segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Conversando ao redor de FERNANDO PESSOA



Amigo Cleómenes, bom dia!

A comunicação ficou minguada por que estou em “Sampa” desde domingo último, vim participar de um torneio de Tênis. No torneio já fui exterminado, agora estou só deixando os netos me monopolizarem (como faz a Lucinha com o neto dela).
Pois é, como estou teclando, biologicamente, coninuo vivinho da silva. Como não sou só bio, psicologicamente tento me matar diariamente para o ontem e começar um novo dia, com a inocência de uma criança, no aqui e agora. Como também não sou só bio-psico, socialmente vou vivendo a vida, nos relacionamentos com os seres vivos e as coisas materiais, me reconstruindo a cada instante. Assim, como uma metamorfose bio-psico-social ambulante existo do passado até o presente. Sendo um sistema autopoiético (“autopoiese” – centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos) sou ao mesmo tempo produtor e produto.
O fio condutor da minha existência se enovela num carretel do pensamento sistêmico (de Maturana)/pensamento complexo (de Morin) conduzido pela cibernética de segunda ordem (sistemas-observadores e sistemas-observados). Krishamurti há décadas vem batendo na tecla cibernética (apesar de não empregar esse termo, é um dos pioneiros nessas investigações). Ele afirma que o observador não é separado do observado e que nós somos o mundo.
Amigo Cleómenes, na janela dos meus olhos tem uma espessa cortina pra tanta metafísica, por isso vou silenciar e deixar o Alberto Caeiro falar. OPS!!! É o Fernando Pessoa. Um abração e até “Berlândia” na próxima semana. Fui!!!

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

O GUARDADOR DE REBANHOS (1911-1912)

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


VI

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos! ...

---------------------

Roberto José Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

**************

Prezado Roberto, bom dia, do outro dia!

Você diz que as nossas conversas foram minadas pelo tênis, no qual você foi exterminado. Da minha parte o extermínio veio de um vazio que vem de vez em quando e que os teístas preenchem com Deus e nós, ateus, temos que nos contentar com o nosso esforço, muitas vezes, nos levantando, puxando nossos próprios cabelos. Agora, no meu caso, tentando dar um tom eclético à nossa Biblioteca, e lendo um pouco.
No seu singelo texto de volta, você ataca com ateus pesadíssimos, pelo menos com o que eu conheço apenas da leitura dos pequenos trechos de suas falas que você me enviou: o Krishinamurti. Relendo aquelas classificações todas sobre o grau de agnosticismo ou de crença de cada um, proponho uma definição muito mais simples para a vida prática: Ateu é aquele que não precisa de Deus. Com esta definição, eu incluo no meu time, o Krishnamurti, o Marlos, você, o Fernando Pessoa, o Alberto Caiero, e até alguns papas, que só falavam da boca prá fora. Infelizmente, não posso incluir a Lucinha, pois ela disse que as promessas que fazia a um São Benedito, pelo qual ela passava no caminho de sua escola em Bom Conselho, prometendo rezar algumas Ave-Marias para ele, se ele o ajudasse nas provas, para as quais ela não havia estudado, sempre dava certo. No entanto, o São Benedito só ajudava, segundo ela, se pedisse a ajuda de Deus, e assim, ela precisava de Deus. Não é ateia.
Dizem que Deus nos ajuda mesmo que não saibamos disto, não acredito nisto, pois “se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela minha porta dentro dizendo-me, aqui estou!”
Estou terminando de reler o Dawkins, ainda o “Gene Egoísta”. Você diz que não é só “bio”, e que somos “autopoéticos”. Eu cada vez me convenço mais de que somos só “bio”. O resto é apenas um comportamento dos genes, até nossa próxima etapa evolutiva, no pulo do homem para o “robot-sapiens” que será o próximo “ser” a ser notado pelos biólogos. Por coincidência, lendo uma de nossas revistas semanais, que não quero dizer o nome para não fazer comercial, “veja” bem, um economista propõe uma teoria para História Econômica do Mundo, na qual, segundo ele, “de nada adianta um país ter sistema econômico, leis e instituições propícios ao crescimento se a maior parte da população não for composta de pessoas naturalmente dotadas das qualidades necessárias para ascender em uma economia de mercado.” Entre estas qualidades, que o articulista atribui a um “gene capitalista”, estão a paciência, a inventividade, a habilidade com números, a facilidade de aprendizado e a aversão à violência. Ao acabar de reler o “ateu maior” e me deparar com isto, pensei logo em fazer um curso de Biologia e tentar isolar este vírus, aqui no Brasil, antes que o PT o faça antes, e o extermine de vez. Voltemos à “autopoese”.
Mas, o que me encantou mesmo nesta sua mensagem foi a poesia do Fernando Pessoa, digo, Alberto Caiero. Eu a conhecia, mas não me lembrava dela. Ateu atrai ateu. O meu favorito é Augusto dos Anjos. Talvez pelo fato de que, batem tanto em nós que os poetas ateus são a prova viva de que ateu também pode produzir beleza, incluindo os nossos “memes” que se referem a um Deus que não nos atinge.
O que gostaria, às vezes, era de poder produzir um heterônimo, como Fernando Pessoa construiu os seus, principalmente o Alberto Caiero. Só que ao contrário. Um heterônimo que poderia se chamar Rato de Igreja, e que passaria toda sua vida dedicado à religião, ajudando missas até em latim, organizando todas as atividades de sua paróquia, rezando 300 vezes ao dia e comendo 3, quando não estivesse jejuando, ansiando pelo céu depois da morte, e por uma ajudinha de Deus para ser feliz um pouco aqui, neste mundo. E no final todos lembrariam do Padre da paróquia em que ele habitava, e todos se maravilhariam dos sermões do Padre que o Rato escrevia, e os jornais locais publicariam todos os seus escritos, enviados pelo Padre, e em nome do Padre, ou do filho do Padre, ou mesmo do espírito dele. Todos o leriam, e mandariam os elogios para o Padre, sempre terminando, com as palavras do Sinal da Cruz. Todos os leriam e o comentariam, mesmo nas suas orações. Mas eu talvez não tivesse nem prosa, nem poesia e nem bofe para isto.
Por isso uso o heterônimo dos outros, e imito você, Roberto, ao citar outro trecho deste belo poema:
O GUARDADOR DE REBANHOS.

Alberto Caiero (Fernando Pessoa)

VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha
fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
.............................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta
sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.....................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas
...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


---------------------
Aqueles que tiverem interesse de ler este belo poema na íntegra vão à nossa Biblioteca, nas indicações do Roberto.

Cleómenes Oliveira – cleomenesoliveira@citltda.com

Nenhum comentário: