou. A notícia boa é que, junto com o Blog da CIT, somos lidos e comentados. O DP disse que tem muito ateu “enrustido” naquele nosso rincão. Só não espere encontrar um político eleito, jogando em público pelo nosso time.

Adorei que você concordasse com a minha definição pragmatista de Ateu. Podemos conversar mais a vontade comungando nossa fé. O que é difícil é o roteiro para os diálogos, não lembro dos passos, mas estou me esforçando, com o tempo talvez me transforme num bom dialogador.

Entretanto, concordo que o automatismo concordo/discordo deva ser minimizado. Discordo apenas que ele possa ser inteiramente descartado. Não escreveria a frase anterior se não acreditasse nisso. Quando você diz: “...vou definir meu principal objetivo na ocasião dos nossos diálogos: produzir e compartilhar compreensões e experiências.”... Cessa o automatismo porque eu concordo, se este compartilhamento envolver também as pessoas que nos lêem. E sei que você concorda inteiramente comigo pois todas as citações no seu e-mail compartilham este ponto de vista (tanto o Maturana quanto o Mariotti). Quando escrevo, penso em publicar, e publicando, alguém pode ler. O meu número de leitores pode ser zero, e era bem próximo disso antes de começar o diálogo com você. Mas para mim este zero conta. Em nossos diálogos eu já ajustei o sapato um monte de vezes, e alguns que nos lêem, talvez já estejam usando Havaianas (aquelas que não tem cheiro, não deformam e não soltam as tiras, lembra?).
Li o artigo do Mariotti que você indicou, e o achei tão importante que o estou colocando em nossa Biblioteca. Nele pincei este pensamento:

Não existe um padrão de comportamento ideal para o diálogo. ... as (poucas) regras do método dialógico são apenas operacionais. Além disso não podem ser tomadas como normas rígidas, pois isso quebraria a naturalidade do processo. Não nos esqueçamos de que o compromisso básico de quem entra em um grupo de diálogo é suspender a atitude habitual, ou seja, procurar afastar a rigidez dos condicionamentos.”

Com ele fiquei mais tranquilo, pois de qualquer forma estamos dialogando. Quando houver rigidez de condicionamentos, acontecerá pelo meu viés mercantilhista utilitário formado em tantos anos vivendo no capitalismo selvagem.
O que muitas vezes me leva a discordar de pensadores que tentam nos ensinar a pensar é minha convicção de que nossa cultura (e aqui envolve tudo que nossos genes contruiram além do nosso corpo, em termos de instituições sociais) condiciona nosso pensamento num vai e vem muitas vezes cruel. Por exemplo, um diálogo de Mariotti será melhor absorvido numa reunião de monges no Tibet do que no pregão de uma Bolsa de Valores (ia dizer num conclave de Cardeais ao escolher um novo Papa, mas desisti). No entanto, como não existe um comportamento ideal para o diálogo, eu continuo persistindo em aprendê-lo.

E os diálogos continuam, eu, você e nossos leitores, que só participam silenciosos se quiserem. Que venham outros.

-----------------------------

Quando ia lhe enviar este e-mail, li o artigo que você enviou para publicação, em forma de diálogo com o JK. Confesso senti uma ponta de inveja e ao mesmo tempo de contentamento, o que vem provar que os ateus também tem algum sentimento. Inveja do papo cabeça boa entre vocês, contentamento pelo que respondeu o JK algumas vezes. É pena que ele não tenha lido o Dawkins (ou leu? Não sei quando sua memória se apagou). Quando ele diz:

O nosso ego, a nossa personalidade, toda a nossa estrutura como indivíduos, é inteiramente formada pela memória. Por favor, este é um assunto para investigar; não aceitem. Observem-no, ouçam o conferencista esta dizendo que “você”, o ego, o “eu” são todos completamente memória. Não há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade – vocês podem acreditar, ter esperança, ter fé, que haja em vocês alguma coisa incontaminada, algo que seja Deus, que seja a fagulha do intemporal, vocês podem acreditar em tudo isso, mas essa crença é apenas ilusória.”

Talvez o Dawkins o tenha lido, não o aceitando partiu para investigar e deu razão a JK: Deus é um delírio. Agora estou convicto que, mesmo sem usar os métodos da ciência, JK chegou lá antes dela. Este é que deveria ser o técnico do nosso time. Pena que não tenha tempo de lê-lo mais para levantar mais minha perna no nosso diálogo. Apenas posso transcrever declarações de outros do nosso plantel, como o Prêmio Nobel de literatura José Saramago que diz, igual a JK:

Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele crêem. Pessoalmente, não tenho nenhuma conta a ajustar com uma entidade que durante a eternidade anterior ao aparecimento do universo nada tinha feito (pelo menos não consta) e que depois decidiu sumir-se não se sabe onde. O cérebro humano é um grande criador de absurdos. Deus é o maior deles.”

Levando em conta que ele completará 87 anos este ano, será que ele vai pedir ajuda externa na hora da morte? Penso que não.
Ainda em apoio a JK, Francis Crick, o gênio da dupla formada com James Watson, que descobriu a hélice da molécula de DNA, abrindo caminho para comprovar certas hipóteses sobre os genes egoístas, ou imortais, sugeriu que a alma é o cérebro. Embora haja controvérsias ainda, ele sugere que a alma nada mais é do que o resultado de interações químicas e elétricas ocorridas na rede cerebral de células especiais, os neurônios. Estes mesmos que o Alzheimer destrói. Isto eu vi numa revista semanal e sei que os grandes pensadores tem preconceitos contra revistas semanais. No entanto, sem citá-la, “veja” bem, quando sai nestas revistas é porque já saiu no Lancet, Nature e noutras similares. O que mais me chamou a atenção foi a pesquisa para controlar o cérebro, ao descobrir e controlar estes fatos físicos-químicos. Um cientista brasileiro Miguel Nicolelis aventa a possibilidade que se possa fazer uma copia dos cérebros das pessoas, ou seja, colocar a alma num pen drive.
Adoraria deixar um pen drive de minha alma para os que virão depois de mim. Será que eles me mandarão para o inferno?

Cleómenes Oliveiracleomenesoliveira@citltda.com

domingo, 25 de outubro de 2009

O DIA EM QUE BOM CONSELHO PAROU - 6ª Parte - PROVAS (MÚSICO E CURIOSIDADE)



A coisa estava preta, a cidade já estava desenganada, pois 5x2 não era mole não.

A nossa curiosidade foi o jovem KEGINALDO PACHECO (filho de dona Eunice Pacheco), ele era franzino, tinha um bicão, o dente da frente era quebrado, porém desenvolveu uma forma de imitar passarinho que era incrível, você dizia imita um curió e ele imitava, imita um canário ele imitava, e era perfeito.

Entra Keginaldo no palco, magro que nem um graveto, bicão, dentre quebrado, você não dava nada por ele, pois bem meus amigos, Keginaldo reservava uma supressa para todos nós, pois nós pensávamos que ele imitava os pássaros com os dentes, assoviando, porém ele imitava os pássaros com as cordas vocais, da mesma maneira como os pássaros fazem, ele foi até os jurados e mostrou que não era assovio e sim o canto do pássaro original, feito com as cordas vocais.

Houve uma revolução no palco e na platéia, então os jurados começaram a pedir a ele que imitasse tal pássaro, e ele imitava, outro pedia tal pássaro e ele imitava, com isto demos um banho em Surubim, ganhamos mais esta.

Bom conselho explodiu de alegria e Manuel fogueteiro mais ainda, a coisa começa a melhorar, é agora 5x3.

Então chega a vez do musico, nós já tínhamos levado um prego no cantor e cantora, ficamos de cabelo em pé, entra o casal dona Belquise e seu Florisbelo Vila Nova, ele com um clarinete e ela iria acompanhar no piano, eles então executam a musica “GRANADA”, a execução foi tão perfeita que até o povo de Surubim bateu palma, não teve dúvida, Manuel fogueteiro lascou foguete para cima e nós terminamos esta fase perdendo de 5x4, o povo começou a se animar de novo.


OBSERVAÇÃO:

Ao narrar, estamos dizendo o placar em vitorias, só que o placar era feito com pontuação, cada prova tinha uma pontuação a ser disputada, por exemplo, queda de braço valia 10 pontos quem ganhava ficava com os 10 pontos, já cantor valia 15 pontos, e assim por diante.

Devemos salientar que além de Ricardo Trajano como apresentador nós tínhamos também Manuel Miranda.

Alexandre Tenório Vieira - tenoriovieira@uol.com.br
-----------
(*) Fotos do evento enviadas pelo autor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Mulher de César



Como já mencionei várias vezes, em diversos lugares, estive em Bom Conselho no Feriadão das Crianças. Quando eu estive lá pela última vez, no Forróbom, lembrei das políticas romanas do “pão e circo” (http://www.citltda.com/2009/06/divagando-pelo-forrobom.html). Nesta viagem, além de outras lembranças, me veio à mente, a história da “mulher de César”.
Contam os historiadores que, depois da morte de Cornélia, sua primeira mulher, César, futuro Imperador de Roma, casou com Pompeia, que era a organizadora de uma “festinha” feminina, dedicada à “Boa Deusa”, no mes de dezembro. Certa vez um vivaldino, se vestiu de mulher e conseguiu entrar neste festival das Luluzinhas romanas. Dizem que ele estava interessado, principalmente, em Pompeia. Descoberto o ardil houve um escândalo e tudo foi parar na polícia da época, depois no juiz. Lá, além de pedir o divórcio, e sem acusar o penetrante, César teria dito: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.”
Se, na época, César já fosse Imperador de Roma, penso que poderia ter dito: “À mulher do Imperador não basta ser honesta, deve parecer honesta.” Em termos de moralidade e de política isso é, até hoje, justificável. Substituam a palavra “Imperador” por Presidente, Governador, Prefeito, Vereador e por muitas outras mais, que a frase ainda parece justificável, com uma exceção que agora me ocorre: “Padre”, da Igreja Católica. E se substituirmos o termo “mulher” por “Primeira Dama”, a frase se generaliza ainda mais.
No mundo moderno, com a queda do Imperio Romano, a queda da Bastilha, a queda do Muro de Berlim e a próvável queda do Machismo, nem só de machos vivem os grandes cargos políticos. Mesmo na antiguidade mulheres como Cleópatra reinavam, mas eram exceções. Hoje, na época moderna, está se tornando comum mulheres nos cargos mais importantes, enquanto os maridos, servem para comparecer às solenidades.
Só para exemplificar esta tendência, começo com a Rainha Elizabeth II dizendo:

- Phillip, você, além de ser honesto tem que parecer honesto. Faça como o Denis, marido de Margaret Thatcher, ele bebia muito mas, parecia sempre sóbrio.

Ou, Michelle Bachelet, na mesma linha:

- Jorge, se você parecer que vai pular a cerca, eu me divorcio de você.

Ainda Cristina Kirchner admoestando o Nestor:

- Não venha com histórias do passado, Nestor, agora eu que mando, e se “mijares fora do caco”, é divórcio certo, mesmo que depois se descubra que tu estavas só dançando um tango argentino. Eu não sou Evita.

Se não fosse o Obama, teríamos a maior saia justa na Casa Branca, com a Hilary Clinton, eleita presidente dizendo:

- Bill, aguentei o diabo, como a mulher de César, agora sustente o facho senão eu mando você “catar coquinho”.

Na Europa, a Angela Merkel, já se divorciou uma vez, embora não haja nenhuma evidência de que a causa do divórcio tenha sido a recusa do primeiro marido em assumir uma posição mais próxima daquela da “mulher de César. Ao atual ela deve dizer:

- Joachim, já deixei um pelo caminho, então comporte-se!

Mesmo assim, ainda é difícil para os homens, depois de milhares de anos de supremacia social, aceitarem o fato de que tem que proceder como a “mulher de César”, quando suas mulheres assumem o poder. Talvez por isso, ainda não foi criado um termo adequado para substituir “Primeira Dama”. Senão vejamos. “Primeiro Damo”, não soa bem. “Primeiro Marido”, nem sempre o são. “Primeiro Homem”, Adão ficará com raiva. “Primeiro Macho”, a mulher pode se sentir ofendida. É difícil, e não vou propor aqui nenhum nome. Entretanto, mesmo tendo nascido numa terra de “machos”, como dizia Pedro de Lara, hoje me rendo ao “reinado” de uma mulher, em Bom Conselho: Judith Alapenha.


Com o meu “machismo” totalmente controlado, digo: seria ótimo que o fato influenciasse outras mulheres a participar da política na nossa terra, e para que isto ocorra, preparemo-nos, homens, para arcar com as responsabilidades da “mulher de César”, o que, numa democracia, inclui, além de sermos honestos, sermos cooperativos, corteses e simpáticos, igual ao que elas foram um dia.
Dai a César o que é de César e a mulher o que é da mulher. Isso não nos fará menos “machos”.

Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

ACADEMIA EM JOGO

Meu querido
Zezinho.


Ganhei um concorrente de peso na corrida para fundação da Academia de Letras em nossos Municípios.

Você em Caetés, tem mais chance de concretizar este ideal, pois tem um “peso pesado” que é o nosso Presidente da República, o Sr. Lula, seu conterrâneo, seu conhecido de infância, caçou calango e rolinhas de bodoque pelas terras de Caetés e desta forma um pedido seu é uma ordem para 2010.

Qualquer que seja o sacrifício por uma boa causa é valido, desde que venha enaltecer a cultura e resgatar a memória da nossa terra.

Depois do dialogo que você manteve com o Lula com a certeza você ganhará
esta parada e eu estarei presente à cerimônia se convidado for para instalação da Academia, em caso contrário ficarei olhando de longe o desenrolar dos acontecimentos.

E, eu? Continuo batalhando neste ideal junto à consciência dos nossos conterrâneos bom-conselhenses para a fundação da Academia nesta querida terrinha que Deus me concedeu nascer, no entanto sem que eu tenha como você tem este aliado “vivinho da silva” o Presidente da República.

O nosso é um General, fez parte da Academia Brasileira de Letras – ABL, o Dantas Barreto, que anda meio esquecido dos bom-conselhenses, mas, continua vivo na memória de muitos, pois vários logradouros públicos por este Brasil afora leva o seu nome em homenagem a este grande brasileiro. Lá do alto onde ele se encontra e outros que se encontram ao seu lado esta intercedendo junto a Deus para que esta Academia aconteça e torne-se uma realidade não muito distante.

Mas, como diz o matuto “nunca se deve perder a esperança por um ideal” e é dentro desta filosofia popular que devemos lutar para juntar forças no meio da comunidade e fazer acontecer.

Hoje ganho mais um parceiro nesta luta para dar a população do nosso Município o que de melhor se pode dar a “cultura da memória”.

Mais tarde as gerações vindouras agradecerão aos homens e mulheres de hoje pelo resgate da memória e do trabalho realizado pelos nossos antepassados que deram tudo de si para o engrandecimento de sua terra natal.

Vamos em frente nesta luta porque a vitória aparecerá sem sentirmos e neste dia o sol brilhará com mais intensidade.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com
Olinda

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O DIA EM QUE BOM CONSELHO PAROU - 5ª Parte - (CANTOR E CANTORA)




Amigo do blog estávamos perdendo de 3x2, vêm então às provas de cantor e cantora, nossa cidade sempre teve bons cantores e cantoras, pois fomos por muitos anos uma cidade de seresteiros, como também uma cidade que tinha muitos shows, tanto nas escolas como no cine Brasília, quem não se lembra dos shows nas manhãs de domingo no cinema, portanto tínhamos boas chances de revertemos o placar.


A cantora escolhida foi Vanda, todos nós bom-conselhenses mais velhos conhecíamos ela, que além de cantar tocava acordeom, portanto era com Vanda que nós iríamos reverter o placar.
Infelizmente não sei qual a música que ela interpretou, tentei com alguns amigos lembra e não conseguimos lembrar.


Vanda entra com um vestido longo, cabelos compridos, e o eterno nariz grande, que era a sua marca registrada, e sapeca a música, canta bem, porém não empolga, pois ela coloca muita dramaticidade na música, e isto prejudica a interpretação, e nós perdemos esta prova, a coisa começa a se complicar, pois passamos a perder de 4x2.


O cantor escolhido foi Reinaldo Tenório, que naquela época já morava em Recife, era bem conceituado no meio artístico por ser compositor e ter uma voz muito bonita.


A esperança se renova com a entrada de Reinaldo, porém ele comete um erro grave, ao invés de cantar uma música conhecida, acha de cantar uma composição sua, que ninguém tinha ouvido isto prejudicou a sua apresentação e perdemos de novo, a coisa então se complicou mais ainda, acabamos esta serie perdendo de 5x2, a cidade estava mais silenciosa do que nunca, o nosso amigo Manuel fogueteiro estava mais triste que todo mundo.

Alexandre Tenório Vieira - tenoriovieira@uol.com.br
-----------------
(*) Fotos do evento enviadas pelo autor.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Encontro com Lula



Ontem fui a Floresta, sertão de Pernambuco. Estava mais desesperado para ver o Lula do que o Zetinho para fundar a Academia Bom-conselhense de Letras. Como todos sabem,nossos objetivos são os mesmos, no meu caso fundar a Academia Caeteense de Letras. Este tema se tornou recorrente em minha vida, e com estas andanças quase semanais do Lula pelo nosso Estado, ele se tornou quase uma obsessão. Afinal de contas, uma Academia em Caetés sem ele, seria a mesma coisa que a de Bom Conselho sem o Zetinho, ou sem o meu colega José Fernandes Costa, ou sem o José Tenório de Medeiros. Tinha que aproveitar o momento. Nisto sou igual ao Zetinho, não desisto nunca.
O motivo da visita era a transposição do Rio São Francisco para irrigar outras partes do Nordeste. Meu pai já me falava sobre isto, pois ao chegar de Portugal, na seca de 1932, já contava que a seca era um fato tão corriqueiro por estas bandas que D. Pedro II prometera trazer água do grande rio para minorar a situação. Aqui em Caetés, no agreste do Estado sofremos menos com este fenômeno climático, mas sofremos. Soube que há no projeto de transposição um chamado Ramal Agreste que poderá trazer água até nossa cidade, e também, para Bom Conselho. Portanto, caro Zetinho, não será por falta d’água que nossas Academias não serão criadas. Por isso eu votarei no Lula ou em quem ele indicar, desde que seja criada a minha Academia. Este virou o meu Bolsa Família. Será que vou ter que votar na Dilma? Minha consciência doerá mais que injeção de penicilina, no entanto, faço tudo por meu Caetés.
Alguns dizem que é demagogia, manobra eleitoreira, ou mesmo “experteza”, Lula ir dormir num acampamento da obra, como aconteceu desta vez. Mas, quem o conheceu antes, como eu o conheci menino, sei que não é. Comi muito calango assado na brasa, ainda com a cabeça sagrando pela pedra do seu bodoque. Quando era uma rolinha, e ainda se movia depois de cair no chão, era ele que dava as últimas pancadas na cabeça dela com o cabo do bodoque. E dizia:

- Não tenho luxo. Mas só como rola morta, viva não desce!

Naquela época, já era uma criança corajosa e determinada. Mas, deixa nossa história prá depois. Só posso dizer, pela nossa amizade infantil, que ela já tinha tido um José na vida dele, antes do Dirceu e do Sarney.
Foi neste acampamento simples, com apenas dois aparelhos de ar condicionado e uma cama Kingue Saise, que consegui entrar, depois de burlar alguns policiais, enquanto eles estavam em dúvida se tiravam fotos do Lula, da Dilma ou do Ciro. Ao entrar, os três me olharam com espanto e formou-se a seguinte conversa:

- O que o senhor deseja, companheiro?

Perguntou Lula.

- Desejo falar com o senhor. Não me reconhece? É o Zezinho, seu colega de infância, era quase seu vizinho?
- Zé Andando?
- Sim, às suas ordens!
- Zezinho, vem cá e me dar um abraço. Quanto tempo! Nunca pensei em te ver depois de tanto tempo.

Dizia Lula, enquanto me abraçava de uma forma carinhosa e receptiva. Quase fui às lágrimas. Balbuciei e falei enquanto ele me soltava.

- Agora você não é mais o Lulinha que conheci mas este abraço trouxe uma série de lembranças.
- É Zé, eu penso que piorei muito, desde aquele tempo. Dilma, Ciro, quero que conheçam um amigo de infância!

Depois das apresentações e o silêncio que se seguiu, Ciro sugeriu a Dilma que ambos saíssem para Lula aproveitar aqueles momentos de recordação. Isto foi feito. E sozinhos continuamos a conversa, começada por ele:

- Você ainda está em Caetés?
- Estou sim. Depois de andar quase meio mundo voltei prá lá. Fui professor em Recife, de Português...
- Se eu soubesse teria lhe chamado para fazer uns “curso”...

Falou isto com um sorriso nos lábios.

- Trabalhei, ultimamente na CIT, uma empresa nova, do ramo de comunicação, que vai de vento em popa, como revisor de textos, e ainda trabalho, mas agora eles me chamam tão pouco que resolvi mudar para Caetés, depois de ficar algum tempo em Caldeirões dos Guedes, em Bom Conselho.
- Eu já ouvi falar de Bom Conselho, parece que foi o Eduardo, num comentário sobre uma fábrica de embutidos de carne. Não é lá que tem uma fábrica grande para inaugurar? Eu até prometi a Eduardo que iria para a inauguração, mas é muita coisa nas minhas costa...
- É lá mesmo. Esperei que você fosse lá para lhe falar. Como você não aparecia, vim aqui...
- E que é que te trouxe?
- Nós estamos tentando fundar uma Academia de Letras, e eu queria convidar você para participar.
- Tá querendo me gozar, Zé? Você acha que depois de ter falado na Academia Brasileira de Letras vou ser membro de uma em Caetés? Tás brincando! Eu vou entrar é na ABL, o Sarney já me convidou. Depois talvez pense na de Caetés.
- Mas Lula, já tínhamos reservado a cadeira de numero 13 para você, já que você é do PT, ou como dizem o Super-Homem do PT. E uma coisa não atrapalha a outra, você pode pertencer às duas.
- Zé, em primeiro lugar quem é o Super-Homem do PT é o Suplicy. O cara desfilou pelo Senado com uma cueca do Super-Homem, pirou de vez. Em segundo lugar, se eu não eleger o meu candidato em 2010, você acha que Sarney vai mover uma palha para colocar na ABL um acadêmico de Caetés? Vamos fazer o seguinte: me procure depois de 2010, e então veremos se posso aceitar seu convite. Toma estes “
cinquentinha” e vai tocando lá a Academia, eu dou todo o apoio à cultura, você sabe!
- Obrigado pela sua generosidade.

Depois deste diálogo encorajador, me dirigi à porta, e antes de sair, já iam entrando Dilma e Ciro aos berros, disputando o espaço junto ao Lula, no dia seguinte, em Cabrobó. Li nos jornais do dia seguinte que Ciro ganhou e ajudou Lula no sorteio das casas, para aqueles que ficaram sem, pelas obras de transposição, inclusive falando errado o Português para ficar mais parecido com o Lula, que arrematava, com a modéstia que caracterizou Antônio Conselheiro: “Eu não sei se o sertão vai virar mar, eu não sei. Mas que vai ter água porreta, vai...”.
Humm! Será que um dia teremos nossa Academia???

José Andando de Costasjad67@citltda.com

--------------------

(*) Fotos do Diário de Pernambuco.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Minha Avó comia pés de Galinha



Incrível o que a vida nos ensina!!!!
Já ouvi muitas vezes a frase....................... "a vida nos ensina".......ensina sim, e muito!!! Um dia, uma época, em algum lugar do passado, vi, presenciei e sei que minha avó gostava, adorava, curtia muito comer.....
pés de galinha!!!
Eu achava aquilo meio que constrangedor....pobre.....nordestino.....!!!!!
PRECONCEITOS.
Convivi a vida inteira com esse estigma!!!
NORDESTINA . NORDESTINO . Já falei sobre isso no início de meus escritos......do forró que meu amado pai ouvia alto, da minha vergonha em parar com ele em frente à escola em que ele generosamente me pagava.....ele queria o melhor para a filha e NUNCA nada negou.... com o alto som de Luiz Gonzaga......lembra??
Se você não leu e quiser me brindar com esse carinho...leia....." FORRÓ ALTO " . Obrigada!
Bem, voltemos aos pés de galinha que minha avó saboreava...........
Como algo tão simples pode ser referência hoje para mim ????
Quantos ensinamentos podemos ou posso.... obter de uma velha senhora que viveu em Bom Conselho muito, muito tempo atrás???
Quero compartilhar com vocês...... havia outra iguaria que me dava náuseas: bolinho de feijão FEITO com as MÃOS !!!! Ela fazia aquilo com tamanha satisfação que por mais que eu tente,
por mais que eu seja exata, nunca, NUNCA irei reproduzir aquele momento...
Fui à CHINA !! 2007. Tão pouco tempo.....e em um lindo jantar, restaurante cinco estrelas, segundo nossa atual designação.......música ambiente, vinho local e um dos pratos mais requisitados, apreciados, cultuados.......chegou.
Na cestinha aquecida, uns deliciosos.....pés de galinha me aguardavam.....tenros, saborosos.
Não tive opção : render-me aos pés de galinhas, saboreá-los e DEVORÁ-LOS.... e lá...longe......
outra cultura, outro ambiente , outra situação eu me rendi aos pés de galinha!!!
Que coisa louca..comentei com que comigo estava....
eu já critiquei minha avó porque comia pés de galinha....
HOJE?
Hoje a nutricionista recomenda.
As revistas indicam.
A medicina aprova e comprova.....
E eu? Bem, soube que cozinhar muito bem os pés de galinha ... caipira...bater no liquidificador, deixar na geladeira e ir colocando colheres dessa mistura no arroz, feijão, sopas....é fonte inesgotável de colágeno! Sim....aquele colágeno que pagamos tão caro em cremes e produtos para a pele !!!!
Rendo-me aos antepassados.
Rendo-me à minha avó Mariazinha.
Rendo-me a simplicidade das coisas, da vida...
Rendo-me ao dar a cara a bater e dizer:
viví mas CRESCÍ.

boa semana
bjusssssssss

ANA maria miranda LUNA - anammluna@yahoo.com.br

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FERIADÃO EM BOM CONSELHO



A propósito do articulista, também fui à terrinha. Não conversei com quem gostaria, pois fiquei limitado à afetividade de alguns parentes que ainda me restam. Mas foi ótimo e sempre será essa "bebida na fonte" original dos nossos pecados e das nossas santificações. Como sempre, fui à feira que adoro. Como já disse, em outros escritos, pra mim ela seria patrimônio imaterial. Lá eu sempre posso ver coisas persistentes que a globalização não conseguiu ainda acabar, como os tipos simples, os fazeres e os falares originais do nosso povo mais legítimo em sua singularidade cultural. Ouvi, por exemplo, que a corda que eu fui comprar teria um preço de "X" por braça. Quase fiquei tonto, pois nem me lembrava mais das "braças" como medida concorrente do metro. Outra fala, foi de uma prima que, ao fritar ovos, disse que teria que fritar mais porque a tacha era pequena. Fiquei zonzo, mas logo me lembrei que eu também falava tacha. Inclusive o nosso Zé Fernandes, me ajudou na compreensão, quando lhe relatei.
Mas ir à terrinha me deixa meio triste, com o sentimento de banzo. Todos os meus "filmes" são reprisados: os bons e os não muito bons. Resultado é que fico meio triste, administrando o misto de alegria e seu contraditório. Mesmo assim, sirvo-me de tudo na reconstrução dos momentos singulares que passamos subindo e descendo ladeira, vendo o comércio com ares de cidade grande, sem mais bodegas, com mercadinhos, com supermercados em fase de inauguração, com motos nas ruas, centenas de carros novos, carroças de burro, bicicletas aos borbotões, enfim, um lufa-lufa que, tudo indica, logo logo, vai nos remeter às cidades grandes em sua interpretação.

Mas enquanto o clima geral de cidade grande com todos os problemas não se instala, a gente vai curtindo o que resta de resistência cultural. O nosso matuto continua matuto, mas nunca foi besta, como se quer atribuir ao matuto. Matuto é quem mora no mato, mas quem mora no mato não é tolo e a grande maioria já está plugada na internet, com computador em casa, etc.

Vi poucos que queria ver. Mas o anonimato é bom porque a gente fica mais livre para pensar o que quiser sem informações paralelas. Não que elas não sejam boas, mas a gente, no nosso imaginário "viaja" mais livre, respira mais leve e, mais livre, faz versos, odes à terra que nos ensinou os primeiros pensares. Some-se a isto, o tempo que estou fora e que, certamente, leva a gente a perder um pouco o contato com os que ficaram, pois o tempo passa pra todos e, naturalmente, as fisionomias se transformam como a minha também se transformou.

Mamãe e minha irmã foram comigo e, do mesmo jeito ficaram super felizes com o reencontro simbólico de tudo que fomos e vivemos aí. O feriadão passou que nem sentimos, mas logo logo retornaremos.

Como não poderia deixar de ser, ouvi sérias críticas à nossa prefeita Judite. Como ouvir não é pecado, limitei-me a isto, pois opinar sobre política, mesmo sendo de uma cidade como a nossa, requer embasamento e um certo conhecimento de causa. A teoria política dos fatos existe, mas não é o suficiente para se esboçar posição, pois igualmente gosto de me posicionar. Portanto, limitei-me a ouvir e, neste momento, frasear. Espero que alguém me informe mais, para eu saber conceituar melhor o meu sentimento de ter uma mulher na nossa edilidade maior.

Portanto, caro Citeiro, provavelmente passamos um pelo outro e não nos sabendo, não nos cumprimentamos. Faz parte.

Carlos Sena - csena51@hotmail.com
-----------------
(*) Fotos da CIT na Feira de Bom Conselho.

sábado, 17 de outubro de 2009

O DIA EM QUE BOM CONSELHO PAROU - 4ª Parte - AS PROVAS (BELEZA)




Como vimos no artigo anterior nossa cidade estava ganhando de dois a um, chegou à vez de conhecermos o homem mais bonito e a mulher mais bonita das duas cidades.

Na parte feminina de nossa cidade houve alguns contratempos, primeiro foi sondada a belíssima Tereza Benjoino, porém houve objeção por parte do namorado e ela recusou, então foi ventilado o nome de Sandra Miranda (filha de dona Ivonete Miranda) uma moça muito bonita, e pelo o mesmo motivo da anterior não aceitou, então entrou em cena a jovem Gislene, moça muito bonita e que iria representar a beleza bom-conselhense, infelizmente o jurado deu ganho para Surubim, neste momento nós começamos a constatar que o jurado tinha uma tendência para Surubim. Era necessário que a nossa atração fosse mesmo de arrombar para eles darem para nós a vitoria, o que estava pesando era o nome de Chacrinha, pois a nossa candidata era mais bonita que a de Surubim.

Na escolha do homem mais bonito foi quando houve a maior polemica do campeonato, todo Bom Conselho sabia que o homem mais bonito de nossa cidade era o jovem Melchzedek, com seu 1,82 de altura, corpo atlético, cor moreno claro, cabelos pretos penteados para trás, feições de galã de cinema, não é para se achar homem bonito, mais deixando de lado o preconceito, Melchzedek era um homem bonito, quando passava todas as meninas suspiravam, então pela a opinião publica não existiria outra pessoa para melhor representar a nossa cidade.

Porem existia no caminho dois empecilhos, primeiro Melchzedek não gozava de um bom conceito na nossa sociedade, pois era um jovem muito brigão, gostava de confusão e o outro fator segundo se comentou na época era a família Tenório, isto mesmo, a família Tenório que naquela ocasião mandava e desmandava em nossa cidade, e estes fatores tiraram de Melchzedek a chance de ser o homem mais bonito de nossa cidade, e no seu lugar foi colocado Sebastião Tenório Filho (Bastinho), que era também um jovem bonito, porém não tão bonito como Melchzedek, e como era de se prever perdemos esta prova também.

Terminamos esta seqüencia perdendo de três a dois, isto tinha abalado os nossos ânimos, pois a cidade estava mais calada do que nunca, não se ouvia um pio.

ADENDO

Fugindo um pouco do campeonato, devo escrever algumas coisas sobre Melchzedek, ele era filho do sargento aposentado MOISÉS, homem valente e destemido, que já tinha desafiado o coronel José Abílio mais de uma vez. Desde cedo que ele era encrenqueiro, tornou-se adulto do mesmo jeito, depois de certo tempo ele criou o habito de ler aqueles livrinhos de bolso de faroeste, e começou a querer imitar na vida real os artista dos livrinhos, andava ele com uma capa dessa de detetive, um ou dois revolver nos quartos, um saquinho de bala na mão e para potencializar tudo isto, ele passou a fumar maconha e beber, então passou a ser uma ameaça a nossa sociedade, pois ele tinha a prática de mandar recado para as pessoas pedindo dinheiro, e isto era feito em tom de intimidação, e depois de varias confusões matam Melchzedek.

Alexandre Tenório Vieira - tenoriovieira@uol.com.br

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diálogo com JK sobre a Existência Humana

Esse diálogo foi realizado em dois momentos: As manifestações de JK ocorreram em Amsterdam no ano de 198l e as de RL em Uberlândia em 2009

O diálogo como uma reflexão conjunta sempre amplia as compreensões do tema abordado. Dialogar a respeito da Existência Humana é um tema que sempre me atraiu. Por isso, procurei o “amigo” JK para compartir minhas inquietudes sobre esse tema.

RL: Amigo JK, neste diálogo sobre a Existência Humana, escutar-lhe-ei como você espera. Ou seja, suas manifestações serão um espelho no qual vou procurar perceber a minha própria existência.

JK: “Somos como dois amigos sentados no parque num agradável dia, conversando a respeito da vida, dos nossos problemas, investigando a própria natureza da nossa existência e nos perguntando com seriedade por que a vida tornou-se um problema; por que, embora intelectualmente sejamos muito sofisticados, a nossa vida diária é tão tediosa, sem qualquer sentido exceto o da sobrevivência...”

RL: Fazendo um retrospecto dos problemas que enfrentei no trajeto vivido até o presente, penso tê-los administrado sem sofrimento. Talvez por não terem sido relevantes. Vida diária tediosa? Não, nunca senti tédio. Na realidade, mesmo na condição de aposentado, acho-a prazerosa. Quanto ao sentido da vida? Sinceramente, nas minhas reflexões, nunca encontrei um verdadeiro sentido para vida, exceto no que se refere à sobrevivência – nessa, incluo a geração, criação, educação e encaminhamento da própria prole.

JK: “... vamos abordar esta questão do porque nós, seres humanos vivemos como vivemos, indo para o escritório das nove as cinco ou seis horas, durante cinqüenta anos, e sempre com o cérebro, a mente, constantemente ocupados. Nunca há uma quietude, nunca há paz, mas sempre essa ocupação com uma ou outra coisa. E assim é a nossa vida. Assim é a nossa vida diária, monótona, um tanto solitária, vida insuficiente. E tentamos fugir dela através da religião, das várias formas de entretenimento ...”.

RL: Comecei minha vida profissional trabalhando em escritório. Pensava em trabalhar na área esportiva, corri atrás, e logo me inseri nesse contexto. Fui técnico, preparador físico e professor na área. Ocupava o cérebro, a mente e, também, o corpo em atividades físicas. Mesmo hoje, aposentado, continuo, nessa rotina e não sinto nenhuma monotonia. Acho que sou viciado em atividade física... Acho não, tenho certeza. Será devido às endorfinas? Nas minhas fugas, me entretenho com o esporte e não com as religiões. Minha vida mental? Esta tem sido um pouco solitária, será por isso que estou recorrendo ao amigo (JK) tão distante, para interagirmos?

JK: “... No fim do dia, ainda estamos onde estivemos durante milhares e milhares de anos. Parece que mudamos muito pouco psicologicamente, interiormente. Os nossos problemas aumentam e há sempre o medo da velhice, da doença, de algum acidente que nos extinga. Assim é a nossa existência, da infância até à morte; que seja voluntária ou involuntariamente, morremos. Parece que não fomos capazes de resolver esse problema, o problema da morte. Quando vamos envelhecendo, principalmente, nos lembramos de todas as coisas que aconteceram, dos momentos de prazer dos momentos de dor e de pesar e das lágrimas. No entanto, sempre há essa coisa desconhecida chamada morte, da qual a maioria de nós tem medo. ... Vamos discutir juntos, como dois amigos que tiveram uma vida longa e séria, com todos os seus problemas, os problemas do sexo, da solidão do desespero, da depressão, da ansiedade, da incerteza uma sensação de não-sentido e, ao fim disto, sempre a morte”.

RL: Nesse diálogo, pensei em orientar nossa conversação sobre a Existência humana. Em outros momentos, já escutei você falar que a morte faz parte da vida. Objetivamente não estou pensando em morte, mas vou continuar lhe escutando, como você pede, e Raul Seixas lhe interpreta: sem ter uma velha opinião formada...

JK: “Ao conversarmos sobre a morte, dela nos aproximamos intelectualmente – isto é, nós a racionalizamos, dizemos que ela é inevitável, que não devemos temê-la ou fugir dela através de alguma forma de crença na vida após a morte, na reencarnação ou se vocês forem altamente intelectualizados, dizendo para vocês mesmos que a morte é o fim de todas as coisas, da nossa existência, das nossas experiências, das nossas lembranças, sejam elas ternas, agradáveis ou abundantes; é, também, o fim da dor e do sofrimento. O que significa tudo isto, esta vida que é, na realidade, se nós a examinarmos com muito cuidado, um tanto sem sentido? Podemos intelectualmente, verbalmente, construir um sentido para a vida; mas o modo como nós, na realidade vivemos tem muito pouco sentido. Viver e morrer é tudo o que sabemos. Tudo o mais é teoria, especulação; a busca sem sentido de uma crença na qual encontremos alguma espécie de segurança e esperança. Temos os ideais projetados pelos pensamentos e lutamos para alcançá-los. Esta é a nossa vida, até mesmo quando somos muito jovens, cheios de vitalidade e alegria, com o sentimento de que podemos fazer quase tudo; mas com o passar da juventude, da meia-idade e da velhice sempre fica esta questão da morte.”

RL: Vou continuar lhe escutando.

JK: “O nosso ego, a nossa personalidade, toda a nossa estrutura como indivíduos, é inteiramente formada pela memória. Por favor, este é um assunto para investigar; não aceitem. Observem-no, ouçam o conferencista esta dizendo que “você”, o ego, o “eu” são todos completamente memória. Não há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade – vocês podem acreditar, ter esperança, ter fé, que haja em vocês alguma coisa incontaminada, algo que seja Deus, que seja a fagulha do intemporal, vocês podem acreditar em tudo isso, mas essa crença é apenas ilusória. Todas as crenças são ilusórias. Mas o fato é que toda a nossa existência é inteiramente feita de memória, de lembranças. Não há lugar ou espaço interior que não seja memória. Vocês podem investigar isto; se estiverem se indagando seriamente, verão que o “eu”, o ego, é todo memória, lembranças. E essa é a nossa vida. Nos funcionamentos, nós vivemos da memória. E, para nós, a morte é o fim dessa memória.”

RL: É, olhando para mim mesmo, para o meu interior, sem nenhum conceito pré-formado, percebo claramente que além do físico só me resta mesmo memória e os consequentes pensamentos. Reconheço que essa memória e o conjunto de pensamentos como os frutos do já vivido. Assim sendo, sem memória e sem pensamentos o ego, o “eu”, é morto... É isso?

JK: “... Na realidade, há apenas eu e você conversando juntos, não esta audiência enorme num vasto salão, mas você e eu sentados às margens de um rio, num banco, discutindo isto juntos. E um diz para o outro: não somos nada além da memória e é a esta memória que estamos presos – a minha casa, a minha propriedade, a minha experiência, o meu relacionamento, o escritório ou a fábrica para onde eu vou, a arte de que eu gosto de poder utilizar durante certo período de tempo – eu sou tudo isso. A tudo isso o pensamento está ligado. É a isso que chamamos de viver. E essa ligação cria todas as formas de problemas; quando estamos ligados, há o medo da perda; estamos ligados porque estamos sozinhos, com uma profunda e permanente solidão, que é sufocante, isoladora, depressiva. E quanto mais estamos ligados a outra pessoa, o que ademais, é memória, pois o outro é uma memória, mais problemas existem. Estou ligado ao nome, à forma; minha existência é a ligação a essas memórias que eu reuni durante a minha vida. Onde há ligação, observo que há corrupção. Quando estou ligado a uma crença, na esperança de que nessa ligação haja uma certa segurança, tanto psicológica quanto fisicamente, essa ligação impede um exame maior. E tenho medo de examinar quando estou fortemente ligado a alguma coisa, a uma pessoa, a uma idéia, a uma experiência. Assim, onde há ligação existe corrupção. Toda a nossa vida é um movimento dentro do campo do conhecido. Isso é obvio. A morte significa o fim do conhecido. Significa o fim do organismo físico, o fim de toda a memória que sou eu, pois eu nada mais sou do que memória – sendo a memória o conhecido e eu estou com medo de deixar tudo isso ir-se, o que significa a morte. Acho que isto esta completamente claro, pelo menos verbalmente. Intelectualmente, podemos aceitar isso de modo lógico, sensato; é um fato.”

RL: É, intelectualmente minha razão encontra lógica em toda essa manifestação. Contudo, não sinto inteiramente essa realidade. No fundo tenho o pressentimento ou ilusão que além do físico, da memória e dos pensamentos há “algo”. Talvez sejam os meus condicionamentos que alimentem essa sensação. Não sei... A reencarnação é uma idéia que me agrada. Mas, estou sempre pegando e largando essa idéia. Talvez por isso ela ainda não tenha se transformado crença.

JK: “O mundo asiático acredita na reencarnação, isto é, que a alma, o ego, o “eu”, que é um feixe de memórias, renascerá mais uma vez para uma vida melhor, se eles se comportarem corretamente agora, se se conduzirem corretamente, se levarem uma vida sem violência, sem cobiça, e assim por diante; então, na próxima reencarnação, eles terão uma vida melhor, uma posição melhor. Mas a crença na reencarnação é apenas uma crença. Mas uma crença é apenas uma crença, por que os que possuem esta forte crença não vivem uma vida correta hoje? É apenas uma idéia de que a próxima vida será maravilhosa. Eles dizem que a qualidade da próxima vida deve corresponder à qualidade da vida atual. Mas a vida atual é tão torturante, tão exigente, tão complexa, que eles esquecem a crença e lutam, se iludem, tornam-se hipócritas e aceitam toda forma de vulgaridade. Essa é uma resposta à morte: acreditar na outra vida. Mas o que é que irá reencarnar? O que é que irá continuar? O que é que tem continuidade na nossa vida atual? É a lembrança das experiências de ontem, dos prazeres, dos medos, das ansiedades, e isso continuará a vida toda, a mesmos que rompamos e nos afastemos dessa corrente.”

RL: Então, como sair dessa corrente?

JK: “Agora, a questão é a seguinte: será possível, enquanto se vive, com toda a energia, capacidade e agitação, terminar por exemplo, com a ligação? Porque é isso o que vai acontecer quando vocês morrerem. Vocês podem estar ligados à sua esposa ou ao seu marido, à sua pobreza. Podem estar ligados a alguma crença num deus, o que é apenas uma projeção uma invenção do pensamento, mas vocês estão ligados porque há um certo sentimento de segurança, por mais ilusória que possa ser. A morte significa o fim dessa ligação. Agora, enquanto vivemos, podemos terminar voluntariamente, facilmente, sem qualquer esforço, com essa forma de ligação? O que significa morrer para uma coisa que vocês conheceram, uma coisa que vocês seguem? Vocês conseguem fazer isso? Porque isso é morrer junto com o viver, não separado por cinqüenta anos ou mais, à espera de alguma doença que dê cabo de vocês. É viver com toda a sua vitalidade, energia capacidade intelectual e com grande sentimento e, ao mesmo tempo, para determinadas conclusões, para determinadas idiossincrasias, experiências, ligações, ferimentos, terminar, morrer. Isso é, enquanto, viver também com a morte. Então, a morte não é algo distante, a morte não é uma coisa que está no fim da nossa vida, produzida por algum acidente, doença ou velhice mas, pelo contrário, o fim de todas as coisas da memórias – isto é a morte, uma morte não separada da vida."

RL: Lembro que você, em outro momento, falou sobre o ciclo do nosso viver: experiência, memória, conhecimento, pensamento e daí para a ação. E que você considera que devemos preservar esse ciclo quando se trata dos problemas relativos à vida física, mas não os relativos aos problemas psicológicos. Estes, que dão vida ao ego, devem ser vividos sem a interferência do passado, do ontem. Vou refletir sobre a conversação de hoje, e no possível procurar viver o que compreendi: esquecer/descartar as lembranças e os pensamentos que fortalecem o ego. Penso que desse modo poderei morrer todas as noites e, ainda, acordar vivinho da “silva”, para VIVER A VIDA!!!

OBS. As manifestações de JK (Jidu Krishnamurti) foram retiradas de uma palestra proferida na cidade de Amsterdam, em 19 de setembro de 1981, e publicada no livro “A Rede do Pensamento”, da editora Cultrix.

Roberto José Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

E SE ???

Todas as vezes que encaramos as realidades da vida, percebemos que aquela música tem razão: ...." e viver não é brincadeira não...."
Cada um sabe de si.
Por mais que nos preparemos, tenhamos fé, quando perdemos alguém a quem amamos.... é duro encarar. A cabeça gira, os pensamentos vão longe, as recordações afloram e se.........
E se é uma condição que convivemos dia a dia...
Ninguém pode negar que em algum momento da vida, parou para pensar ......... e se eu não tivesse ido? Não tivesse casado? E se eu tivesse falado isso ou aquilo? Não tivesse tido filhos?
E se eu fosse filho de outros pais? Não tivesse estudado? Se tivesse nascido na Ásia??
Se eu fosse negro, índio ou japonês.......como seria? Nas diversas fases da vida mudamos, evoluímos... o que era importante no passado, hoje não o é mais. Um ser pensante e inteligente cresce. Desfrutamos de muitos conhecimentos acumulados através dos tempos.
Mas a condição se de vez em quando volta.....mesmo em pensamentos. E viajamos.
Aquele momento onde nos debruçamos sobre o braço da poltrona e os pensamentos saem soltos, sem restrições, é grande. Mágico.
SE e É sem distinções.
Afinal o que é de verdade?
Qual a minha verdade?
Na viagem do SE, um certo tom de cobrança.
Será que participei da melhoria do ser humano?
Meu pensamento livre passa por vários momentos da minha vida, muitas vezes me aplaudo, outras me acuso..... parece que dentro da minha cabeça há um juiz inclemente que diz isso sim , isso não. E o juiz sou eu.
Não, o SE definitivamente não existe.
Tudo que fiz, tudo o que vivi ,foi na medida certa. Sofri, bati a cabeça mas aprendi.
Se houve em algum momento um SE, apenas serviu para me melhorar como pessoa.
Cada se me empurra para um agora consciente.
Os diálogos surdos dentro de nós, são nós que dasatamos dia após dia.... hummmmmmmm,
fui clara?
Se não, coloque seus SEs para fora e constate também que o agora é fruto deles............. e seja
FELIZ!
Você merece.

boa semana
bjusssssssss

Ana Luna - anammluna@yahoo.com.br

Saudade e solidão

Saudade, sentimento para mim sem tradução

Umas vezes é gostoso, outras vezes é tristonho

Assim, ele vem e vai nas horas de solidão

Mas o danado, nunca, nunca é enfadonho.


É gostoso tantas vezes, eu que o diga

Por que iria eu agora não dizê-lo?

Se me sinto relaxado e sem fadiga

Eis por que me alegra percebê-lo.


Sentimento que invade a nossa alma

A saudade nos remete a bons momentos

Ora agita, ora espanta, ora acalma

Sentimento maior dos sentimentos.


Se a amada se afasta em justa causa

Alegro-me por saber que ela se alegra

Tudo em volta nos remete a uma pausa

Natural que o amor nela se integra.


Uma entrega que adorna as nossas vidas

Nessa hora, pensamento vai e vem

Não se trata de uma ida sem saídas

Nem de um barco à deriva com alguém.


Solidão tantas vezes necessária

Nesse estágio a pessoa se recolhe

Mas não quer uma vida sedentária

É assim que se planta e depois colhe.


E não duvidem do nosso sentimento

Que é nobre, muito puro, verdadeiro

Coisas boas só nos chegam por momento

Não há nisso o impulso aventureiro.


José Fernandes Costa – jfc1937@yahoo.com.br

O DIA EM QUE BOM CONSELHO PAROU - 3ª Parte - AS PROVAS (CHUTE A GOL E BASQUETE)



Amigos leitores o dia 22 de agosto do ano de 1973, é um dia para nunca ser esquecido por nós bom-conselhenses.

Depois da queda de braço a próxima prova foi chute a gol, os nossos atletas foram Everaldo Gico (filho do major Boanerges) goleiro e Adeildo Torres (filho de seu Manuel Torres) artilheiro, Adeildo morava em Garanhuns e era jogador semi-profissional, tinha já jogado em varias equipes de Garanhuns inclusive a AGA, nós estávamos bem representado, para nós era barbada.



Para frustração de nós bom-conselhenses perdemos esta prova, a euforia inicial com a queda de braço deu lugar à tristeza, nós tínhamos certeza que iríamos ganhar esta prova, pois Adeildo Torres era um excelente jogador de campo, só que nós deveriam ter levado um jogador de futebol de salão, pois a barra que os goleiros iriam defender era barra de futebol de salão.



A próxima prova foi arremesso de bola na cesta, nós tínhamos como representante o nosso Manuel Galdino, que naquela época estudava em Recife e jogava basquetebol no colégio que estudava, para sermos sincero nós não tínhamos muita confiança em Manuel, não porque fosso fraco no basquete, e sim por ele esta fora de Bom Conselho já a um determinado tempo e nós não sabermos se ele jogava bem ou não o basquete.

Para supressa geral nós ganhamos esta prova, Manuel Galdino deu um show de bola na cesta, e novamente ouvem-se nos quatros cantos de Bom Conselho o grito de alegria e os Foguetes de Manuel Fogueteiro.

Alexandre Tenório - tenoriovieira@uol.com.br

---------------

(*) Fotos do evento enviadas pelo autor.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Bom Conselho, sem Bolsa



Além de trocar muitas ideias com Eliúde Villela aqui na empresa, apesar de ser um pouco mais velho do que ela, tivemos algo em comum: vivemos em São Paulo antes de aqui parar. Não foram meus pais que me levaram, fui forçado também, mas por outras circunstâncias. Não quero falar sobre esta aventura, pelo menos por enquanto. Mencionei-a aqui por ter lido sua narrativa sobre o que faz a falta de escola em nossas vidas. E disso quero tratar.
Este escrito teve sua inspiração numa frase de Lucinha Peixoto em seu artigo sobre o Ginásio S. Geraldo (http://www.citltda.com/2009/09/xeretando-o-7-de-setembro.html) :

“...e continuo a percorrer outras escolas, e agora uma da qual me lembro, tanto pela sua proximidade do Ginásio quanto pelo que ela representava na desigualdade social que sempre existiu em nossa terra: Grupo Escolar Mestre Laurindo Seabra. Quem não tinha pais com grandes rendas, como eu, e que não conseguia uma bolsa de estudos, esta escola era o destino.”


Isto é a mais pura verdade, quando se refere a mim. Não tive a sorte dela e nunca obtive Bolsa de Estudos. Minhas condições sociais e familiares eram diferentes, e realmente não tive chances e, talvez nem interesse de procurar ajuda para estudar. Depois de passar pela mão de uma tia, que me ensinou as primeiras letras, indo da Carta de ABC à Cartilha do Povo, fui parar no Mestre Laurindo.
Foi lá onde encontrei a maioria dos meus amigos, sendo a proximidade do Ginásio S. Geraldo um fator de ascensão social muito importante, mesmo lá não estudando. O meu esporte preferido, o futebol, me fez conhecer as pessoas de classe “superior”. Como era bom de bola, sempre era convidado, mesmo pelos ricos, para integrar o próximo time. Foram tantos, que perdi a conta.
Naquela época desenvolvi uma ideia, em forma de anedota, que mostrava que os meninos ricos não jogavam bem porque eram sempre o dono da bola e, sendo assim, sempre jogavam. Quem não tinha bola, tinha que ser bom de bola, para jogar. Foi o meu caso. Hoje, não posso dizer qual o valor do futebol para a mobilidade social em Bom Conselho mas, tenho certeza de que os ricos, seja o que for a “bola” hoje, ainda serão os donos e os pobres, que quiserem progredir ainda tem que ser bons de “bola”.
Apesar de ser mais velho do que eu, um dos bons amigos que tive foi o Geraldo de Alves, sobre quem já falei, em artigo anterior (http://www.citltda.com/2009/05/violencia-urbana.html ), num outro contexto. Alves ou Álvares, nunca soube como era mesmo, era o nome do pai dele. O “cumpadre” Geraldo foi aluno do Mestre Laurindo na minha época, sendo mais adiantado do que eu. Era o melhor aluno de D. Jaciara, isto dito por ela mesma. Também lembro dela, de D. Marilene e de D. Ivonete que era Diretora. Muito inteligente, Geraldo foi um dos maiores contadores de estórias de minha infância. Alguns diziam que era um grande mentiroso, eu, não. Minha avó dizia que ele só não era o mais mentiroso de Bom Conselho, porque o Alves, seu pai, mentia mais, e ainda tinha o Rei Querubino. Seu Querubino era pai de seu Florisval e avô de Zé Piulinha. A expressão: “Mente mais do que Querubino”, foi muito conhecida na minha infância. Se isto é verdade ou não, não posso afirmar, pois nem me lembro dele. Se não for, caro Zé Piulinha, com quem também bati bola, me perdoe, pois sei você não mente, e hoje, pelo grande médico que é, sabe que se livrou do fator genético.


Voltando ao Geraldo e seus causos, lembro o que ele contava sobre a mula-sem-cabeça, vista primeiro pelo seu pai, que depois o levou, num noite de sexta-feira, à meia noite, para lhe mostrar que não era mentira. O local era a calçada da Igreja, naquelas noites quase sem luz. Chegaram umas 11:00 horas e ficaram na espreita. Daqui a pouco ele ouve alguns passos e começou a tremer, embora fosse só seu Júlio Zuza e Sebastião Siqueira que também chegavam para esperar a mula. O grupo foi crescendo e ficaram embaixo do pé de Tamarindo, esperando. Daí a pouco ouviram o tropel. Olharam em direção à Praça e viram um corpo de equino, brilhando, mas sem a cabeça. Subiu os degraus, dobrou a esquerda e eles a seguiram de longe. Continuou na calçado e dirigiu-se para a casa paroquial, desaparecendo em seguida. O “cumpadre” Geraldo disse que o corpo tremia todo, enquanto nós, os ouvintes do caso, estávamos de boca aberta. Então, de repente, subiu um fedor horrível vindo do meio do grupo, que estava esperando a mula. Um olhava para o outro sem graça. “Cumpadre” Geraldo termina a estória, com um sorriso nos lábios, dizendo: “Até hoje eu não sei quem produziu aquele fedor. Mas, tenho certeza que no outro dia alguém gastou mais sabão para lavar a cueca”.
Geraldo, foi um grande amigo meu do Mestre Laurindo. Muito tempo depois o encontrei em São Paulo. Nunca foi dono da bola nem se interessou tanto por futebol quanto eu, e sua vida lá foi mais difícil do que a minha.


Lembro também de outro amigo do Grupo: Zezinho de Anália. Sua avó produzia as melhores cocadas que já comi. D. Anália, sua mãe, as vendia na feira. Era de família pobre e teve o mesmo destino que eu: O Grupo Escolar e o trabalho no comércio de Bom Conselho. Trabalhamos juntos uma vez em uma das mercearias da cidade, nos dias de sábado. Era dureza. Chegávamos às 5:00 horas da manhã e saímos às 7:00 da noite, com um breve intervalo para o café da manhã e para o almoço. No sábado, dia da nossa tradicional feira, o trabalho era redobrado. Não darei nomes nesta história pois eles não contam. Eu e Zezinho tínhamos um colega comum que também só trabalhava aos sábados. Certo dia, eu o vi, depois de uma venda, na qual recebíamos diretamente o dinheiro do cliente, este colega pegar uma nota de 20,00 cruzeiros, aquela do Deodoro e colocá-la no bolso de trás da calça. Foi descuidado e a nota ficou aparecendo uma parte de fora do bolso. Zezinho era mais amigo dele do que eu, e minha atitude foi dizer a Zezinho para avisá-lo do deslize. Ele o fez, mas já era tarde. O patrão já vira o que se passava. Para as relações trabalhistas que reinavam naquela época, até que ele foi educado e, talvez, até justo. Chamou nosso colega, pagou o seu dia de trabalho e o mandou embora. Ele entendeu todo o porque perdeu o emprego. Foi um dia triste para nós, e depois nunca mais comentamos o caso. Por que menciono isto aqui? Apenas para dizer que nenhum de nós três tinha mais de 12 anos de idade. Nosso lugar seria na escola e nas brincadeiras que desenvolvem o cérebro para sermos cidadãos úteis. Depois descobri que o nosso colega comum não chegara nem ao Mestre Laurindo. Até quando nossa elite enfiará a cabeça dentro de um balde de leite, para não descobrir que, sem educação de base para todos, o discurso de participação popular não passa de um engodo? Nossas crianças, sem escolas, continuam perdendo o emprego e talvez a vida por 20,00 cruzeiros, reais, moedas de ouro ou pedras de "crack".
Ainda bem que tive o Mestre Laurindo e, olhando de hoje, não posso me queixar. Sempre tive que trabalhar para ter um dinheirinho para alguma diversão, pois o básico, minha avó e minhas tias forneciam, inclusive minha simples farda: calça curta azul-marinho e uma camisa branca. Não esquecendo as alpercatas, compradas na feira. Sapato era no São Geraldo. Para jogar bola com a molecada eram melhores as alpercatas, saiam do pé muito mais rápido. Um dia numa “pelada” misturada com os meninos do Ginásio, na saída do Colégio N. S. do Bom Conselho, onde hoje coloco gasolina no carro, quando vou lá na terra (conheço como Posto do Clóvis), aconteceu um “causo” que eu presenciei, mesmo sem estar jogando neste dia. Quem estava jogando, me lembro de alguns: Everaldo, Petrúcio Ferro, Luciano, Diretor Presidente, Saulo, Luis Medeiros (Vaca Loura), Zé Carlos, Eraldo, Marcos Presideu, Elion e outros. A bola corria animadamente. Era daquelas de borracha, grande e amarela, que tinha um pito para encher. Nunca soube de quem era. De repente, chegou Sebastião Peixoto (Lucinha diz que parece ser seu parente) e disse:
- Quero jogar também!
- Os times já estão completos.
Respondeu Vaca Loura.
- Mas eu quero jogar é agora!
Retrucou Sebastião. Diga-se de passagem, ele era mais velho e mais forte do que a maioria dos que estavam jogando, e insistia em jogar, enquanto Vaca Loura repetia a mesma coisa. Momentos depois a bola correu em direção a Sebastião, ele a pegou nas mãos e disse:
- Se eu não jogar eu furo esta merda!
Vaca Loura, crente que ele estava brincando, pegou um lápis que tinha no bolso da farda e disse:
- Pois toma este lápis, fura que eu quero ver!!!
Não houve indecisão por parte de Sebastião, pegou o lápis e tacou na bola, que depois de um leve estampido, ficou mais murcha do que o semblante de Vaca Loura, ao receber a bola vazia, que apenas disse:
- Agora vou dizer a seu Waldemar, você vai ver!!!
E partiu em direção ao Ginásio, enquanto eu e os outros, todos amofinados, paramos com o jogo e nos dispersamos, enquanto Luiz Medeiros se afastava com a “bola murcha” da semana.
Não estudava no Ginásio e nunca soube em que deu o caso da bola furada, depois perguntarei ao Diretor Presidente, talvez ele lembre.
Mesmo sem ter concluído o curso primário, o Mestre Laurindo foi minha base , e igual ao que diz o hino do Ginásio, me deu para futuro o segredo da vitória.

Jameson Pinheirojamesonpinheiro@citltda.com


---------------------

(*) - Fotos do SBC com arte da CIT. Clique nelas para as ver em tamanho maior.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Conversando ao redor de FERNANDO PESSOA



Amigo Cleómenes, bom dia!

A comunicação ficou minguada por que estou em “Sampa” desde domingo último, vim participar de um torneio de Tênis. No torneio já fui exterminado, agora estou só deixando os netos me monopolizarem (como faz a Lucinha com o neto dela).
Pois é, como estou teclando, biologicamente, coninuo vivinho da silva. Como não sou só bio, psicologicamente tento me matar diariamente para o ontem e começar um novo dia, com a inocência de uma criança, no aqui e agora. Como também não sou só bio-psico, socialmente vou vivendo a vida, nos relacionamentos com os seres vivos e as coisas materiais, me reconstruindo a cada instante. Assim, como uma metamorfose bio-psico-social ambulante existo do passado até o presente. Sendo um sistema autopoiético (“autopoiese” – centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos) sou ao mesmo tempo produtor e produto.
O fio condutor da minha existência se enovela num carretel do pensamento sistêmico (de Maturana)/pensamento complexo (de Morin) conduzido pela cibernética de segunda ordem (sistemas-observadores e sistemas-observados). Krishamurti há décadas vem batendo na tecla cibernética (apesar de não empregar esse termo, é um dos pioneiros nessas investigações). Ele afirma que o observador não é separado do observado e que nós somos o mundo.
Amigo Cleómenes, na janela dos meus olhos tem uma espessa cortina pra tanta metafísica, por isso vou silenciar e deixar o Alberto Caeiro falar. OPS!!! É o Fernando Pessoa. Um abração e até “Berlândia” na próxima semana. Fui!!!

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

O GUARDADOR DE REBANHOS (1911-1912)

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


VI

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos! ...

---------------------

Roberto José Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

**************

Prezado Roberto, bom dia, do outro dia!

Você diz que as nossas conversas foram minadas pelo tênis, no qual você foi exterminado. Da minha parte o extermínio veio de um vazio que vem de vez em quando e que os teístas preenchem com Deus e nós, ateus, temos que nos contentar com o nosso esforço, muitas vezes, nos levantando, puxando nossos próprios cabelos. Agora, no meu caso, tentando dar um tom eclético à nossa Biblioteca, e lendo um pouco.
No seu singelo texto de volta, você ataca com ateus pesadíssimos, pelo menos com o que eu conheço apenas da leitura dos pequenos trechos de suas falas que você me enviou: o Krishinamurti. Relendo aquelas classificações todas sobre o grau de agnosticismo ou de crença de cada um, proponho uma definição muito mais simples para a vida prática: Ateu é aquele que não precisa de Deus. Com esta definição, eu incluo no meu time, o Krishnamurti, o Marlos, você, o Fernando Pessoa, o Alberto Caiero, e até alguns papas, que só falavam da boca prá fora. Infelizmente, não posso incluir a Lucinha, pois ela disse que as promessas que fazia a um São Benedito, pelo qual ela passava no caminho de sua escola em Bom Conselho, prometendo rezar algumas Ave-Marias para ele, se ele o ajudasse nas provas, para as quais ela não havia estudado, sempre dava certo. No entanto, o São Benedito só ajudava, segundo ela, se pedisse a ajuda de Deus, e assim, ela precisava de Deus. Não é ateia.
Dizem que Deus nos ajuda mesmo que não saibamos disto, não acredito nisto, pois “se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela minha porta dentro dizendo-me, aqui estou!”
Estou terminando de reler o Dawkins, ainda o “Gene Egoísta”. Você diz que não é só “bio”, e que somos “autopoéticos”. Eu cada vez me convenço mais de que somos só “bio”. O resto é apenas um comportamento dos genes, até nossa próxima etapa evolutiva, no pulo do homem para o “robot-sapiens” que será o próximo “ser” a ser notado pelos biólogos. Por coincidência, lendo uma de nossas revistas semanais, que não quero dizer o nome para não fazer comercial, “veja” bem, um economista propõe uma teoria para História Econômica do Mundo, na qual, segundo ele, “de nada adianta um país ter sistema econômico, leis e instituições propícios ao crescimento se a maior parte da população não for composta de pessoas naturalmente dotadas das qualidades necessárias para ascender em uma economia de mercado.” Entre estas qualidades, que o articulista atribui a um “gene capitalista”, estão a paciência, a inventividade, a habilidade com números, a facilidade de aprendizado e a aversão à violência. Ao acabar de reler o “ateu maior” e me deparar com isto, pensei logo em fazer um curso de Biologia e tentar isolar este vírus, aqui no Brasil, antes que o PT o faça antes, e o extermine de vez. Voltemos à “autopoese”.
Mas, o que me encantou mesmo nesta sua mensagem foi a poesia do Fernando Pessoa, digo, Alberto Caiero. Eu a conhecia, mas não me lembrava dela. Ateu atrai ateu. O meu favorito é Augusto dos Anjos. Talvez pelo fato de que, batem tanto em nós que os poetas ateus são a prova viva de que ateu também pode produzir beleza, incluindo os nossos “memes” que se referem a um Deus que não nos atinge.
O que gostaria, às vezes, era de poder produzir um heterônimo, como Fernando Pessoa construiu os seus, principalmente o Alberto Caiero. Só que ao contrário. Um heterônimo que poderia se chamar Rato de Igreja, e que passaria toda sua vida dedicado à religião, ajudando missas até em latim, organizando todas as atividades de sua paróquia, rezando 300 vezes ao dia e comendo 3, quando não estivesse jejuando, ansiando pelo céu depois da morte, e por uma ajudinha de Deus para ser feliz um pouco aqui, neste mundo. E no final todos lembrariam do Padre da paróquia em que ele habitava, e todos se maravilhariam dos sermões do Padre que o Rato escrevia, e os jornais locais publicariam todos os seus escritos, enviados pelo Padre, e em nome do Padre, ou do filho do Padre, ou mesmo do espírito dele. Todos o leriam, e mandariam os elogios para o Padre, sempre terminando, com as palavras do Sinal da Cruz. Todos os leriam e o comentariam, mesmo nas suas orações. Mas eu talvez não tivesse nem prosa, nem poesia e nem bofe para isto.
Por isso uso o heterônimo dos outros, e imito você, Roberto, ao citar outro trecho deste belo poema:
O GUARDADOR DE REBANHOS.

Alberto Caiero (Fernando Pessoa)

VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha
fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
.............................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta
sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.....................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas
...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


---------------------
Aqueles que tiverem interesse de ler este belo poema na íntegra vão à nossa Biblioteca, nas indicações do Roberto.

Cleómenes Oliveira – cleomenesoliveira@citltda.com