quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Bom Conselho, sem Bolsa



Além de trocar muitas ideias com Eliúde Villela aqui na empresa, apesar de ser um pouco mais velho do que ela, tivemos algo em comum: vivemos em São Paulo antes de aqui parar. Não foram meus pais que me levaram, fui forçado também, mas por outras circunstâncias. Não quero falar sobre esta aventura, pelo menos por enquanto. Mencionei-a aqui por ter lido sua narrativa sobre o que faz a falta de escola em nossas vidas. E disso quero tratar.
Este escrito teve sua inspiração numa frase de Lucinha Peixoto em seu artigo sobre o Ginásio S. Geraldo (http://www.citltda.com/2009/09/xeretando-o-7-de-setembro.html) :

“...e continuo a percorrer outras escolas, e agora uma da qual me lembro, tanto pela sua proximidade do Ginásio quanto pelo que ela representava na desigualdade social que sempre existiu em nossa terra: Grupo Escolar Mestre Laurindo Seabra. Quem não tinha pais com grandes rendas, como eu, e que não conseguia uma bolsa de estudos, esta escola era o destino.”


Isto é a mais pura verdade, quando se refere a mim. Não tive a sorte dela e nunca obtive Bolsa de Estudos. Minhas condições sociais e familiares eram diferentes, e realmente não tive chances e, talvez nem interesse de procurar ajuda para estudar. Depois de passar pela mão de uma tia, que me ensinou as primeiras letras, indo da Carta de ABC à Cartilha do Povo, fui parar no Mestre Laurindo.
Foi lá onde encontrei a maioria dos meus amigos, sendo a proximidade do Ginásio S. Geraldo um fator de ascensão social muito importante, mesmo lá não estudando. O meu esporte preferido, o futebol, me fez conhecer as pessoas de classe “superior”. Como era bom de bola, sempre era convidado, mesmo pelos ricos, para integrar o próximo time. Foram tantos, que perdi a conta.
Naquela época desenvolvi uma ideia, em forma de anedota, que mostrava que os meninos ricos não jogavam bem porque eram sempre o dono da bola e, sendo assim, sempre jogavam. Quem não tinha bola, tinha que ser bom de bola, para jogar. Foi o meu caso. Hoje, não posso dizer qual o valor do futebol para a mobilidade social em Bom Conselho mas, tenho certeza de que os ricos, seja o que for a “bola” hoje, ainda serão os donos e os pobres, que quiserem progredir ainda tem que ser bons de “bola”.
Apesar de ser mais velho do que eu, um dos bons amigos que tive foi o Geraldo de Alves, sobre quem já falei, em artigo anterior (http://www.citltda.com/2009/05/violencia-urbana.html ), num outro contexto. Alves ou Álvares, nunca soube como era mesmo, era o nome do pai dele. O “cumpadre” Geraldo foi aluno do Mestre Laurindo na minha época, sendo mais adiantado do que eu. Era o melhor aluno de D. Jaciara, isto dito por ela mesma. Também lembro dela, de D. Marilene e de D. Ivonete que era Diretora. Muito inteligente, Geraldo foi um dos maiores contadores de estórias de minha infância. Alguns diziam que era um grande mentiroso, eu, não. Minha avó dizia que ele só não era o mais mentiroso de Bom Conselho, porque o Alves, seu pai, mentia mais, e ainda tinha o Rei Querubino. Seu Querubino era pai de seu Florisval e avô de Zé Piulinha. A expressão: “Mente mais do que Querubino”, foi muito conhecida na minha infância. Se isto é verdade ou não, não posso afirmar, pois nem me lembro dele. Se não for, caro Zé Piulinha, com quem também bati bola, me perdoe, pois sei você não mente, e hoje, pelo grande médico que é, sabe que se livrou do fator genético.


Voltando ao Geraldo e seus causos, lembro o que ele contava sobre a mula-sem-cabeça, vista primeiro pelo seu pai, que depois o levou, num noite de sexta-feira, à meia noite, para lhe mostrar que não era mentira. O local era a calçada da Igreja, naquelas noites quase sem luz. Chegaram umas 11:00 horas e ficaram na espreita. Daqui a pouco ele ouve alguns passos e começou a tremer, embora fosse só seu Júlio Zuza e Sebastião Siqueira que também chegavam para esperar a mula. O grupo foi crescendo e ficaram embaixo do pé de Tamarindo, esperando. Daí a pouco ouviram o tropel. Olharam em direção à Praça e viram um corpo de equino, brilhando, mas sem a cabeça. Subiu os degraus, dobrou a esquerda e eles a seguiram de longe. Continuou na calçado e dirigiu-se para a casa paroquial, desaparecendo em seguida. O “cumpadre” Geraldo disse que o corpo tremia todo, enquanto nós, os ouvintes do caso, estávamos de boca aberta. Então, de repente, subiu um fedor horrível vindo do meio do grupo, que estava esperando a mula. Um olhava para o outro sem graça. “Cumpadre” Geraldo termina a estória, com um sorriso nos lábios, dizendo: “Até hoje eu não sei quem produziu aquele fedor. Mas, tenho certeza que no outro dia alguém gastou mais sabão para lavar a cueca”.
Geraldo, foi um grande amigo meu do Mestre Laurindo. Muito tempo depois o encontrei em São Paulo. Nunca foi dono da bola nem se interessou tanto por futebol quanto eu, e sua vida lá foi mais difícil do que a minha.


Lembro também de outro amigo do Grupo: Zezinho de Anália. Sua avó produzia as melhores cocadas que já comi. D. Anália, sua mãe, as vendia na feira. Era de família pobre e teve o mesmo destino que eu: O Grupo Escolar e o trabalho no comércio de Bom Conselho. Trabalhamos juntos uma vez em uma das mercearias da cidade, nos dias de sábado. Era dureza. Chegávamos às 5:00 horas da manhã e saímos às 7:00 da noite, com um breve intervalo para o café da manhã e para o almoço. No sábado, dia da nossa tradicional feira, o trabalho era redobrado. Não darei nomes nesta história pois eles não contam. Eu e Zezinho tínhamos um colega comum que também só trabalhava aos sábados. Certo dia, eu o vi, depois de uma venda, na qual recebíamos diretamente o dinheiro do cliente, este colega pegar uma nota de 20,00 cruzeiros, aquela do Deodoro e colocá-la no bolso de trás da calça. Foi descuidado e a nota ficou aparecendo uma parte de fora do bolso. Zezinho era mais amigo dele do que eu, e minha atitude foi dizer a Zezinho para avisá-lo do deslize. Ele o fez, mas já era tarde. O patrão já vira o que se passava. Para as relações trabalhistas que reinavam naquela época, até que ele foi educado e, talvez, até justo. Chamou nosso colega, pagou o seu dia de trabalho e o mandou embora. Ele entendeu todo o porque perdeu o emprego. Foi um dia triste para nós, e depois nunca mais comentamos o caso. Por que menciono isto aqui? Apenas para dizer que nenhum de nós três tinha mais de 12 anos de idade. Nosso lugar seria na escola e nas brincadeiras que desenvolvem o cérebro para sermos cidadãos úteis. Depois descobri que o nosso colega comum não chegara nem ao Mestre Laurindo. Até quando nossa elite enfiará a cabeça dentro de um balde de leite, para não descobrir que, sem educação de base para todos, o discurso de participação popular não passa de um engodo? Nossas crianças, sem escolas, continuam perdendo o emprego e talvez a vida por 20,00 cruzeiros, reais, moedas de ouro ou pedras de "crack".
Ainda bem que tive o Mestre Laurindo e, olhando de hoje, não posso me queixar. Sempre tive que trabalhar para ter um dinheirinho para alguma diversão, pois o básico, minha avó e minhas tias forneciam, inclusive minha simples farda: calça curta azul-marinho e uma camisa branca. Não esquecendo as alpercatas, compradas na feira. Sapato era no São Geraldo. Para jogar bola com a molecada eram melhores as alpercatas, saiam do pé muito mais rápido. Um dia numa “pelada” misturada com os meninos do Ginásio, na saída do Colégio N. S. do Bom Conselho, onde hoje coloco gasolina no carro, quando vou lá na terra (conheço como Posto do Clóvis), aconteceu um “causo” que eu presenciei, mesmo sem estar jogando neste dia. Quem estava jogando, me lembro de alguns: Everaldo, Petrúcio Ferro, Luciano, Diretor Presidente, Saulo, Luis Medeiros (Vaca Loura), Zé Carlos, Eraldo, Marcos Presideu, Elion e outros. A bola corria animadamente. Era daquelas de borracha, grande e amarela, que tinha um pito para encher. Nunca soube de quem era. De repente, chegou Sebastião Peixoto (Lucinha diz que parece ser seu parente) e disse:
- Quero jogar também!
- Os times já estão completos.
Respondeu Vaca Loura.
- Mas eu quero jogar é agora!
Retrucou Sebastião. Diga-se de passagem, ele era mais velho e mais forte do que a maioria dos que estavam jogando, e insistia em jogar, enquanto Vaca Loura repetia a mesma coisa. Momentos depois a bola correu em direção a Sebastião, ele a pegou nas mãos e disse:
- Se eu não jogar eu furo esta merda!
Vaca Loura, crente que ele estava brincando, pegou um lápis que tinha no bolso da farda e disse:
- Pois toma este lápis, fura que eu quero ver!!!
Não houve indecisão por parte de Sebastião, pegou o lápis e tacou na bola, que depois de um leve estampido, ficou mais murcha do que o semblante de Vaca Loura, ao receber a bola vazia, que apenas disse:
- Agora vou dizer a seu Waldemar, você vai ver!!!
E partiu em direção ao Ginásio, enquanto eu e os outros, todos amofinados, paramos com o jogo e nos dispersamos, enquanto Luiz Medeiros se afastava com a “bola murcha” da semana.
Não estudava no Ginásio e nunca soube em que deu o caso da bola furada, depois perguntarei ao Diretor Presidente, talvez ele lembre.
Mesmo sem ter concluído o curso primário, o Mestre Laurindo foi minha base , e igual ao que diz o hino do Ginásio, me deu para futuro o segredo da vitória.

Jameson Pinheirojamesonpinheiro@citltda.com


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(*) - Fotos do SBC com arte da CIT. Clique nelas para as ver em tamanho maior.

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